Remédios que vêm das toxinas

Cascavel tem substância analgésica mais potente do que morfina

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2008 | 22h36

Nos anos 1930, o médico Vital Brazil, fundador do Instituto Butantã, observou que pessoas picadas por cascavel não costumam sentir dor. Imaginou que a toxina podia conter alguma molécula analgésica vantajosa para a serpente - sem causar dor, ela pode passar despercebida pelo seu alvo.   Veja também: Especial completo sobre biodiversidade Biodiversidade, essa desconhecida Droga contra câncer em teste Estudos focam doenças tropicais Para vasculhar a Amazônia, quanto mais coleta, melhor Peixe venenoso pode render antiasmático para grávidas Múltiplas ações na vegetação paulista O duro caminho até a indústria Reinventar relações respeitosas Proposta de nova lei segue sem acordo Natureza inspiradora   Brazil estava certo, mas se passaram quase 70 anos para a ciência comprovar isso. E, agora, o achado pode se transformar em um novo medicamento. Equipe coordenada por Yara Cury, do mesmo Butantã (com apoio do CAT), extraiu do veneno da cascavel (Crotalus durissus terrificus) uma substância 600 vezes mais potente do que a morfina. O analgésico, batizado de Enpak, já foi patenteado, e uma molécula similar foi sintetizada. Esse processo é importante porque elimina a necessidade de usar o veneno para continuar os testes e torna o procedimento mais barato e viável para a indústria.     Além da potência analgésica, o produto guarda duas outras vantagens: ele apresenta ação de longa duração e não provocou dependência ou tolerância (a necessidade de aumentar a dose com o passar do tempo, como ocorre com a morfina) em testes preliminares com animais.   Os resultados atraíram a Coinfar, que encampou os testes com a droga. Após toda a fase de desenvolvimento da molécula no Butantã, o produto agora está nas mãos da indústria, passando por novas avaliações. Espera-se que, em meados de 2009, ele entre em testes pré-clínicos. De acordo com William Marandola, é a principal aposta do Coinfar.   Para Antonio Carlos Martins de Camargo, diretor do CAT, a "fórmula do sucesso" nesse caso foi a observação da natureza da cascavel. "O palpite de Vital Brazil estava certo. E, assumindo um olhar semelhante para outras coisas, podemos sempre encontrar novidades. A evolução natural é um processo de inovação constante", afirma.   Outra pesquisa iniciada no instituto e que chamou a atenção da Coinfar é com antitumorais obtidos a partir da saliva do carrapato-estrela (Amblyoma cajenfense). Equipe liderada por Ana Marisa Chudzinski-Tavassi havia observado que in vitro substâncias presentes na saliva eram capazes de matar células tumorais, sem agredir células normais. Em camundongos, a equipe conseguiu eliminar um melanoma. Na Coinfar, as linhagens da molécula foram ampliadas e estão sendo testadas em dez tipos de tumores.

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