Gabriela Biló/Estadão
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Retardar a catástrofe amazônica

Uma das causas do drama atual é conhecida há anos: o consumo de carne

Gilles Lapouge, colunista

03 de setembro de 2019 | 14h00
Atualizado 04 de setembro de 2019 | 14h52

Os incêndios, as chamas, as cinzas e as brasas da Amazônia continuam a ser manchete na imprensa francesa, mas as análises se aperfeiçoam. São buscadas soluções para evitar ou pelo menos retardar a catástrofe na Amazônia.

Diversas associações, entre elas a SHERPA, especializada na assistência a vítimas de crimes econômicos, esclarecem que, além da responsabilidade do Brasil e de Bolsonaro, a culpa é também das empresas francesas pelos incêndios na Amazônia. SHERPA lembra inicialmente que os incêndios têm por fim estender as culturas de soja para produção de aves e gado para consumo. No caso dos alimentos transgênicos, regados com pesticidas que poluem os solos, a soja é produzida no âmbito do processo de açambarcamento de terras em prejuízo das populações indígenas.

Tudo isto em seguida é adquirido nas grandes áreas. Empresas francesas são questionadas: Bigard, o grupo Bertrand (Quick e Burger King) e E.Leclerc. De fato, essas companhias não conseguiram traçar a proveniência da soja que entra em suas cadeias de aprovisionamento e assegurar que ela está isenta de qualquer desmatamento. “É preciso acrescentar que Carrefour e Casino, que possuem redes de supermercado no Brasil, estão especialmente envolvidos” . “As empresas do setor agroalimentar não são as únicas implicadas. Em seu relatório sobre a Amazônia, Amazon Watch já citava as empresas francesas Guillemette ET Cie e o Groupe Rougier, que importam madeira da Amazônia de zonas onde existem fortes suspeitas de exploração florestal ilegal.

O Tribunal Penal Internacional informou que a partir de setembro de 2016 passará a analisar crimes que “implicam devastações ecológicas, exploração ilícita de recursos naturais ou expropriação de terras”. “E o texto de William Bourdon conclui: “Ora, a política de Bolsonaro infringe várias práticas condenadas pelo Estatuto de Roma, que entrou em vigor em 2002”. Outro ângulo foi analisado por Romain Espinosa, do CNRS da Universidade de Rennes. O título do seu artigo é claro: “Podemos salvar a floresta continuando a comer carne?” “Uma das causas do drama da Amazônia é conhecida há anos: é o consumo de carne, sobretudo nos países europeus e norte-americanos e de maneira crescente na Ásia. Em 2015 um europeu consumia 61 quilos de soja, sendo que 57 quilos eram de maneira indireta através dos animais alimentados com soja, o mesmo valendo para os ovos, o peixe, o leite, que ele consome.

Romain Esposito cita um estudo da Poore et Nenecek de 2OI8 na revista Science: “100 quilos de proteína de vaca necessitam em média de 164 m² de terreno por ano. Pelo contrário, não são necessários mais do que 3,4² para produzir 100 gramas de proteína de ervilha e 2,2² para 100 gramas de proteína de tofu. Conclusão: passar a comer legume e vegetais parece ser uma solução imperativa na luta contra o aquecimento do clima: serão menos florestas desmatadas, menos consumo de água, menos acidificação dos solos (...). A luta contra a mudança climática  não deve se reduzir a colocarmos somente vegetais no nosso prato. Mas ela não poderá ser levada a cabo sem isto.

Em nota, o Carrefour informou que os temas ambientais são transversais ao negócio do grupo no mundo e inseridos na agenda da companhia, que mantém programas de produção sustentável de alimentos e de manutenção da biodiversidade.

Segundo o texto, o Grupo Carrefour "atua para conscientizar e engajar as cadeias produtivas, especialmente pecuária e soja, em modelos mais sustentáveis e trabalha para inibir a produção em regiões desmatadas, em áreas de proteção ambiental e terras indígenas".

Procurado pela reportagem, o Burger King informou que a rede brasileira atua de forma independente da francesa. /Tradução de Terezinha Martino

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