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Tiago Queiroz/ Estadão
Hélio da Silva, 70 anos, brinca de subir na árvore que plantou. Tiago Queiroz/ Estadão

Hélio da Silva, 70 anos, brinca de subir na árvore que plantou. Tiago Queiroz/ Estadão

Retomada verde: relembre as nove histórias com ações positivas para o meio ambiente

Do Seu Hélio, que criou um parque linear ao plantar 30 mil árvores, ao artista plástico Link Museu, que busca recursos para preservar um rio na periferia de São Paulo

João Prata , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Hélio da Silva, 70 anos, brinca de subir na árvore que plantou. Tiago Queiroz/ Estadão

Foram nove personagens publicados semanalmente no site ao longo de pouco mais de dois meses. Em comum, todos tinham uma ação positiva para o meio ambiente com temas dos mais variados. As histórias de alguma maneira tinham também relação com a capital paulista e sua tentativa de retomada verde.

Seu Helio plantou 33 mil árvores e criou um parque linear em área degradada. Luiz de Campos e José Bueno criaram um projeto que mapeou 800 rios que estão sob o concreto da cidade. Dona Maria Helena contou sobre a importância da polinização com suas mais de 40 mil abelhas sem ferrão.  Rogério Airoldi fez do seu condomínio um local sustentável, com compostagem, horta e água de reúso. 

Regiane Alves deixou uma vida caótica no centro para se tornar agricultora orgânica na área rural da capital paulista. Cansado das ruas de concreto, Danilo Bifone começou a quebrar as calçadas para plantar árvores. O músico Marcelo Grilo tenta preservar uma das represas do Sistema Cantareira, principal fonte de abastecimento de água de São Paulo. O advogado Jayme Roso fez do seu sítio uma reserva ambiental e hoje em seu terreno é feito a soltura de animais selvagens. Por fim, Link Museu mostra sua tentativa de se tornar um Seu Helio e transformar as margens de um rio na Cidade Tiradentes em parque.

Para quem perdeu algumas das histórias, organizamos aqui um resumo de toda a produção.

Plantador de árvores

Lá vai seu Hélio. Botina sem meia, bermuda, camiseta, duas máscaras no rosto, o óculos de grau e uma sacola de pano suja de terra pendurada no ombro. Está pronto para dar mais uma volta na floresta que ele mesmo plantou. E quando se diz floresta, não é força de expressão. São 33.136 árvores, de 160 espécies, em uma área de 3,8 quilômetros de extensão na região da Penha, zona leste de São Paulo. Um trabalho obsessivo realizado pelo gerente comercial Hélio da Silva, de 70 anos, que começou em 2003 e segue até hoje, devidamente reconhecido como primeiro parque linear da cidade. "O que fiz foi trazer elas de volta. Podem não acreditar, mas quando as trouxe o solo as reconheceu e tudo se transformou. É lúdico o negócio. Aqui era terra de ninguém e agora é isso aí." 

Caçadores de rios

O urbanista José Bueno e o geógrafo Luiz de Campos criaram há dez anos o projeto Rios e Ruas, que tem por objetivo sensibilizar pessoas a respeito da realidade dos rios esquecidos pela cidade. A dupla mapeou 800 cursos d'água escondidos sob o concreto de São Paulo. Não satisfeito com isso, eles organizam expedições para contar a história dos rios, mostrar a relação que ele ainda tem com a cidade e assim, de alguma maneira, mudar a mentalidade da população. "Vivemos em uma cidade biofóbica. Acham que a raiz da árvore estraga a calçada, que a folha entope a calha, que o rio inunda e traz mau cheiro. A gente vai se afastando do que é natural. Nosso processo é repensar nossa relação com o que é vivo. O cuidado com os rios não é uma poesia. É proteger o que é vivo. É um trabalho de transformação do nosso olhar", diz Bueno.

Criadora de abelhas sem ferrão

Dona Maria Helena Priseajniuc, de 86 anos, cuida de mais de 40 mil abelhas sem ferrão no quintal de casa. Mas quem visitá-la nem vai notar direito que a população na área externa de sua residência supera a de muitos municípios brasileiros. A maioria dos insetos fica dentro das pouco mais de 30 caixas de madeira, que estão distribuídas em prateleiras, como produtos de um supermercado. Há diversas espécies: Jataí, Mandaçaia, Mandaguari, Arapuá, todas nativas brasileiras, que não representam perigo para as pessoas e são fundamentais na polinização das plantas. A criação já se expandiu para o terreno do vizinho e também tem sido alocada em praças e árvores da região da Mooca, na zona leste de São Paulo, onde ela mora. 

Condomínio sustentável

O professor de física Rogério Airoldi decidiu transformar o condomínio onde mora em um local sustentável. Nos últimos seis anos, eles construíram 11 composteiras, que transformam mensalmente 8 toneladas de resíduo orgânico dos moradores em adubo. O adubo é usado para o jardim e também fez de uma área abandonada, cheia de entulho, numa imensa horta comunitária, onde cada um planta o que quiser. Da horta, veio a ideia de coletar a água das áreas comuns. Foram instaladas quatro caixas d'água com capacidade total para armazenar 45 mil litros. O lixo reciclável também é todo separado e colocado em containers. Eles não usam mais sacos plásticos. O dinheiro arrecadado pela coleta entra na caixinha dos funcionários mensalmente. Uma coisa vai puxando a outra e as ideias para melhorias já mobilizam mais de uma centena de moradores.

Agricultores orgânicos de Parelheiros

Regiane Alves descobriu há pouco mais de seis anos os benefícios da agricultura orgânica e da agroecologia. Antes ela vivia no Grajaú e tentava seguir a carreira de engenheira civil. Nem gostava muito de passar os finais de semana no sítio da família na região de Parelheiros, na zona sul de São Paulo. Depois de perder o pai, ela e a mãe decidiram mudar de vida e foram para área rural da capital paulista. "Percebemos que tudo passa muito rápido, que era preciso dar mais valor às coisas. A gente vivia no automático, minha mãe era comerciante e não tinha hora para almoçar, não ia em consulta médica porque estava sempre atarefada. Vimos que precisava mudar, pensar mais na gente."

Quebrador de calçadas

Há mais de 30 anos, Danilo Bifone criou o Muda Mooca. Ele quebra calçadas, planta mudas, revitaliza áreas degradadas e ajuda os paulistanos a respirar melhor. A iniciativa atrai cada vez mais gente e já inspirou moradores de outras regiões a criar, por exemplo, o Muda Vila Leopoldina, Muda Ipiranga, Muda São Caetano, Muda Santo André e por aí vai. O projeto de arborizar São Paulo é só um hobby. Danilo é formado em Direito e trabalha como servidor público. Nos finais de semana é que tira o banco do passageiro do seu fusca 1983 e preenche com pá, britadeira, terra, adubo e outros instrumentos necessários para sua missão ambiental. "A árvore altera o microclima local. Na cidade de São Paulo há diferença de até dez graus entre regiões mais e menos arborizadas. É possível notar essa diferença comparando as temperaturas da Avenida Paulista e do Tremembé, por exemplo", conta.

Guardião da represa

O músico Marcelo Grillo vive com a esposa Renata, em Joanópolis, no interior de São Paulo. Ao longo dos últimos 30 anos, ele planta árvores nativas de Mata Atlântica nas margens da represa Jaguari-Jacareí, que faz parte do Sistema Cantareira, principal fonte de abastecimento de água de São Paulo. A presença da mata ciliar traz uma série de benefícios para o local. O principal deles é que evita o assoreamento, ou seja, dificulta que a terra corra para a represa e acabe com o reservatório de água. "As florestas funcionam como esponjas da água da chuva. Se você tem uma área descampada, principalmente em regiões como essa aqui onde existe declividade, a água bate no solo, lava a camada superficial e vai assoreando a represa. As árvores não deixam isso acontecer. As folhas abrandam e fazem a água cair com menor impacto, além de espaçar a chuva no tempo. Ainda, as raízes criam canais para que essa água chegue lentamente ao lençol freático e seja distribuída para os riachos da região. Fora os benefícios para fauna", ensina.

O Dono de uma reserva ambiental

O advogado Jayme Roso foi comprando terras na região próxima a rodovia dos Imigrantes, entre São Paulo e São Bernardo, e fez de uma área loteada, uma reserva de Mata Atlântica. No total, possui uma área de 850 mil metros quadrados, o equivalente a 750 campos de futebol, que se tornou habitat de centenas de espécies de aves, tatus, cobras, antas, gatos e cachorros do mato e até onça. Desde 1995, o Sítio Curucutu é reconhecido como RPPN (Reserva Privada do Patrimônio Natural), um certificado do governo federal no qual os donos assumem a responsabilidade de manter a preservação da natureza, de proteger os recursos hídricos, de auxiliar no manejo e de colaborar no desenvolvimento de pesquisas científicas, entre vários outros serviços ambientais.

Pichador, artista plástico e ativista ambiental

Link Museu é artista plástico, grafiteiro, pichador e também um cara que se preocupa com a preservação do meio ambiente. Ele luta para manter limpa uma nascente de rio que fica numa praça batizada por ele e os amigos de Luau dos Loucos. Seu sonho é transformar as margens do rio em um parque linear. Ele contou um pouco da sua história que começou com as expulsões na escola por rabiscar parede até ser convidado para expor em galeria, sem esquecer de cuidar do lugar onde mora. "Já tinha um monte de lugar para perdição aqui na quebrada sem levar nada a lugar nenhum. Percebemos que as margens do rio estavam ficando degradada. Ali era nosso lugar, a gente tinha que mudar."

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A história do homem que plantou 33 mil árvores e criou o 1º parque linear de SP

Atitude do gerente comercial que transformou parte da região da Penha em floresta de Mata Atlântica abre a série semanal de reportagens sobre iniciativas individuais que ajudam o meio ambiente

João Prata, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2021 | 15h00

Lá vai seu Hélio. Botina sem meia, bermuda, camiseta, duas máscaras no rosto, o óculos de grau e uma sacola de pano suja de terra pendurada no ombro. Está pronto para dar mais uma volta na floresta que ele mesmo plantou. E quando se diz floresta, não é força de expressão. São 33.136 árvores, de 160 espécies, em uma área de 3,8 quilômetros de extensão na região da Penha, zona leste de São Paulo. Um trabalho obsessivo realizado pelo gerente comercial Hélio da Silva, de 70 anos, que começou em 2003 e segue até hoje, devidamente reconhecido como primeiro parque linear da cidade. 

 

Para contar essa história seu Hélio precisa somente do que guarda naquela sacola. Uma folha de caderno preenchida frente e verso, rasurada, guarda o nome de cada uma das árvores que estão lá e mostra o saldo da plantação ano a ano. Dois álbuns abarrotados de fotos revelam a transformação de uma área abandonada em uma linha contínua verde que nem o drone lá do alto consegue registrar direito onde começa e onde termina. 

Natural de Promissão, no interior de São Paulo, seu Hélio se mudou para a Penha ainda garoto, em 1958. Estudou, trabalhou, criou os filhos e hoje brinca com os netos na região. Sempre gostou de caminhar pela Avenida Carvalho Pinto e vivia incomodado com o abandono que era o canteiro central, às margens do poluído Rio Tiquatira. Depois de se estabelecer profissionalmente, decidiu agir. 

Comprou de cara 200 mudas e foi lá plantar. Uma turma não gostou da ideia e arrancou tudo na madrugada seguinte. Seu Hélio insistiu. Voltou uns dias depois com 400 árvores. Jogaram fora novamente. Aí ele se revoltou. "Pensei: 'está bom, agora vou cansar esses filhas da mãe de destruir árvore. Vou plantar 5 mil'." 

Foi em meio a essa insistência que o Grupo Estado começou a acompanhar a saga de Seu Hélio. Em 2004, o Jornal da Tarde foi o primeiro a noticiar a história. Nesse período, o gerente comercial estava sendo incomodado por um antigo dono de loja da região, que chegou a ameaçá-lo. O inimigo das árvores usava o local de estacionamento e dizia que a vegetação iria atrapalhar a visualização de sua fachada. 

Moradores da região ficaram do lado de seu Hélio. Usuários de drogas no descampado também gostaram da ideia de ter uma sombra no local e ajudaram a tomar conta das árvores. Aquele comerciante recuou. Seu Hélio avançou. As economias de uma vida dedicada a área de marketing e vendas viraram mudas. Começaram pequenos mutirões para plantar. Nada grandioso, mas aos poucos a região foi sendo transformada. 

Tudo era feito geralmente nos finais de semana. Seu Hélio ainda precisava trabalhar. Depois de 25 anos à frente das vendas da Coopersucar, ele ajudou a montar um negócio para produzir açúcar e álcool orgânicos, a Native, onde trabalha há 21 anos. "Lá na empresa sou só um trabalhador. Aqui no meio das árvores é onde estou e pretendo estar até o resto da vida." 

A única informação que ele não guarda em sua sacola é de quanto já gastou, ou melhor, investiu, com terra, adubo, ferramentas e mudas. "Em um ano, foram R$ 29 mil, em outro, R$ 32 mil, no início foi menos. Melhor não calcular essas coisas."

Isso sem contar o dinheiro que distribui para o pessoal que fica de bobeira no parque. Em troca, Seu Hélio pede para ajudar na plantação. Apesar de não ter uma formação na área biológica, criou critérios técnicos para reflorestar o local. O conhecimento veio de pesquisar em casa e de sair por aí perguntando. Em qualquer lugar, podia ser em uma viagem com a família, em uma ida aos fornecedores das mudas no interior de São Paulo ou para quem aparecesse para conversar sobre o assunto.

As árvores do parque são distribuídas em linhas retas, acompanhando a margem do rio. Uma muda é plantada a cada cinco passos, em um buraco de 60cm x 40 cm. Um pouco de terra fofa é colocada no fundo para as raízes se espalharem com maior facilidade. A botina pisa bem rente ao tronco para fixar melhor e evitar que o vento e a chuva derrubem a nova habitante. "A cada 12 mudas, obrigatoriamente, uma tem que ser frutífera. É regra, assim atrai os pássaros."

Seu Hélio caminha e vai apontando para sua obra, quase todas árvores nativas da Mata Atlântica. "Ingá, Quaresmeira, Babosa, Jequitibá branco, Aroeira, Salsa... Amassa essa folha aqui e cheira. Não parece alho? É a Pau D'Alho. Os índios enrolavam no peixe para temperar", ensina. Ao notar um ponto de referência, abre o álbum de fotos. "Está vendo o prédio ali, olha como era em 2003. Agora você nem vê ele direito, as árvores tamparam."

O carinho que o gerente comercial tem com a região começou a ser reconhecido oficialmente em 2007, quando o espaço recebeu o status de parque linear, o primeiro do município. Ele encontra esse momento no álbum e se mostra na imagem ao lado de diversos políticos. Foi nesse período que conseguiu bater a meta das 5 mil árvores. "O que fiz foi trazer elas de volta. Podem não acreditar, mas quando as trouxe o solo as reconheceu e tudo se transformou. É lúdico o negócio. Aqui era terra de ninguém e agora é isso aí." 

A ação de fato mudou completamente o local. Segundo seu Hélio, houve uma valorização dos imóveis em cerca de 30%. A temperatura também ficou mais amena. Do meio da avenida para a parte central do parque há uma diferença de 5ºC. As árvores trouxeram pássaros. São dezenas de espécies que agora vivem ali. O índice de criminalidade diminuiu, as pessoas começaram a praticar mais atividades físicas. "Ouço cada história. Tem gente que me agradece toda vez e diz que o parque salvou sua vida. A pessoa andava depressiva, trancada em casa e agora vem aqui todo dia."

De acordo com a organização do parque, circulam em média 700 pessoas por dia no local. Nos finais de semana, a esposa e os filhos já desistiram de acompanhar seu Hélio. O Plantador de Árvores, como ficou conhecido na região, é parado o tempo inteiro para uma conversa. Alguém sempre aparece com novos planos para aquela área toda. 

Ele dá risada e diz que a família têm certo ciúmes das árvores. Seu Hélio conta que resolve quase todos os problemas conversando com essas amigas. "Agradeço a elas e elas me agradecem. A gente tem esse diálogo. Elas escutam tudo, está provado". Os 70 anos de idade também parecem sumir quando ele está por ali. Em um piscar de olhos, seu Hélio firma a mão em um galho, alcança o pé em outro e quando vai ver, já está no alto do Ingá. "Vai ali, por favor, e tira uma foto com meu celular."

A meta atual de seu Helio é conseguir manter a média de três mil árvores plantadas por ano. A pandemia, ele diz, dificultou um pouco seu trabalho. Mas não tem problema. Ele aproveita cada ida para plantar ao menos uma muda. Durante a entrevista, ele entregou ao repórter e ao fotógrafo uma árvore para cada. Em seguida, escolheu o lugar, ajudou a cavar e orientou para que nada fugisse ao protocolo. Então, tirou o celular da sacola, bateu uma foto e avisou. "Daqui uns anos vocês voltam e a gente faz outra para mostrar a diferença."

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Caçadores de rios: como dois amigos mapearam 800 cursos d'água escondidos sob o concreto de SP

Arquiteto José Bueno e geógrafo Luiz de Campos criaram há dez anos o projeto Rios e Ruas; Estadão acompanhou com eles o trajeto do Córrego do Sapateiro, que nasce no cano de um prédio, abastece o lago do Ibirapuera e termina no Rio Pinheiros

João Prata, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2021 | 15h00

A água que sai do cano do prédio é um problema para os moradores das imediações da Praça Arquimedes Silva, na Vila Mariana. Quando chove então, fica impossível de estacionar o carro nas imediações e descer sem molhar os pés. A água inunda toda a rua. Na reunião de condomínio ficou decidido que havia chegado a hora de contratar um escritório de arquitetura e acabar com aquele aguaceiro sem fim. 

A arquiteta visitou o local com a intenção inicial de deixar a vazão sob o asfalto e secar a sarjeta. Bem naquele momento, em frente ao prédio, o urbanista José Bueno e o geógrafo Luiz de Campos explicavam ao Estadão como funciona o projeto Rios e Ruas, criado por eles há dez anos, que tem por objetivo sensibilizar pessoas a respeito da realidade dos rios esquecidos pela cidade.

O repórter e o fotógrafo estavam agachados, com a mão na água que saía gelada e transparente daquele cano enferrujado. "Repare que pelo caminho dela há plantas e musgos, sinal que não possui produtos químicos, como cloro por exemplo", ensinou Campos. "Essa água, o prédio precisa bombear para rua a cada 20 minutos sem parar porque senão inunda a garagem. Essa água é na verdade uma das nascentes do Córrego do Sapateiro", acrescentou.

O Sapateiro e boa parte dos 800 rios que estão escondidos embaixo do concreto da capital paulista nascem próximos à estação Ana Rosa do metrô. A região alta da cidade é denominada Espigão de São Paulo, uma crista que separa as duas grandes bacias do município: de um lado, córregos e riachos descem em direção ao Tietê. Do outro, desembocam no Rio Pinheiros.

A missão da dupla Bueno e Campos é procurar por rios escondidos e revelar seu trajeto. Depois, juntar quanto mais gente possível, e realizar expedições na cidade para contar a história dos cursos d'água, sua relação com a cidade e tentar de alguma maneira mudar a mentalidade da população.

"Vivemos em uma cidade biofóbica. Acham que a raiz da árvore estraga a calçada, que a folha entope a calha, que o rio inunda e traz mau cheiro. A gente vai se afastando do que é natural. Nosso processo é repensar nossa relação com o que é vivo. O cuidado com os rios não é uma poesia. É proteger o que é vivo. É um trabalho de transformação do nosso olhar", diz Bueno.

 

Campos acrescenta que independentemente da ação do homem ou das ideias para colocar ainda mais concreto na cidade, os rios continuarão existindo. "É praticamente impossível matar um rio. Por mais metrôs, ruas e prédios com garagens  sejam construídos, o rio não morre. Ele pode no máximo mudar seu curso, mas continuará existindo", conta.

De dentro do prédio, a arquiteta ficou intrigada ao notar o fotógrafo registrando aquele cano como se fosse uma cachoeira amazônica. Ela não precisou nem perguntar. Bueno já viu o olhar curioso dela, pediu autorização ao porteiro e foi palestrar. É sempre assim nas expedições. Qualquer um que demonstre curiosidade, ele vai lá e fala sobre os rios. Ele já tinha feito isso minutos antes com um garoto que lavava os vidros dos carros no semáforo. O garoto entendeu que a água que saía da torneira vinha de um rio. Foi assim também no primeiro rio que Bueno e Campos descobriram juntos.

Em maio de 2010 um amigo em comum colocou os dois para tomar café, disse que eles precisavam conversar e foi embora. Além de fumantes, os dois tinham em comum essa inquietação e, indignação, sobre a força da grana que ergue e destrói coisas belas na cidade. Campos contou sobre o trabalho que fazia desde 1995 com a temática "rios invisíveis" e Bueno adorou, lembrou de suas origens na FAU como estudante de arquitetura e urbanismo. Uns dias depois pegaram a bicicleta, o mapa hidrográfico da cidade e saíram por aí. 

Encontraram um riacho em um terreno baldio, que passava sob uma delegacia. Bueno entrou, falou com o delegado, que adorou a iniciativa e ajudou a dupla a pular um muro e seguir o rio até o final. 

Bueno contou à arquiteta sobre projetos urbanísticos em cidades da Europa. Deu o exemplo de Freiburg, na Alemanha, onde canaletas são construídas entre a calçada e a rua para que os rios passem aos olhos da população, despoluídos. O país europeu estabeleceu como meta até 2050 recuperar todos os rios, suas curvas, e tirá-los do subterrâneo. A arquiteta ficou encantada, mas precisou ir embora, pois o motorista do Über havia chegado. 

Seguimos com Bueno e Campos o trajeto do Sapateiro, que está sob o concreto. Na Rua Maestro Callia, ainda na Vila Mariana, uma ladeira esburacada, com muros altos dos dois lados e com pouco movimento, um gradil no asfalto permite ver a continuação do riacho, uns três metros para baixo. A água está ainda mais forte e com cheiro de esgoto. "Aqui é um exemplo de rua que não precisa existir. Imagina um pequeno deck de madeira e as pessoas podendo acessar o rio? Era assim até o final dos anos 50 mais ou menos", conta Bueno.

O urbanista mostra o celular. No stories do Instagram a arquiteta Georgia Gadea avisa aos seguidores que teve há pouco um encontro que mudou sua perspectiva. "Milagres de rio", brinca Bueno. Ao Estadão, ela contou que procurou a prefeitura de São Paulo e sugeriu de aproveitar aquela água e construir uma fonte no meio da praça.  "Acabaria com problema do desperdício da água. E também seria um jeito de informar a todos que ali nasce um rio. O Bueno plantou uma semente de como tem riqueza embaixo dos pés e pela história a gente enterrou, ignorou. Seria um pouco isso. De plantar novas sementes." 

O Sapateiro some novamente uns metros adiante e vai aparecer somente no Parque do Ibirapuera. Lá passa por uma estação de tratamento chamada de flotação. A água passa por um processo de limpeza com oxigênio e produtos químicos, que fazem os poluentes emergirem como espuma. Grades também contém objetos que foram jogados no rio. Uns metros depois disso já é possível ver peixes e aves no córrego, que segue e vai desaguar no grande lago do parque. 

O trajeto ainda não terminou. Ele segue sob a Juscelino Kubitschek, passa à margem do Parque do Povo e deságua no Rio Pinheiros. Entre plásticos, pneus e uma poluição que as águas arrastam, o projeto de despoluição do Sapateiro tem permitido que garças se posicionem na foz do rio para pescar peixes que chegam vivos até ali. Campos alerta que não há milagre, por enquanto, que o peixe que cai ali morrerá logo por falta de oxigênio. As águas do Sapateiro seguem pelo rio Pinheiros, descem pelos Estados ao Sul do Brasil, continuam pela fronteira entre Uruguai e Argentina até desaguar no Oceano Atlântico.

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Dona Maria Helena cuida de mais de 40 mil abelhas sem ferrão no quintal de casa

Insetos de diferentes espécies, todos nativos do Brasil, vivem em cerca de 30 caixas de madeira; aposentada ensina como criar e fala sobre os benefícios que trazem para a polinização das plantas

João Prata, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 15h00

Dona Maria Helena Priseajniuc, de 86 anos, cuida de mais de 40 mil abelhas sem ferrão no quintal de casa. Mas quem visitá-la nem vai notar direito que a população na área externa de sua residência supera a de muitos municípios brasileiros. A maioria dos insetos fica dentro das pouco mais de 30 caixas de madeira, que estão distribuídas em prateleiras, como produtos de um supermercado. Há diversas espécies: Jataí, Mandaçaia, Mandaguari, Arapuá, todas nativas brasileiras, que não representam perigo para as pessoas e são fundamentais na polinização das plantas. A criação já se expandiu para o terreno do vizinho e também tem sido alocada em praças e árvores da região da Mooca, na zona leste de São Paulo, onde ela mora.   

O filho Danilo, envolvido com ações ambientais em São Paulo, foi quem deu o empurrãozinho inicial. Há cinco anos, Dona Maria Helena se lamentava da vida de aposentada, tinha um problema na bacia, dificuldade para se locomover e quase não saía de casa. Danilo deu a ela uma enxame de Jataí. A caixa foi batizada de felicidade.

Dona Maria Helena trata as abelhas como se fossem netas. As dores no corpo e o cansaço ficaram para trás. Ela passou a ocupar seu tempo entre a teoria e a prática dos cuidados com "suas pequenininhas", como gosta de chamar. Além de dar bom dia, boa tarde e boa noite, vai para o fogão cozinhar. Prepara um xarope como reforço alimentar, pois a região carece de vegetação e mima todas elas com bombons de pólen com mel. "Elas adoram, precisa ver só. Comem tudinho." 

As abelhas ajudaram também na transformação da casa. Dona Maria Helena deu mais atenção para as plantas que já cultivava. Descobriu que as abelhas gostam da flor do manjericão. Foi lá e plantou um vaso cheio do tempero. "Plantei também Assa Peixe. Dá uma florzinha fedida, mas elas gostam. Aí eu planto, né?" 

A vizinhança incentiva a criação. Teve só um dia que uma mulher passou em frente à casa e sugeriu que Dona Maria Helena comprasse veneno para acabar com aqueles mosquitinhos. De fato, a Jataí, uma espécie bem pequena e que constrói um cano de cera na entrada de sua colmeia, parece um mosquito para quem é leigo no assunto. 

Mas Dona Maria Helena ensina as diferenças. Ela também fica de olho para apartar eventuais brigas entre diferentes colmeias. Quando há algum tipo de confusão, o quintal da casa fica com uma névoa preta. E lá vai Dona Maria Helena borrifar água. "Jogo uma chuvinha nelas e pronto. Não é sempre que acontece. É bem raro. Mas você precisa ver. As menorzinhas são as piores. Arrancam a cabeça das grandes."

O sucesso na criação e o aumento das colônias faz de Dona Maria Helena quase que uma celebridade no bairro onde mora. Já está acostumada até a dar palestras para as amigas sobre os cuidados necessários com as abelhas e a importância na polinização. "No começo, elas me perguntavam: 'todas produzem mel? Me dá um pouco?'. E eu sempre falo que não tiro nada. Dou só um pouquinho para elas experimentarem. Para que vão tirar o mel das coitadinhas? Crio para a polinização."

De acordo com dados da FAO, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a alimentação e a agricultura, 75% do que comemos depende da polinização. A ausência de abelhas e outros insetos que fazem esse trabalho acabaria, por exemplo, com as culturas de café, maçãs, melancia, melão, morango, abóbora, amêndoas, tomates e cacau.  

O chefe

As perguntas mais difíceis sobre abelhas, Dona Maria Helena pede que direcione para o administrador de empresas Gerson Pinheiro. Ela o chama de chefe. Assim como ela, ele descobriu o mundo das abelhas sem ferrão por acaso. Há quase dez anos, uma de suas seis filhas teve uma aula na escola sobre o inseto e pediu ao pai para ter uma caixa em casa. De cara, ele achou estranho. Mas resolveu pesquisar. 

Conseguiu uma colmeia para a filha cuidar e não parou mais de estudar o assunto. Participou de cursos, palestras, começou a visitar criadores e teve a iniciativa de criar o coletivo SOS Abelhas Sem Ferrão. O grupo oferece oficinas sobre a importância das abelhas para o meio ambiente e ensina a cuidar dos insetos. Ele diz não lucrar com a iniciativa e reinveste tudo o que ganha na compra de caixas de abelha e na manutenção do que já tem espalhado por São Paulo e outros Estados do Brasil. A fã page do Facebook tem mais de 57 mil seguidores.

"O projeto sempre foi dedicado à educação ambiental, usando a abelha sem ferrão como instrumento principal. Para falar das abelhas é preciso falar da importância de proteção de água, porque a mata ciliar, polinizada pelas abelhas, protegem as nascentes. Aí emendamos na proteção alimentar, agrotóxico, compostagem, arborização urbana, plantio em cidade..."

As abelhas sem ferrão ocorrem em toda faixa neotropical do planeta. De acordo com Gerson, há 404 espécies catalogadas. Aproximadamente, 300 ocorrem naturalmente no Brasil. Ou seja, de cada quatro espécies que existem no mundo, três estão no País. "É incrível ter por aqui tamanha variedade e as pessoas não conhecem um bicho tão importante. Quando se ouve falar de abelha, lembram só daquela preta e amarela, que na verdade é uma espécie exótica, de uma mistura de abelha africana com europeia."

Gerson explica que para ter uma caixa de abelha são necessários conhecimentos básicos sobre o animal, especialmente se for em regiões pouco arborizadas. Quem tem caixas em grandes cidades como São Paulo, por exemplo, precisa complementar a alimentação do inseto com aquele xarope que Dona Maria Helena produz, a base de água e açúcar, e também com os bombons. Na visão dele, o objetivo central para criação deve ser sempre a polinização e não a produção de mel.

"Pode tirar mel de vez em quando, claro. Por exemplo, você está na primavera, o enxame está cheio de mel. Quando você tira, devolve o espaço vazio, elas vão lá fora para repor o que você retirou. E nesse processo continuam polinizando. Mas se você tira no inverno, que não tem flor... O mel para ela é o alimento energético. Se no inverno, quando ela mais precisa de energia para se manter aquecida não tem o alimento, elas morrem de frio e fome. Tem que entender os ciclos naturais." 

De acordo com o Sistema de Defesa Animal e Vegetal (Gedave), estão cadastrados no Estado de São Paulo 161 meliponários com 4.240 colmeias. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento estima que este número seja bem maior e tem orientado os criadores para se cadastrarem junto à Defesa Agropecuária para que seja possível estimar o real tamanho da melicultura no Estado de São Paulo.

A resolução vigente sobre criação de abelhas sem ferrão do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) permite que qualquer pessoa tenha até 49 caixas de abelha em casa sem precisar fazer qualquer cadastro. Associações e entidades ligadas ao assunto debatem atualmente uma nova resolução, de fevereiro, da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Meio Ambiente de São Paulo (Sima) que deve entrar em vigor em setembro. Nela, toda pessoa que quiser ter uma caixa de abelha precisará se cadastrar. Dona Maria Helena está de olho nessas mudanças e só pede que os órgãos não burocratizem muito. "Imagina a cada mês ter que fazer relatório das minhas abelhas, colocar em planilha espécie por espécie, caixa por caixa?"

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Condomínio sustentável: todo mês, eles transformam 8 toneladas de lixo em adubo

Insetos de diferentes espécies, todos nativos do Brasil, vivem em cerca de 30 caixas de madeira; aposentada ensina como criar e fala sobre os benefícios que trazem para a polinização das plantas

João Prata, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 15h00

Dona Maria Helena Priseajniuc, de 86 anos, cuida de mais de 40 mil abelhas sem ferrão no quintal de casa. Mas quem visitá-la nem vai notar direito que a população na área externa de sua residência supera a de muitos municípios brasileiros. A maioria dos insetos fica dentro das pouco mais de 30 caixas de madeira, que estão distribuídas em prateleiras, como produtos de um supermercado. Há diversas espécies: Jataí, Mandaçaia, Mandaguari, Arapuá, todas nativas brasileiras, que não representam perigo para as pessoas e são fundamentais na polinização das plantas. A criação já se expandiu para o terreno do vizinho e também tem sido alocada em praças e árvores da região da Mooca, na zona leste de São Paulo, onde ela mora.   

O filho Danilo, envolvido com ações ambientais em São Paulo, foi quem deu o empurrãozinho inicial. Há cinco anos, Dona Maria Helena se lamentava da vida de aposentada, tinha um problema na bacia, dificuldade para se locomover e quase não saía de casa. Danilo deu a ela uma enxame de Jataí. A caixa foi batizada de felicidade.

Dona Maria Helena trata as abelhas como se fossem netas. As dores no corpo e o cansaço ficaram para trás. Ela passou a ocupar seu tempo entre a teoria e a prática dos cuidados com "suas pequenininhas", como gosta de chamar. Além de dar bom dia, boa tarde e boa noite, vai para o fogão cozinhar. Prepara um xarope como reforço alimentar, pois a região carece de vegetação e mima todas elas com bombons de pólen com mel. "Elas adoram, precisa ver só. Comem tudinho." 

As abelhas ajudaram também na transformação da casa. Dona Maria Helena deu mais atenção para as plantas que já cultivava. Descobriu que as abelhas gostam da flor do manjericão. Foi lá e plantou um vaso cheio do tempero. "Plantei também Assa Peixe. Dá uma florzinha fedida, mas elas gostam. Aí eu planto, né?" 

A vizinhança incentiva a criação. Teve só um dia que uma mulher passou em frente à casa e sugeriu que Dona Maria Helena comprasse veneno para acabar com aqueles mosquitinhos. De fato, a Jataí, uma espécie bem pequena e que constrói um cano de cera na entrada de sua colmeia, parece um mosquito para quem é leigo no assunto. 

Mas Dona Maria Helena ensina as diferenças. Ela também fica de olho para apartar eventuais brigas entre diferentes colmeias. Quando há algum tipo de confusão, o quintal da casa fica com uma névoa preta. E lá vai Dona Maria Helena borrifar água. "Jogo uma chuvinha nelas e pronto. Não é sempre que acontece. É bem raro. Mas você precisa ver. As menorzinhas são as piores. Arrancam a cabeça das grandes."

O sucesso na criação e o aumento das colônias faz de Dona Maria Helena quase que uma celebridade no bairro onde mora. Já está acostumada até a dar palestras para as amigas sobre os cuidados necessários com as abelhas e a importância na polinização. "No começo, elas me perguntavam: 'todas produzem mel? Me dá um pouco?'. E eu sempre falo que não tiro nada. Dou só um pouquinho para elas experimentarem. Para que vão tirar o mel das coitadinhas? Crio para a polinização."

De acordo com dados da FAO, braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a alimentação e a agricultura, 75% do que comemos depende da polinização. A ausência de abelhas e outros insetos que fazem esse trabalho acabaria, por exemplo, com as culturas de café, maçãs, melancia, melão, morango, abóbora, amêndoas, tomates e cacau.  

O chefe

As perguntas mais difíceis sobre abelhas, Dona Maria Helena pede que direcione para o administrador de empresas Gerson Pinheiro. Ela o chama de chefe. Assim como ela, ele descobriu o mundo das abelhas sem ferrão por acaso. Há quase dez anos, uma de suas seis filhas teve uma aula na escola sobre o inseto e pediu ao pai para ter uma caixa em casa. De cara, ele achou estranho. Mas resolveu pesquisar. 

Conseguiu uma colmeia para a filha cuidar e não parou mais de estudar o assunto. Participou de cursos, palestras, começou a visitar criadores e teve a iniciativa de criar o coletivo SOS Abelhas Sem Ferrão. O grupo oferece oficinas sobre a importância das abelhas para o meio ambiente e ensina a cuidar dos insetos. Ele diz não lucrar com a iniciativa e reinveste tudo o que ganha na compra de caixas de abelha e na manutenção do que já tem espalhado por São Paulo e outros Estados do Brasil. A fã page do Facebook tem mais de 57 mil seguidores.

"O projeto sempre foi dedicado à educação ambiental, usando a abelha sem ferrão como instrumento principal. Para falar das abelhas é preciso falar da importância de proteção de água, porque a mata ciliar, polinizada pelas abelhas, protegem as nascentes. Aí emendamos na proteção alimentar, agrotóxico, compostagem, arborização urbana, plantio em cidade..."

As abelhas sem ferrão ocorrem em toda faixa neotropical do planeta. De acordo com Gerson, há 404 espécies catalogadas. Aproximadamente, 300 ocorrem naturalmente no Brasil. Ou seja, de cada quatro espécies que existem no mundo, três estão no País. "É incrível ter por aqui tamanha variedade e as pessoas não conhecem um bicho tão importante. Quando se ouve falar de abelha, lembram só daquela preta e amarela, que na verdade é uma espécie exótica, de uma mistura de abelha africana com europeia."

Gerson explica que para ter uma caixa de abelha são necessários conhecimentos básicos sobre o animal, especialmente se for em regiões pouco arborizadas. Quem tem caixas em grandes cidades como São Paulo, por exemplo, precisa complementar a alimentação do inseto com aquele xarope que Dona Maria Helena produz, a base de água e açúcar, e também com os bombons. Na visão dele, o objetivo central para criação deve ser sempre a polinização e não a produção de mel.

"Pode tirar mel de vez em quando, claro. Por exemplo, você está na primavera, o enxame está cheio de mel. Quando você tira, devolve o espaço vazio, elas vão lá fora para repor o que você retirou. E nesse processo continuam polinizando. Mas se você tira no inverno, que não tem flor... O mel para ela é o alimento energético. Se no inverno, quando ela mais precisa de energia para se manter aquecida não tem o alimento, elas morrem de frio e fome. Tem que entender os ciclos naturais." 

De acordo com o Sistema de Defesa Animal e Vegetal (Gedave), estão cadastrados no Estado de São Paulo 161 meliponários com 4.240 colmeias. A Secretaria de Agricultura e Abastecimento estima que este número seja bem maior e tem orientado os criadores para se cadastrarem junto à Defesa Agropecuária para que seja possível estimar o real tamanho da melicultura no Estado de São Paulo.

A resolução vigente sobre criação de abelhas sem ferrão do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) permite que qualquer pessoa tenha até 49 caixas de abelha em casa sem precisar fazer qualquer cadastro. Associações e entidades ligadas ao assunto debatem atualmente uma nova resolução, de fevereiro, da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Meio Ambiente de São Paulo (Sima) que deve entrar em vigor em setembro. Nela, toda pessoa que quiser ter uma caixa de abelha precisará se cadastrar. Dona Maria Helena está de olho nessas mudanças e só pede que os órgãos não burocratizem muito. "Imagina a cada mês ter que fazer relatório das minhas abelhas, colocar em planilha espécie por espécie, caixa por caixa?"

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Agricultores orgânicos de Parelheiros: eles vivem de cultivar a terra na cidade de São Paulo

Regiane Bispo e Arpad Spalding moram em área rural dentro da capital paulista e contam sobre o trabalho que é levar um produto mais saudável para a mesa dos paulistanos

João Prata, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2021 | 15h00
Atualizado 29 de maio de 2021 | 10h55

Regiane Bispo, 38 anos, vive em São Paulo, na maior cidade do País. Mas para chegar na casa dela nem com o Waze. É que na parte final, quando acaba o asfalto, as informações ficam menos precisas. Falta no aplicativo alguém para avisar que, depois do matagal, vai ter uma descida de leve e uma placa vende-se num portão de madeira à direita. A casa da Regiane, ou melhor, o Sítio Felicidade, é logo depois. Aí não tem como errar. Da entrada, se reparar, já dá para perceber que ali vive um dos 60 agricultores orgânicos registrados de Parelheiros, área rural no extremo sul da capital - no total, 571 pessoas vivem da roça na região.

Regiane aponta ao que parece uma montanha de terra ao lado do portão e explica que é café usado, doado pela Nestlé. Ela explica que é importante para o adubo das plantas e que ajuda a afastar as formigas da plantação. Faz parte da agroecologia, práticas que incorporam questões sociais, culturais e ambientais na agricultura familiar. Uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável, que tenta superar os danos causados à biodiversidade pela prática da monocultura, e do uso indiscriminado de agrotóxicos. 

A casa de Regiane é simples, térrea, com dois cômodos, uma varanda de cimento, com um muro à meia altura. A diferença para uma residência comum da região é que o esgoto do banheiro é ligado a uma fossa biodigestora, duas caixas d´água que ficam enterradas no gramado até a altura da tampa. Para funcionar, basta adicionar mensalmente uma mistura de água e esterco bovino. As bactérias limpam os resíduos e a água tratada que sai por uma torneira pode ser reutilizada para regar as plantas. 

Um galpão ao lado, com pé direito alto, está terminando de ser construído para servir de estoque e também para a montagem das cestas dos clientes. Um pouco mais à frente tem um cercado com criação de galinhas. Elas não têm botado muitos ovos, talvez por causa do frio. Regiane está investigando isso. 

Depois do galinheiro tem uma trilha que parece a abertura de um portal. O caminho poderia servir de locação para comercial: as árvores da Mata Atlântica de diversas espécies e flores de diferentes cores em volta. Uma leve curva e em seguida já dá para avistar o lugar que garante o sustento de Regiane e sua mãe, Dona Lurdes. Há dezenas de tipos de hortaliças pelo chão, com pequenas mangueiras pretas interligadas para fazer a irrigação. Tudo ali garante uma colheita mensal de 800 quilos, distribuídos entre cerca de 200 clientes. Todos fazem os pedidos pelo whatsapp. Tudo orgânico. Nada de agrotóxico. 

Há também inúmeras bananeiras. Também faz parte da agroecologia plantar diferentes espécies para não empobrecer o solo. Um pouco mais adiante uma estufa possibilita Regiane semear vegetais mais sensíveis às mudanças bruscas de temperatura. "Só assim é que consegui colher os tomates. As berinjelas também estão ficando bem bonitas", conta. O terreno termina com uma plantação de feijão, o milharal e um pequeno pasto para criação de duas vacas. Recentemente Regiane passou a entregar leite de verdade aos clientes. "Uns ficam até com dor de barriga, porque só estão acostumados com aquele de caixinha." 

Toda produção chega ao consumidor sem intermediários. Por isso o valor é semelhante e, dependendo do lugar, até mais barato do que as hortaliças vendidas em supermercado na parte central da cidade. Quando Regiane não consegue atender todos os pedidos dos clientes, completa a cesta com frutas, verduras e legumes de outros agricultores da região. 

Da cidade para o campo

Regiane descobriu há pouco mais de seis anos os benefícios da agricultura orgânica e da agroecologia. Antes ela vivia no Grajaú e tentava seguir a carreira de engenheira civil. Nem gostava muito de passar os finais de semana no sítio da família. A mãe e o pai já plantavam alguma coisa ali, mas mais para consumo próprio. A filha passou por alguns escritórios até ficar desempregada. Nesse mesmo período, perdeu o pai, vítima de câncer. 

Foi quando ela percebeu que poderia aproveitar o terreno em Parelheiros para tirar o sustento, ter melhor qualidade de vida e também trabalhar com sustentabilidade e ecologia. Mudaram ela e a mãe. "Percebemos que tudo passa muito rápido, que era preciso dar mais valor às coisas. A gente vivia no automático, minha mãe era comerciante e não tinha hora para almoçar, não ia em consulta médica porque estava sempre atarefada. Vimos que precisava mudar, pensar mais na gente."

Uma das pessoas que ajudou no processo de mudança foi um brasileiro de nome húngaro, Arpad Spalding, de 41 anos. Formado em geografia e sempre ligado em projetos sustentáveis, ele descobriu os potenciais de uma área rural em São Paulo lá por 2009. Ficou encantado com Parelheiros e passou a focar todos os seus projetos para a região. Trabalhou em diversas entidades com ações vinculadas à agricultura familiar e orgânica até comprar o sítio onde mora com a esposa e dois filhos, em 2015, um lugar com vista magnífica da região, com direito a nascente de rio e um pequeno lago para chamar de seu.

Spalding faz parte da cooperativa de produtores orgânicos que tem como principal objetivo encurtar o caminho da colheita ao consumidor final. "A Regiane conseguiu desenvolver uma produção orgânica e tem feito um sistema agroflorestal que atrai o olhar das pessoas pela produção diversificada. Nos últimos anos teve apoio do poder público. Isso foi bem importante para ela. Porque consegue ter escala e também uma qualidade de produção melhor do que antes." 

    

Mas não é só isso. O geógrafo também notou ao longo desse período na região que a importância da área rural de Parelheiros vai além do que se planta. "Há várias nascentes aqui. Ou seja, é um lugar que produz água, oferece conforto térmico para o restante da cidade, além de possuir uma biodiversidade incrível. E estamos dentro de São Paulo. Queremos mostrar que é possível desenvolver economicamente a região, protegendo as questões ambientais. Tenho trabalhado para ajudar no desenvolvimento econômico, social e ambiental. Como? Com agricultura."

Parelheiros é o distrito de São Paulo em penúltimo lugar na classificação por IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Aparece em 96º lugar, com índice 0,747 só à frente do vizinho Marsilac (0,701), ainda mais ao sul. Na região vivem cerca de 130 mil pessoas e uma densidade demográfica das mais baixas. São somente 855 habitantes por quilômetro quadrado, quase dez vezes menos do que por exemplo em regiões nobres, com o bairro de Pinheiros (8.171), onde Spalding morava.

Desde que trocou a zona urbana pela rural, o geógrafo só pensa em tornar o local viável para mais moradores. Outra ação que ele faz questão de divulgar é o turismo na região. "É importante trazer escolas para conhecer o dia a dia do rural. Temos uma associação para desenvolver o turismo pedagógico. Isso é muito importante para complementação de renda e mostrar o quão é legal ser agricultor. Ressignificar o que é zona rural, fazer as crianças entenderem de onde vem o pé de alface, as frutas e estimular que mais pessoas optem por esse estilo de vida."

Ligue os Pontos

Spalding atualmente integra a equipe do Projeto Ligue os Pontos, uma ação premiada da prefeitura de São Paulo para promover o desenvolvimento sustentável do território rural. O projeto saiu do papel porque venceu o prêmio Mayors Challenge 2016, promovido pela Bloomberg Philanthropies. A organização premiou iniciativas inovadoras em políticas públicas nas cidades da América Latina.

O dinheiro do prêmio possibilitou ao projeto oferecer consultoria de profissionais agrônomos aos produtores locais, também ajudou a mapear melhor a região, e também promover a aceleração de seis projetos. O sítio de Regiane foi um dos contemplados. Os R$ 35 mil que ela recebeu serviram para construir aquela estufa.

"Muitos agricultores não tinham metodologias ou conhecimento técnico para profissionalizar o negócio. O projeto, em um ano, já ajudou nessa transformação: 49% dos agricultores disseram que transformaram sua visão sobre o negócio e 25% já perceberam aumento da renda nos últimos 12 meses", diz Aline Cardoso, secretária de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo da prefeitura de São Paulo.

A ótica do projeto, que termina agora em junho sua primeira fase e deve continuar no segundo semestre, é que todos elos da cadeia produtiva precisam ser estimulados. "Quanto mais demanda mais estruturada fica oferta. Quanto mais produtores orgânico, mais acessível ficará para a população", diz Aline. "Queremos conectar os elos da cadeia. No site Sampa Mais Rural a gente quer disponibilizar informação de onde as pessoas encontram os produtores. Queremos facilitar, aumentar demanda e oferta com mais coerência. A cadeia é circular, estamos falando com todos os elos. Queremos democratizar informação com alimentação mais saudável, acrescentou.

 

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Danilo Bifone criou o Muda Mooca para quebrar calçadas e plantar árvores

Ativista ambiental explica os protocolos que devem ser seguidos e incentiva todos a tirar o concreto de São Paulo e deixar a cidade mais verde

João Prata, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 14h00

Deu cupim? Se deu mal. O fundador do Muda Mooca, Danilo Bifone, ouviu essa resposta quando tentou cuidar de uma árvore pela primeira vez. Ele ainda era adolescente, final da década de 80. Mesmo antes do Google, ele descobriu que havia uma maneira de combater o inseto e, não só recuperou sua árvore, como decidiu dedicar sua vida a deixar a capital paulista mais verde. 

Há mais de 30 anos ele quebra calçadas, planta mudas, revitaliza áreas degradadas e ajuda os paulistanos a respirar melhor. A iniciativa atrai cada vez mais gente e já inspirou moradores de outras regiões a criar, por exemplo, o Muda Vila Leopoldina, Muda Ipiranga, Muda São Caetano, Muda Santo André e por aí vai. 

O projeto de arborizar São Paulo é só um hobby. Danilo é formado em Direito e trabalha como servidor público. Nos finais de semana é que tira o banco do passageiro do seu fusca 1983 e preenche com pá, britadeira, terra, adubo e outros instrumentos necessários para sua missão ambiental.

Passeia todo orgulhoso pela zona leste de São Paulo apontando para as espécies que plantou e enumera todos os benefícios que vai trazer para a região. "A árvore altera o microclima local. Na cidade de São Paulo há diferença de até dez graus entre regiões mais e menos arborizadas. É possível notar essa diferença comparando as temperaturas da Avenida Paulista e do Tremembé, por exemplo", conta.

E o discurso segue como um Fidel Castro do meio ambiente. "A árvore asperge ao seu redor cerca de 400 litros de água por dia. É água que sai do lençol freático e vai para o meio ambiente. É o mesmo princípio daqueles ventiladores em ambiente de grande circulação. As árvores convidam as pessoas a praticar atividade física. É muito agradável sair para caminhar sob a copa das árvores. Elas ajudam na saúde mental de uma cidade", acrescenta. 

O Estadão acompanhou Danilo em um dia solitário de quebrar calçadas. Até o início da pandemia, ele promovia ações com mais gente, mobilizava os moradores da rua, oferecia diploma de plantador de árvore para as crianças. Mas o coronavírus atrapalhou a colaboração coletiva.

A lei é clara

Danilo segue os protocolos de saúde e também o manual técnico de arborização urbana, criado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo. Nele há especificações diversas, como deixar uma largura mínima de 1,20 metros de calçada para a passagem de pedestre. Também há critérios para cavar o "berço" onde será colocada a muda e ainda as espécies permitidas para arborizar São Paulo.

Em frente a uma clínica geriátrica, Danilo optou por um Ipê Amarelo, espécie de médio porte e crescimento lento. No manual da prefeitura não há impedimento para quem quer quebrar uma calçada para plantar uma árvore. Teoricamente, não seria necessário nem a autorização do morador da residência em frente. Por respeito, Danilo pede sempre a autorização dos vizinhos.

"É uma questão moral. Porque a gente aproveita e fala sobre todos os benefícios que uma árvore vai trazer para eles. A gente ensina como cuidar e tenta inspirar para que mais pessoas tenham atitude como essa. Porque se a pessoa não quiser e eu plantar escondido, quando virar as costas, essa pessoa vai lá e destrói a árvore."

Quando recebeu aquela resposta irônica, Danilo ainda nem pensava em estudar Direito e nada conhecia sobre a legislação do meio ambiente. Sem muita noção, tentou buscar ajuda para socorrer sua árvore em um Centro Acadêmico da Faculdade de Biologia da USP. "Achei na minha ingenuidade que centro acadêmico era o lugar que estariam os grandes cérebros da universidade. Mas só tinha um pessoal tomando cerveja e jogando truco."

Deixou a sala dos estudantes e encontrou pelos corredores com um professor. Este sim um especialista, que contou o que seria necessário para fazer a recuperação da árvore. Ainda convidou Danilo a participar de uma ação de plantio dentro da USP. 

Foi quando tudo começou. Ele saiu de lá, plantou no mesmo dia mais duas árvores na rua de sua casa e seguiu a missão. Fazia tudo à noite, com medo de ser reprimido. Ainda não existia internet e a ação envolvia um pequeno grupos de amigos. Um grupo que deu origem também a sua banda de rock chamada Os Ervas Daninhas. 

A música, como é possível acompanhar em alguns vídeos no Youtube, não é o forte de Danilo. Mas ele não liga para as críticas. Enquanto esmiralha o concreto, canta uma de suas letras: "O cimento rudimentar é a brecha pra germinar/ ela é a praga urbana / ressuscita de forma bacana."    

Além de procurar espaço para plantio nas calçadas, o bandlíder se preocupa também com a revitalização de espaços públicos. No início do ano passado, ele e mais uma centena de colaboradores conseguiram transformar um terreno baldio na Praça Daniel Bifone. O nome é uma homenagem ao pai de Danilo, que morreu quando ele tinha cinco anos. 

Os ativistas descobriram que no terreno havia diversas nascentes de água e conseguiram autorização da Prefeitura para revitalizar. O projeto contou com investimento privado e ainda não terminou. Mas, diferentemente das calçadas, para revitalizar praças e parques é necessária autorização da Prefeitura. O local fica no Parque da Mooca. "Tiramos 12 caminhões de entulho. Já plantamos 200 árvores. O projeto é retomar os plantios e continuar as obras. A ideia é ter mais de mil árvores por aqui." 

"O Muda vem não só das mudas que a gente planta, mas de uma mudança de paradigma, uma mudança de pensamento em ter uma cidade sustentável saudável, saudável, com um ar que todos possam respirar. Uma cidade que todos vão poder se orgulhar em chamar de nossa."

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Guardião da represa: Marcelo Grillo luta para reflorestar mata ciliar do Sistema Cantareira

Em seu sítio em Joanópolis, no interior de SP, ele cuida de 250 espécies de árvores e tenta evitar que sua vizinhança construa condomínios sem contrapartidas de preservação ambiental

João Prata, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2021 | 15h00

Há 30 anos, a casa onde o músico Marcelo Grillo vive com a esposa Renata, em Joanópolis, no interior de São Paulo, tinha vista para a represa, com as montanhas ao fundo e pôr do sol cinematográfico. Mas ele quis mudar isso. Plantou árvores nativas de Mata Atlântica até não poder mais e fez do lugar uma densa floresta, com mais de 250 espécies, onde mal se vê a paisagem ao fundo. Recentemente, registrou um tucano de peito amarelo da janela da cozinha. Uns dias depois, fez uma foto, no sofá da sala, do sagui da serra escuro, um dos 25 primatas ameaçados de extinção.   

A ação não trouxe apenas mais vida para seu sítio, mas também é fundamental para a preservação de um bem público, a represa Jaguari-Jacareí, que faz parte do Sistema Cantareira, principal fonte de abastecimento de água de São Paulo. A presença da mata ciliar traz uma série de benefícios para o local. O principal deles é que evita o assoreamento, ou seja, dificulta que a terra corra para a represa e acabe com o reservatório de água. O Marcelo dá mais detalhes.  

"As florestas funcionam como esponjas da água da chuva. Se você tem uma área descampada, principalmente em regiões como essa aqui onde existe declividade, a água bate no solo, lava a camada superficial e vai assoreando a represa. As árvores não deixam isso acontecer. As folhas abrandam e fazem a água cair com menor impacto, além de espaçar a chuva no tempo. Ainda, as raízes criam canais para que essa água chegue lentamente ao lençol freático e seja distribuída para os riachos da região. Fora os benefícios para fauna", ensina.

O problema é que Marcelo é minoria na região. A vizinhança do seu sítio está em transformação. As árvores estão dando espaço para o loteamento, a construção de condomínios. E essa é a atual batalha que Marcelo e muitos ativistas têm enfrentado. Durante dez anos, junto com o poder público, foi feito um plano de zoneamento da Apa (Área de Proteção Ambiental) Piracantareira, onde fica o sítio de Marcelo. Em outubro, o estudo virou lei, mas existe pressão das construtoras da região para que seja revogada. 

"O decreto é até bem permissivo, permite que sejam loteados os terrenos próximos à represa, mas coloca contrapartidas para preservação. Queremos conscientizar a todos que o decreto seja cumprido e que a lei não seja revogada. É preciso existir consciência ambiental, social e econômica para existir sustentabilidade. Não pode haver uma ocupação predatória porque vai ser ruim para todos", explica. 

Arara de Neon

Marcelo vive no sítio há apenas dois anos. Mas frequenta o local desde a adolescência, do tempo em que era hippie, tocava flauta transversal e levava sua banda, a Arara de Neon, para ensaiar sob as estrelas. O grupo tem um histórico de respeito. Chegou a tocar no Teatro Lira Paulistana, centro de efervescência cultural na década de 70 e 80, que lançou nomes como Itamar Assumpção, Ná Ozzetti, Luiz Tatit, Titãs, entre outros. 

Mas, tal como João Gilberto, Marcelo conta que o melhor show da Arara foi no 3° Festival de Águas Claras, aquele apelidado de Woodstock brasileiro. "Tocamos no mesmo dia do João, debaixo de uma baita chuva, aquela lama toda, foi uma loucura. Uma dificuldade para chegar, os carros atolaram. Muita gente teve que pegar carona em trator. Mas foi um sensação incrível." 

Nesse tempo, Marcelo ainda plantava uma árvore aqui e outra ali sem muito conhecimento. Ele gostava de fazer caminhadas por florestas e tentava replicar o que via em seu sítio. Com a internet, começou a participar de grupos para trocar sementes, passou a entender mais sobre as espécies nativas da Mata Atlântica e a missão foi ficando mais séria. 

Quanto mais estudava botânica, mais ficava claro que somente plantar não era importante. Era necessário observar a floresta e buscar a melhor maneira para regenerar também o que já existia. "Quando você faz um bom projeto de reflorestamento, o que se mede não é o índice de sobrevivência do que você plantou, mas quanto de regenerantes espontâneos têm no local."

Marcelo nem se interessa em responder quantas árvores existem no seu sítio. Ele sabe que são pelo menos 250 espécies, sendo 210 nativas de Mata Atlântica. Para se ter ideia, é quatro vezes mais do que a biodiversidade da Europa inteira. "Tem um ditado interessante que vai além daquele que diz que você colhe o que planta. Na verdade, você colhe o que você cuida. E é isso que tenho colhido nesses 30 anos." 

Nível do Cantareira

A cota máxima da represa Jaguari-Jacareí é de 844 metros acima do nível do mar. Desde 2011 que ela não atinge esse índice. O mês de junho é ainda o início da seca na região. Segundo Marcelo, a capacidade no momento está em 837 metros. E alerta que é preciso ficar atento para que não ocorra nova crise hídrica, como em 2014.

Na ocasião, o local onde Marcelo e sua família vivem secou completamente. "E quando aconteceu a crise, nesse período, tinha mais água do que tem hoje", lembra o músico. O que serve para tranquilizar um pouco é que atualmente há uma estrutura maior para evitar o desabastecimento.

"Claro, temos que lembrar que o principal não foi feito, que é plantar mais árvores e aumentar o volume de água dos atuais afluentes dessa bacia. Mas a Sabesp está tirando menos água atualmente", conta. 

Ele lembra que no período da crise a Sabesp tirava 36 metros cúbicos de água diariamente. Por isso secou. "Hoje, o cálculo é baseado na quantidade de chuva do mês anterior. Então, ela está tirando no momento cerca de 22 metros cúbicos de água, um terço a menos". 

Por meio de nota, a Sabesp informou que, nesta sexta-feira, o Sistema Integrado da Região Metropolitana de São Paulo, envolvendo 155 reservatórios e 10 áreas de interligações, opera com 54,5% da capacidade, nível similar, por exemplo, aos 55% de 2018, quando não houve problemas no abastecimento. 

"Importante destacar que a queda no nível das represas é normal nesta época do ano devido ao período de estiagem e ao volume baixo de chuvas. A projeção da Sabesp aponta níveis satisfatórios para passar pela estiagem (até setembro), mas a Companhia reforça a necessidade de uso consciente da água por todos, em qualquer época do ano."

A Sabesp informou ainda que desde a crise hídrica de 2014, realiza obras na região e destacou a Interligação Jaguari-Atibainha que traz água da bacia do Rio Paraíba do Sul para o Cantareira. O Rio Paraíba do Sul abastece o Rio de Janeiro.

A Sabesp mantém o Programa Cinturão Verde dos Mananciais Metropolitanos, que integra o Programa Nascentes do Governo do Estado de São Paulo e já promoveu o plantio de 844 mil árvores nos últimos cinco anos. Sua atuação está concentrada em quatro sistemas de abastecimento: Cantareira, Alto Cotia, Rio Claro e Fazenda Capivari (área de Proteção Ambiental Capivari-Monos que faz parte do Guarapiranga).

Em relação ao reflorestamento da mata ciliar, a Sabesp disse que, somente no Sistema Cantareira, o índice de cobertura vegetal saltou de 61%, na década de 1980, para 79,6% em 2020. "O programa foi reconhecido internacionalmente em premiação do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e destacada pelo WRI (World Resources Institute) como prática sustentável de soluções baseadas na natureza."

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Jayme Roso fez do seu sítio uma reserva ambiental que hoje serve de habitat para centenas de animais

Advogado reflorestou uma área de 850 mil metros quadrados na zona sul de São Paulo e fez do local uma RPPN (Reserva Privada do Patrimônio Natural)

João Prata, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2021 | 15h00

Quando o advogado Jayme Vita Roso, 87 anos, comprou as primeiras terras às margens da Rodovia dos Imigrantes, era tudo mato. A região na divisa das cidades de São Paulo e São Bernardo, no final dos anos 60, estava sendo loteada. Era um brejo, uma área alagada, que ainda não tinha nem luz elétrica. Ainda sem o menor conhecimento ambiental, Jayme se incomodou com o desmatamento e decidiu reflorestar à sua maneira. 

Por trabalhar em empresas multinacionais, aproveitava a viagem a diferentes países para trazer na mala sementes das mais diversas. A Maple Tree, do Canadá, e um Pinheiro, do Japão, imensos, podem ser vistos próximos à sede do sítio até hoje. Mas eram outros tempos, ele ainda não sabia da importância de plantar somente espécies nativas - que também plantou aos milhares, diga-se. No final das contas, o sonho se realizou. Jayme foi comprando mais terras no entorno e criou uma floresta em uma área de 850 mil metros quadrados, o equivalente a 750 campos de futebol, que se tornou habitat de centenas de espécies de aves, tatus, cobras, antas, gatos e cachorros do mato e até onça. 

Desde 1995, o Sítio Curucutu é reconhecido como RPPN (Reserva Privada do Patrimônio Natural), um certificado do governo federal no qual os donos assumem a responsabilidade de manter a preservação da natureza, de proteger os recursos hídricos, de auxiliar no manejo e de colaborar no desenvolvimento de pesquisas científicas, entre vários outros serviços ambientais.

A Secretaria do Verde e Meio Ambiente do Município de São Paulo tem, há três anos, o sítio como um dos pontos de soltura de animais apreendidos. O Estadão visitou as terras da família Roso em um desses dias. Por causa da pandemia, fazia mais de ano que Jayme não aparecia no local. Os 87 anos, no entanto, não o impediram de caminhar pelo terreno irregular e ajudar a libertar 27 aves, entre elas uma coruja-orelhuda, espécie típica da região cujo canto é a onomatopeia que batiza o sítio.

"Não tenho palavras para descrever o que representa tudo isso. É um sonho. Quando cheguei não tinha luz. Eu trouxe os tratores e financiei do meu bolso toda estrutura para levar os fios e postes por toda a região. Consegui realizar 90% do que imaginava. Os 10% restantes agora são responsabilidade das minhas filhas", celebra Jayme.

A ação transformadora para a região no extremo sul de São Paulo rendeu a Jayme, em 2004, o título de Cidadão Emérito da cidade de São Paulo, homenagem feita pela Câmara Municipal. Na região, ele ficou bastante conhecido, especialmente pelos moradores mais antigos, como os indígenas da aldeia vizinha ao seu sítio. 

Sob nova direção

O sítio atualmente é administrado pelas filhas Ana e Vera. Elas são as responsáveis por plantar, agora, somente mudas de árvores nativas de Mata Atlântica e por repensar o sítio para se tornar viável financeiramente. Dentro de uma RPPN é permitido promover o ecoturismo, realizar o plantio sustentável, além de promover atividades educativas, desde que sejam autorizadas pelo órgão ambiental responsável. As duas ainda buscam a melhor forma de arrecadação - ainda hoje Jayme arca sozinho com todas as despesas.

A mais velha, Vera Roso, 63 anos, largou a profissão de professora em 2011 para se dedicar ao sítio. "O herbário e a fauna de São Paulo vieram mapear a região em 2019. Acharam uma espécime de árvore que não era registrada desde 1940. Aqui viram como o projeto de preservação era levado a sério e começaram a utilizar o espaço para libertação de animais."

Segundo Vera, já foram soltos em seu sítio corujas de tipos diferentes, tucanos, gambás e cobras. "Muitos são frutos do tráfico, chegam em situações horrorosas de sofrimento e se recuperam. Mas tem também entrega voluntária, fruto de apreensões", acrescenta.

A mais nova, Ana, 57 anos, deixou o trabalho como marchand há três. "Durmo aqui, me envolvo no dia a dia e também me preocupo em relação à comunidade do entorno. Temos três funcionários que moram aqui, são funcionários registrados. Eles vivem em pontos estratégicos para evitar invasões e também fazer a manutenção do espaço", explica.  

O processo de soltura

A veterinária Alice Soares de Oliveira trabalha na divisão da fauna da Secretaria do Verde há 11 anos. É ela quem geralmente faz as solturas no sítio junto com o biólogo Guilherme Garcia Festa. Os dois chegaram ao Sítio Curucutu em uma caminhonete cheia de caixas na caçamba, cobertas por uma lona. 

Cada um dos 27 bichos que estavam lá dentro tinha uma ficha com todos os detalhes desde o resgate. A coruja que Jayme soltou, por exemplo, foi encontrada por um morador da cidade de Avaré, interior de São Paulo, em outubro do ano passado e entregue à secretaria há dois meses. A ave foi achada no asfalto, enrolada em uma linha de pipa no chão, uma ocorrência comum. Estava em boas condições, foi mantida pelo morador à base de carne de patinho e água. Quando chegou ao pessoal da divisão de fauna, precisou apenas tratar de uma lesão no olho.

"Do que a gente recebe, 90% são aves que vêm a partir de agravos, com traumas, que podem ser por colisão de pipa, predação por animal doméstico e eletrocução, neste caso, principalmente, os primatas. As pessoas ligam no 153 ou acionam a Guarda Civil Ambiental, que transporta até a gente", conta Alice. 

Mas também tem casos mais graves como os pássaros pretos, que também foram soltos no sítio. Eles foram encontrados em um cativeiro clandestino próximo ao Pico do Jaraguá. "Resgatamos 115 aves. O local estava abandonado, havia 50 aves mortas e um mau cheiro insuportável."

Os bichos recuperados são avaliados por veterinários assim que resgatados. São feitos diversos tipos de exames e o tratamento. Recebendo alta, as aves recebem uma anilha, uma pulseira com identificação. Répteis e mamíferos são chipados. O passo seguinte é a reabilitação em cativeiro. É quando alguns bichos que vivem em bando são reagrupados, quando se espera que cresça o empenamento das aves e quando se analisa se o animal terá condições de ser solto.

Monitoramento

O sítio tem atualmente cinco câmeras espalhadas pelo território para monitorar os animais. "Temos o orgulho de ter gambás, tatus, veado, anta e, outro dia, registramos uma espécie mais rara, que são as onças", conta Vera. 

A expectativa de Jayme é que todos comecem a olhar com um pouco mais de cuidado para a região, que é bastante pobre. "É importante os governantes observarem com mais cuidado toda essa movimentação. Queria que dessem uma olhada nessa zona que é extremamente pobre, e agora piorou em razão da pandemia. Que todos abrissem mão um pouco de seus benefícios e doassem mais seu tempo para olhar para essa região, que é rica em fauna e flora, mas está cada vez mais ameaçada", encerrou.  

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A luta de um artista de rua para reflorestar a nascente de um rio na Cidade Tiradentes

Link Museu é artista plástico, grafiteiro e pichador e tenta preservar as margens do Riacho Doce, na zona leste de São Paulo

João Prata, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2021 | 15h00

O artista plástico, grafiteiro e pichador Diego de Jesus Bezerra, de 34 anos, foi expulso de três colégios públicos porque rabiscava as paredes. A Escola Estadual Esther Figueiredo Ferraz, na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, foi onde ele finalmente conseguiu a graduação do segundo grau em 2001 e, por acaso do destino, continua presente em sua vida até hoje.

Por morar na vizinhança, o imenso muro da escola acabou se tornando um dos grandes painéis onde faz sua arte. Há uns anos, ele até foi convidado para realizar uma oficina de grafite com os alunos. Em frente ao colégio tem uma praça onde tem a nascente do Riacho Doce, um curso d'água que há 30 anos servia para os moradores lavarem roupas e louças. 

 

Diego atualmente luta para manter o local despoluído. Seu sonho é fazer das margens do rio uma floresta ao estilo daquela que Seu Hélio plantou no Córrego Tiquatira e criou o primeiro parque linear da cidade, conforme contamos no primeiro capítulo dessa série sobre meio ambiente. Por enquanto, Diego conseguiu montar uma horta orgânica, plantar algumas espécies de árvores nativas e cobrar autoridades responsáveis para ajudar na despoluição do rio e das nascentes que ficam no local.

Apesar do sonho ser parecido, as realidades são bem diferentes. Seu Hélio é um empresário com recursos para comprar mudas aos milhares. Diego ganhava a vida até dois anos atrás como pintor de parede e ficou sem trabalho durante a pandemia. Teve depressão e a horta, junto com o trabalho artístico, o ajudaram a se levantar. 

A sorte foi ter conhecido bem nesse período o artista plástico Rodrigo Andrade, que se interessou pelas pichações de Link e o convidou para colocar o que ele desenhava no muro, na tela. Nas paredes, ele assina Link Museu e é assim que é conhecido por toda a comunidade. O segundo nome é referente a um grupo de pichadores dos mais antigos da zona leste. O primeiro foi ideia dele mesmo.

"Ficava riscando a escola, aquela coisa de adolescente. Pensava: 'Se colocar meu nome, vão saber que sou eu'. Comecei abreviando DGO. Mas descobriram. Depois tentei escrever Negão. E também descobriram. Então, vi que tinha que desconectar. Um dia, voltando da escola, vi um carro com adesivo escrito: link autopeças. Gostei do nome, pesquisei e vi que link era comunicação, que ligava uma coisa a outra. É isso. Mesmo assim, descobriram e fui expulso da escola. Mas aí o apelido já tinha pegado."     

Link Museu

Link Museu nasceu na zona leste, tem dread no cabelo que vai até a cintura e desde garoto se interessa pela cultura de rua, o picho, o grafite, o rap e o skate. A atenção e o carinho pela natureza vem da infância na casa da avó. "Comia amora, goiaba, jabuticaba, tudo do pé". Nos últimos anos, ele viu o extremo leste de São Paulo mudar de figura.

De uma área repleta de floresta, passou a ganhar diversos conjuntos habitacionais. Com a chegada dos prédios, começou a desaguar esgoto no córrego, além de muito lixo vindo das ruas. Ali na praça, até antes da pandemia, nos finais de semana, Link e os amigos se reuniam no que batizaram de Luau dos Loucos. "A gente acendia a fogueira, um trazia a pipoca, outro a batata, outro a bebida e ficávamos chapando."

Foi num desses encontros, há mais ou menos quatro anos, que caiu a ficha para preservação. "Já tinha um monte de lugar para perdição aqui na quebrada sem levar nada a lugar nenhum. Percebemos que as margens do rio estavam ficando degradada. Ali era nosso lugar, a gente tinha que mudar."

A fogueira continuou sendo acesa, mas eles aproveitaram os encontros para também promover ações sociais e sustentáveis. Além de arrecadar roupas e alimentos, passaram a promover encontros literários, saraus e também ações positivas para o meio ambiente. Foi quando Rodrigo Andrade conheceu a turma e se encantou pelo trabalho do Link. Outro idealizador do projeto, Jonata Garcia, que assina Thrash em suas obras, falou sobre as ações dos Loucos. 

"Preservar é fundamental. Queremos transformar o lugar que a gente vive em um espaço convidativo, para que as pessoas possam vir com a família. Imagina uma parque aqui? Todo mundo quer um lugar limpo e bonito." 

Fiscalização

O aprendizado veio na prática e com muitos vídeos no YouTube. Perceberam que sem cobrar os órgãos públicos nada sairia do lugar. Mas aí surgiu outro problema. O Riacho Doce e a localização da praça ficam bem na divisa entre Itaquera e Cidade Tiradentes. "A gente vê e pede para o pessoal arrumar, mas fica nesse impasse de quem é o responsável", reclama Thrash.

Link comentou que tem bom diálogo com a Sabesp e a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo). "A Sabesp veio tem uns dias e melhorou bastante a situação, mas ainda tem muita coisa errada. Eles pararam um escoamento de esgoto. Mas tem outros."

Há três anos, bem onde começa a praça, passou a escorrer uma água suja. Link tentou entupir o cano, mas não teve jeito. "Vinha a água limpinha até então e se juntava com a outra parte do rio, limpa também. Mas depois que um prédio lá em cima ficou pronto, ficou assim, suja."

Por ser um vale, toda a água desce para lá. Próximo à horta que foi construída, Link colocou um cano de PVC no meio da terra e passou a sair água transparente. "Se furar tudo aqui vai sair muito mais", diz. Ele não sabe, no entanto, se de fato é potável. Nos encontros, eles usam aquela água para cozinhar, beber, tomar banho e regar a horta. 

A horta era para ser comunitária. Mas Link reclama que ninguém além dos seus amigos tem ajudado muito. Pelo contrário, nos últimos tempos vinha sendo vandalizada. Com os restos de material de construção e entulho jogados às margens do rio, cercaram o local e agora ninguém mais atrapalha.  

Por meio de nota, a Sabesp informou que foi ao local na quinta-feira, 24. "Durante a inspeção foram identificadas três chegadas de tubulações de águas pluviais, porém, em nenhuma delas foi detectada a presença de esgoto oriundo das redes coletoras operadas pela Sabesp, fato comprovado por meio de testes de corante e inspeção em nossas instalações."

Segundo a companhia, o aspecto escuro encontrado próximo às chegadas de uma dessas tubulações é "características de poluição difusa, que são poluentes acumulados nas áreas urbanas, como óleos, combustíveis, matérias orgânicas e lixo em geral, que acabam carregados para dentro dos cursos d’água e que podem contribuir para a degradação do meio ambiente".

A CDHU informou que "realizou a manutenção, cercamento, retirada de entulho e corte de mato, e atuou na vigilância do local para impedir invasões. Em 3 de fevereiro de 2021, as áreas verdes públicas citadas passaram para o domínio da Prefeitura de São Paulo."

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Subprefeitura Itaquera, informou que faz zeladoria periódica nos córregos da região que administra. "O local citado será limpo na próxima segunda feira, 28. Já a Subprefeitura Cidade Tiradentes realiza zeladoria nas áreas ajardinadas da região citada a cada três meses. A próxima ação acontecerá na próxima semana. A limpeza de córregos acontece a cada quatro meses. A última ação aconteceu no mês de maio."

Ainda, acrescentou que  área citada pela reportagem é alvo de constantes descartes irregulares de lixo. "A contribuição da população é fundamental para manter as ações de zeladoria da cidade. O descarte irregular de material em vias públicas está sujeito a multa no valor de R$ 819,81 (abaixo de 50kg) até R$ 17.447,82 (acima de 50kg), conforme os artigos 160 e 161 da Lei 13.478/02, além de ser considerado crime ambiental."

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