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Morador tenta escapar de inundação causada por ciclone em Bangladesh REUTERS/Andrew Biraj

Retomada verde pode evitar metade do aquecimento global previsto até 2050

Se é preciso recuperar economias, que isso seja feito de modo a tornar as sociedades mais resilientes à mudança do clima, defendem os especialistas

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

No auge da pandemia de covid-19, um meme das redes sociais fazia um alerta de que os trágicos impactos do coronavírus são só a primeira onda a nos atingir. Na ilustração, logo atrás vinha uma segunda onda maior, da recessão, e depois dela, uma maior ainda, das mudanças climáticas.

Não era uma brincadeira. Cientistas afirmam que os danos da pandemia e da crise econômica são só uma fração do que se pode esperar das mudanças climáticas que já estão em curso – essa sim considerada a mãe de todas as crises. 

Mas se há alguma boa notícia nesse cenário é que as três crises podem ser enfrentadas de modo interligado. Se é preciso recuperar economias, que isso seja feito de modo a tornar as sociedades mais resilientes à mudança do clima, defendem os especialistas, o que de quebra pode torná-las também mais preparadas para eventuais novas pandemias.

Não é à toa que as mudanças climáticas são o principal motor por trás do movimento de retomada verde em todo mundo. O conceito prevê que os necessários novos investimentos sejam direcionados para setores que dialogam com as políticas de combate ao aquecimento global e para empreendimentos sustentáveis com baixo impacto socioambiental. 

Um estudo publicado no início do mês na revista Nature Climate Change – que analisou como a paralisação da economia por causa das políticas de isolamento e quarentena reduziu temporariamente as emissões globais de gases de efeito e de poluentes  –, projetou que incluir medidas de políticas climáticas como parte da recuperação econômica pode trazer resultados mais permanentes e de fato desacelerar o aquecimento do planeta.

O trabalho, liderado por pesquisadores da Universidade de Leeds, no Reino Unido, comparou um cenário em que a recuperação econômica seja feita com base nos mesmos níveis atuais de investimento em combustíveis fósseis com outro em que haja fortes estímulos verdes e redução de carbono. 

No primeiro, calcula o grupo, o aquecimento médio do planeta provavelmente vai exceder 1,5°C já em 2050, na comparação com a temperatura pré-Revolução Industrial. Já no segundo, seria possível evitar um aquecimento de 0,3°C até aquele ano. Como o planeta já está cerca de 1°C mais quente, os cientistas indicam que há um potencial de reduzir pela metade o nível de aquecimento nos próximos 30 anos.

“As escolhas feitas agora podem nos dar uma grande chance de evitar 0,3˚C de aquecimento adicional até meados do século, reduzindo pela metade o aquecimento esperado com as políticas atuais. Isso pode significar a diferença entre o sucesso e o fracasso quando se trata de evitar mudanças climáticas perigosas”, afirmou Piers Forster, principal autor do trabalho.

O trabalho destaca medidas como incentivo a veículos de baixa emissão, transporte público e ciclovias. “A melhor qualidade do ar terá efeitos importantes na saúde – e começará a esfriar o clima imediatamente”, complementa Forster.

Não deixar o aquecimento do planeta superar 1,5°C é um marco dos esforços mundiais de combater as mudanças climáticas. Mas o plano é segurar esse aumento da temperatura até o fim do século. Este é o objetivo estabelecido pelo Acordo de Paris, compromisso estabelecido por quase 200 países, por ser considerado o mais seguro para evitar impactos mais dramáticos à vida no planeta. 

Reduzir emissões e gerar empregos

Algumas pesquisas já mostram vantagens também para o Brasil. Um estudo publicado em meados de agosto pelo WRI Brasil e a aliança global New Climate Economy calculou que adotar princípios de retomada verde em ações de infraestrutura, inovação industrial e no agronegócio podem reduzir 42% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil até 2025, na comparação com o que era emitido em 2005. E ainda gerar 2 milhões de empregos, além de acrescentar R$ 2,8 trilhões ao PIB.

Essa redução de emissões é mais até do que o País prometeu fazer no Acordo de Paris, que é cortar as emissões em 37% até aquele ano.

Para chegar a isso, indica o estudo “Uma Nova Economia para uma Nova Era”, é preciso avançar na implementação de veículos elétricos ou híbridos, ter maior eficiência do setor de construção, mais energias renováveis e uso de materiais de baixo carbono e uma agropecuária de maior produtividade. Além de também investir em restauração florestal e reduzir as pressões de desmatamento ilegal. 

Hoje, a devastação da Amazônia é a principal fonte no Brasil de emissões de gases que provocam o aquecimento global. Para reduzir sua contribuição ao problema, o País se comprometeu, no âmbito do Acordo de Paris, a zerar o desmatamento ilegal até 2030, além de adotar uma série de outras medidas que possam reduzir suas emissões.

Um grupo de pesquisadores ligados ao Instituto ClimaInfo, ao Observatório do Clima e ao GT Infraestrutura elaborou uma análise de como algumas das metas nacionais, assim como outras ações relacionadas com uma retomada verde inclusiva, podem ser uma resposta à crise econômica legada pela pandemia e à crise climática.

O trabalho, que será lançado em um webinar na próxima quinta-feira, 3, foi passado com exclusividade ao Estadão. O grupo calcula que medidas como restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030 geraria 250 mil postos de trabalho. 

Também são particularmente boas fontes de emprego as metas de aumentar a eficiência energética e a presença de fonte solar na nossa matriz energética. “Alcançar 10% de ganhos de eficiência energética no setor elétrico até 2030 exige um investimento anual da ordem de R$12 bilhões até 2030 que, por sua vez, geram 408 mil empregos nos próximos dez anos”, aponta o grupo em relatório que será divulgado junto com o webinar.

Ainda em energia, eles citam um cálculo da Absolar, que representa o setor de fonte fotovoltaica no Brasil. A entidade calcula que a cada megawatt de energia solar instalada no Brasil são gerados 30 empregos, contra 2,6 empregos de grandes hidrelétricas, como Belo Monte, e menos de 1 emprego em termelétricas a gás. Empregos verdes também tendem a ser mais bem remunerados.

Outra possibilidade nesse setor, defende o grupo, é instalar placas solares em residências. Além de ser uma fonte mais limpa, o trabalho calcula que investir R$ 1,05 milhão no período de três meses em energia solar distribuída permite instalar sistemas fotovoltaicos completos em mais de 260 mil residências de baixa renda, criando 6.300 empregos no curto prazo. 

“Priorizar investimentos em alguns setores-chave gera empregos, crescimento econômico e melhora da qualidade de vida da população, além de reduzir as emissões dos gases responsáveis pela crise climática”, escrevem os autores. Eles buscaram identificar ações que podem começar a ser implementadas já no curto prazo. E que impactem a maioria.

A proposta, explica o físico Shigueo Watanabe Jr., pesquisador do ClimaInfo, é que os recursos públicos que já estão sendo liberados para recuperar a economia e empregos não sejam direcionados apenas para algumas empresas e setores. “Em vez de dar dinheiro para salvar atividades econômicas que nos trouxeram à atual situação, a ideia é poder salvar as pessoas e ainda ter benefício climático”, afirma o coordenador do trabalho.

O documento cita, como exemplo, o setor de resíduos: “Menos da metade do que é gasto atualmente com a coleta de resíduos sólidos, algo entre um ou dois bilhões de reais, seriam suficientes para organizar meio milhão de catadores a mais em cooperativas. Os novos catadores representam cerca de 7% do número de desempregados no país e significam maior movimentação na economia local”.

Considerando mais uma vez a interface com a crise sanitária da pandemia de covid-19, o trabalho também recomenda investimentos em saneamento. Um dos fatores crueis que mais contribuiu para a disseminação da covid em populações de baixa renda foi a impossibilidade de elas fazerem a higienização adequada para barrar o coronavírus.

Os pesquisadores lembram as metas do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), que prevê investimentos da ordem de R$ 30 bilhões por ano. “Como cada bilhão investido em saneamento gera 10 mil empregos apenas em obras, cumprir a meta do Plansab gera 300 mil empregos ainda este ano”, escrevem.

Impactos atuais e futuros

O tamanho do impacto climático está diretamente relacionado ao quanto vamos deixar o planeta aquecer ao longo dos próximos. Um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicado há dois anos apontou que 0,5°C a mais já pode fazer uma grande diferença. 

Se o planeta aquecer 1,5°C até o fim do século, os impactos já existem, mas ainda são relativamente manejáveis. Se o aumento for de 2°C, a situação já fica mais dramática. Veja infográfico que mostra diferentes cenários conforme o aquecimento.

Recuperar a economia pós-pandemia é a oportunidade para deixar a sociedade mais resiliente, tanto para ser capaz de combater as mudanças climáticas quanto para lidar com o que seja inevitável delas.

Isso porque ela pode atingir praticamente todos os aspectos da nossa vida e os vários setores da economia. Um clima mais quente, por exemplo, pode levar a secas e enchentes mais extremas, que podem afetar a produção de energia e a agricultura, a segurança hídrica e a alimentar. 

São esperadas grandes migrações humanas a partir de locais que vão se tornar inadequadas para a vida. Doenças transmitidas por mosquitos podem mudar sua área de distribuição e o próprio aumento da temperatura pode levar a mortes em situações de ondas de calor.

Um estudo recente de economistas norte-americanos estimou que se não forem adotadas medidas para conter as emissões de gases que aquecem o planeta, as taxas globais de mortalidade por causa do calor poderão chegar a 73 mortes por cada 100 mil pessoas até 2100. O número supera o total anual de mortes causadas por todas as doenças infecciosas no mundo, incluindo tuberculose, HIV/Aids, malária, dengue e febre amarela.

Com o aquecimento que temos hoje, diversos efeitos já são sentidos em todo o mundo, como o aumento da ocorrência de eventos extremos. Um trabalho divulgado recentemente pelo climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), revelou que chuvas intensas concentradas em poucos dias, separadas por longos períodos de seca estão sendo cada vez mais frequentes na Região Metropolitana de São Paulo. 

Analisando ocorrências dos últimos 60 anos, Marengo e equipe observaram que situações que levam a deslizamentos, inundações repentinas ou secas vêm aumentando, assim como os seus impactos socioeconômico e ambientais.

Na semana passada, a Nasa divulgou que o derretimento da Groenlândia atingiu níveis recordes em 2019. Foram 532 bilhões de toneladas de massa perdidas, o maior volume desde 1948, quando começaram os registros. “Isso é água suficiente para elevar o nível médio do mar em 1,5 mm, o que é como cobrir toda a Califórnia em mais de 1,2 m de água”, afirmou a agência espacial norte-americana.

“Os mais vulneráveis são sempre os que estão perdendo, os primeiros a morrer. Na covid, vimos esse número de mortos, que é um horror. Mas quem trabalha com clima sabe que com as mudanças climáticas o número de mortes vai ser muito maior, infelizmente”, resumiu Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade, em live realizada no Estadão na última segunda-feira.

“Vai ser com muito mais dor e quem vai estar na frente dessas mortes novamente são os negros, os que moram em periferia, os que estão mais vulneráveis em termos de pobreza. Então tanto a política de segurança pública, a de saúde, e a de clima, mostram que o tema da desigualdade é absolutamente fundamental. Promover resiliência, a adaptação nas cidades vai ser fundamental para a agenda climática brasileira”, alerta a economista e cientista política. 

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Construir ciclovias e calçadas gera emprego e combate a mudança do clima

Reduzir essas emissões é parte importante dos esforços para combater as mudanças climáticas, mas são ações que também podem ser aliadas de uma retomada verde e da melhoria da saúde da população

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

 

Apesar de no Brasil a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa ser o desmatamento, seguido da agropecuária, nas cidades o problema recai sobre energia, categoria que inclui o transporte. A queima de combustíveis fósseis em caminhões, ônibus e veículos responde por quase um quarto das emissões brasileiras do setor de energia.

“E essa é uma curva ascendente, iniciada em 2009, e turbinada, entre outros fatores, pelo forte aumento da quilometragem total rodada por automóveis e motocicletas”, aponta relatório elaborado por Instituto ClimaInfo, Observatório do Clima e GT Infraestrutura. 

Reduzir essas emissões é, portanto, parte importante dos esforços para combater as mudanças climáticas, mas são ações que também podem ser aliadas de uma retomada verde e da melhoria da saúde da população.

“Em tempos de pandemia, não só a poluição é um dos fatores que aumenta a letalidade da covid-19, como o modelo do transporte coletivo de passageiros provou-se um dos mais graves vetores de contaminação”, escrevem os autores do relatório. 

“Isso fez o transporte ativo, por bicicleta ou a pé, ganhar força internacionalmente”, comenta Andrea Santos, pesquisadora da Coppe/UFRJ e secretária-executiva do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. De fato, tão logo começou a quarentena, prefeitos de cidades como Paris, por exemplo, adotaram rapidamente a extensão de ciclovias como forma de diminuir os riscos de transmissão do novo coronavírus. 

“O governo francês criou um fundo de 20 milhões de euros (R$ 116 milhões) para incentivar a população a usar bicicleta como transporte. A iniciativa é do Ministério da Transição Ecológica Solidária da França e a ajuda é o equivalente a 50 euros por pessoa para financiar reparos nas bicicletas – o que também estimulava pequenos negócios devido ao aumento da demanda nas oficinas de bicicleta”, aponta relatório do ClimaInfo.

Em Bogotá (Colômbia), a estratégia foi fazer ciclovias temporárias, usando marcações móveis nas ruas, como cones – uma estratégia rápida e praticamente sem custos. Com isso, a cidade ganhou 80 km de ciclovias. De acordo com a Organização Panamericana de Saúde (Opas), foram feitas mais de 100 intervenções desse tipo em todo o mundo por causa da pandemia.

“E é essencial nas discussões de cidades sustentáveis, inteligentes, resilientes ao clima que se incentive mais espaço para pedestres, para a bicicleta”, complementa Andrea. “A covid gerou toda uma preocupação em repensar as cidades. Podemos fazer isso de modo a também contribuir para reduzir as emissões.”

O estudo do ClimaInfo calcula que cerca de 2 mil empregos podem ser gerados imediatamente com investimentos de R$ 1 bilhão em mobilidade ativa. O valor seria suficiente para construir 5.000 km de ciclovias, ou criar 2.000 km de faixas exclusivas de ônibus, ou recuperar e construir 1.750 km de calçadas.

“Em São Paulo, cerca de 15% a 20% das ruas não têm calçadas. É uma coisa básica: se tem calçada, as pessoas conseguem se deslocar a pé com mais facilidade. Agora um idoso, sem calçada, não se desloca. Isso é uma oportunidade de melhorar a vida das pessoas”, afirma Shigueo Watanabe Jr., coordenador do trabalho.

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'Os mais vulneráveis são sempre os primeiros a morrer, seja na covid ou na mudança do clima'

Ana Toni, do Instituto Clima e Sociedade (iCS), fala sobre a sociedade, os empresários e os governos precisam se mobilizar para garantir que a recuperação tão necessária nesse momento torne o País mais preparado a evitar tantas novas mortes

Entrevista com

Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS)

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 05h00

A pandemia de covid-19 escancarou um cenário de desigualdade social e trouxe uma consciência das conexões entre o social, o ambiental e o econômico que pode criar uma oportunidade para que pensemos um futuro com mais sustentabilidade, e que torne o País mais resiliente a uma crise que pode ser ainda mais fatal, a das mudanças climáticas.

Essa é a análise da ambientalista Ana Toni, diretora executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS). Economista e doutora em Ciência Política, Ana tem uma longa trajetória de trabalho e apoio a projetos ligados a meio ambiente e mudanças climáticas e, mais recentemente, começou a criar pontes com o setor econômico.

O iCS esteve à frente da articulação que uniu 17 ex-ministros da Economia e ex-presidentes do Banco Central a divulgarem uma carta aberta pedindo que princípios que levem em conta as mudanças climáticas norteiem a retomada econômica. Em entrevista ao Estadão, como parte de uma série de lives sobre retomada verde, ela fala sobre esse movimento e como o País, sociedade, empresários e governos precisam se mobilizar para garantir que a recuperação tão necessária nesse momento torne o País mais preparado a evitar tantas novas mortes.

A pandemia gerou uma forte reação em vários cantos do mundo no sentido de que a necessidade de recuperar a economia pós-pandemia é a chance para fazermos isso de um modo mais sustentável. O que significa uma retomada verde? 

A pandemia nos fez ficar mais conscientes da relação entre o social, o ambiental e o econômico – o famoso tripé da sustentabilidade. Isso trouxe para o debate da retomada o fato de que a gente sabe que não quer voltar para o que era antes e para os problemas que tínhamos. E isso cria uma oportunidade: como todos os países terão de gastar mais, que se gaste melhor e se gaste diferente. E o que é gastar melhor e diferente? É trazer a sustentabilidade para frente.

Como você vê o Brasil nesse cenário?

O Brasil já está pensando em várias políticas de recuperação econômica, mas, infelizmente, a sensação que dá é de que o País está gastando, mas sem uma visão comum. Está muito mais respondendo a demandas de alguns setores, como automobilístico, o de gás ou da agricultura. Sem pensar se fazem sentido dentro de uma visão de País que a gente quer construir. Está dentro de uma visão de país sustentável? Já estamos gastando muitos recursos, esperaria que fosse como uma retomada sustentável. Assim como ocorreu com a Europa, que colocou as mudanças climáticas como pilar central para uma retomada econômica. O Brasil poderia fazer isso, mas tem de ter visão e fazer um planejamento não só de curto prazo, para resolver problemas de empresas e setores, mas também de longo prazo. E isso acho que a gente ainda está devendo para a sociedade.

O que deveria estar sendo levado em conta pelo País?

Por exemplo, hoje o Brasil já dá subsídios, valores imensos da economia brasileira para setores que não são sustentáveis. A mudança deveria começar por aí. Hoje a gente subsidia uma economia não limpa, como carvão. O Brasil deveria continuar fazendo isso? Ou poderia usar o que já financia de carvão para resolver os problemas sociais acoplados à indústria do carvão? Hoje muita gente ainda depende do setor, mas isso poderia ser transformado em uma ajuda social específica para essas pessoas. Muitas empresas que atuam com o carvão também têm usinas hidrelétricas. Poderia ser feita uma troca para expandir o tempo que podem explorar as hidrelétricas enquanto fazem o phase out do carvão. Outro exemplo é que muitas cidades estão discutindo ajuda a empresas de ônibus. Por que não fazer isso de modo sustentável, pensando no longo prazo?

No caso dos ônibus o longo prazo poderia ser o que? Estabelecer datas para que a frota passe a usar combustível renovável ou se eletrifique?

Alguns municípios já estão fazendo isso nos contratos de renovação da frota, mas com a covid, em algumas cidades, como São Paulo, as empresas estão pedindo que o prazo que era de 20 anos seja estendido para 30, 40 anos. Mas não dá para esperar. Claro que vamos ter de oferecer créditos, subsídios para alguns setores, não resta dúvida, mas que não venha simplesmente para salvar economicamente, mas que traga algumas possibilidades de ter a sustentabilidade considerada nos planos de longo prazo. 

Como o movimento de retomada verde poderá se conectar com o combate às mudanças climáticas? 

Só para deixar bem claro o que retomada verde nos proporciona: a gente sabe que alguns setores, como combustíveis fósseis, não farão parte do futuro – bem, esperamos isso, porque o planeta não aguenta. Outros são setores de transição, como eletrificação de carros. E tem alguns que ainda são muito pequenos, mas sustentáveis. A retomada verde deveria fomentar, agilizar os setores de sustentabilidade e de transição. E realmente olhar para os setores como os de combustíveis fósseis, de carros a combustão, como setores que vão ter de sair uma hora da nossa economia. Então temos de usar os recursos para fazer isso da melhor maneira possível, mas considerando qual é o tempo desse futuro que queremos. Então tem de planejar. 

Já há alguns anos se sabe que precisamos modificar muito a forma tradicional em que a economia funciona, o famoso business as usual, mas isso ainda era um papo muito forte no nicho ambientalista, ainda não tinha virado a chavinha da economia, por exemplo. Você acha que esse pode ser o momento da virada?

A sensação é que sim, que estamos em um novo momento, que a chavinha está sendo virada. E não só por causa da covid. Acho que a covid acelerou, deu visibilidade para diversos processos, mas não inventou nada. Esses são debates que estão sendo adensados cada vez mais. E ficou muito claro que não serão resolvidos dentro da bolha. Nas últimas quatro, cinco Conferências do Clima da ONU vimos que debate está se tornando mais econômico. Mas o que demorou foi para chegar ao Brasil. Na Europa está instalado e não tem volta. Nos EUA também está instalado, não tem volta e dividiu eleições. Infelizmente ganhou o lado dos combustíveis fósseis. Demorou para chegar ao Brasil e eu fico me perguntando por que, mas acho que a carta dos 17 ex-ministros de Economia e presidentes do Banco Central, a carta do setor privado brasileiros, dos três maiores bancos demonstra que agora chegou ao core da economia. Isso porque infelizmente o debate no Brasil está muito polarizado com o governo, com a Amazônia e fez com que atores que nunca tinham se posicionado sobre o debate ambiental se sentissem na obrigação de falar sobre o tema. E fizeram isso de modo muito firme, o que é muito bem-vindo. Além disso, acho que os ambientalistas tiveram de aprender, estamos aprendendendo… nunca olhamos para o setor econômico como um aliado, como um campo com o qual poderíamos aprender. E a gente estava errado. Realmente precisamos olhar para campos específicos da área econômica como grandes aliados e criar pontes. Acho que todo mundo aprendeu nesse momento a necessidade de criar novos discursos, novas alianças. 

Falando na carta dos ex-ministros, o Instituto Clima e Sociedade esteve por trás dessa articulação. Eles cobram ações para conter o desmatamento da Amazônia e que critérios de redução das emissões de gases de efeito estufa e de resiliência aos impactos da mudança do clima sejam integrados à gestão da política econômica. Como foi esse movimento? Por que eles resolveram se manifestar assim?

Antes é importante deixar claro que a carta não fala com o governo especificamente, mas está voltada para a sociedade brasileira. A carta aponta que qualquer retomada da economia tem de considerar esses temas. E foi direcionada à sociedade porque para ter uma retomada sustentável, vai muito além do governo, é um pacto social. O Congresso tem um papel fundamental, o setor privado também. E a gente espera que o governo lidere isso. Caiu a ficha de que o Brasil tem um potencial de recursos naturais imenso e a gente tem de transformar essa vantagem, que é comparativa, em uma vantagem competitiva. Como ainda ninguém sabe muito bem como transformar esse ativo em recursos naturais em ativos financeiros, a preocupação dos ex-ministros era de que, enquanto a gente não sabe, não dá para destruir esse nosso ativo em recursos naturais. Queimar a Amazônia não está criando riqueza para o Brasil, nunca criou. Há uma preocupação de o Brasil estar abrindo mão de um potencial ativo financeiro, que é nossa riqueza natural, sem explorar de maneira pensada, coordenada, de modo sustentável. 

Muito tem se falado do potencial da bioeconomia para proteger a Amazônia, por exemplo, mas isso não substitui a necessidade de combater o desmatamento. Ou seja, por mais que todos esses atores se envolvam, é possível fazer essa transição sem a participação do governo?

De jeito nenhum. A política pública é absolutamente fundamental. Por isso a primeira parte que a carta diz que precisa fazer é combater o desmatamento ilegal. Comando e controle é fundamental, que o governo participe, mas só o comando e controle não vai ser suficiente. Isso já falava o PPCDAm (Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento). A política dos governos anteriores já falava que tinha de ter alternativas econômicas. Mas acho que ficamos só no comando e controle e desenvolvemos menos a área econômica. Não é um ou outro, tem de fazer ambos. Mas mesmo que lá atrás a gente tenha falado que era preciso desenvolver uma uma economia da floresta, essa ainda era uma conversa dentro da bolha, entre ambientalistas. Acho que o diferente agora é que esses pesos pesados – os ministros, os investidores – perceberam que eles têm de entrar na conversa. E que parar o desmatamento é fundamental, eles assinaram embaixo sobre o que diz todo ambientalista, mas também disseram que agora estão preparados para arregaçar as mangas e trabalhar para pensar como se faz para a economia verde vingar. E eles falam exatamente isso: com a ilegalidade que está acontecendo, nenhum negócio verde vai parar em pé. Não dá para competir com o ilegal, com quem não paga impostos, com quem não retorna para o Brasil os ganhos. Isso é premissa.

O governo insiste muito no discurso que o problema da Amazônia é a pobreza, que levar a alternativa econômica é que vai conter o desmatamento.

O primeiro problema é a ilegalidade. Não acho que é muito radical pedir para aplicar a lei. Estamos pedindo a legalidade, que deveria ser o normal do normal. E para aplicar a lei o comando e controle é fundamental. Mas estamos falando que pobreza também é super importante. Sim na Amazônia temos os piores índices de educação, saúde, renda. Mas a Amazônia já vem sendo desmatada há quantas décadas? E o problema da pobreza não melhorou. Desmatar não resolveu a pobreza. Então não adianta só lidar com a pobreza, tem de lidar com o desmatamento e logicamente com os temas sociais da Amazônia. As pessoas são muito pobres lá porque isso é fruto de um desmatamento ilegal, de não ter se pensado num arranjo econômico, social e ambiental da Amazônia

Além das questões ambientais, você tem um trabalho grande também com projetos sobre justiça social e sobre filantropia. A pandemia de covid-19 escancarou nossas desigualdades e fragilidades. Quais aprendizados vc acha que podemos tirar da pandemia de covid-19, da forma como combatemos ou não combatemos, para lidarmos com uma emergência  maior que é a do aquecimento global?

Se você olhar o que são as políticas no caso de matança de pessoas negras pelas polícias – a política de segurança pública –, se olhar para a covid e para as mudanças climáticas, o que elas têm em comum? Os mais vulneráveis são sempre os que estão perdendo, que são os primeiros a morrer. O que vimos na covid, esse número de mortos, que é um horror... mas quem trabalha com clima sabe que com as mudanças climáticas o número de mortes vai ser muito maior, infelizmente. Vai ser com muito mais dor e quem vai estar na frente dessas mortes novamente são os negros, os que moram em periferia, os que estão mais vulneráveis em termos de pobreza. Então tanto a política de segurança pública, a de saúde, como vimos com a covid, e a de clima, mostram que o tema da desigualdade é absolutamente fundamental. Promover a resiliência, a adaptação nas cidades vai ser fundamental para a agenda climática brasileira. Primeiro, vamos mitigar e, segundo, vamos criar resiliência para os mais vulneráveis, porque infelizmente são novamente eles que vão pagar com suas vidas com as mudanças climáticas.

Terminamos de um jeito meio triste essa entrevista…

Mas não quero terminar triste, porque, como eu disse, eu sou otimista. Apesar de essa ser uma realidade, com uma política para a covid, poderíamos ter evitado tantas mortes, com segurança pública podemos evitar tantas mortes. E a mesma coisa com clima. A gente pode e vai evitar essas mortes.

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