Rafael Arbex/Estadão - 20/3/2019
Rafael Arbex/Estadão - 20/3/2019

Reduzir proteína e trocar tipo de farinha: estudo sugere produção mais sustentável de comida

Economia circular e responsabilidade ambiental são os caminhos da mudança, diz relatório da Fundação Ellen MacArthur

Emilio Sant’Anna, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 14h00

Das prateleiras dos supermercados para o campo. A mudança na cadeia produtora de alimentos para uma forma ambiental e socialmente sustentável deve partir daí, aponta relatório publicado nesta terça-feira pela Fundação Ellen MacArthur. O caminho e as oportunidades para transformar o modelo atual, segundo o estudo, passarão pela economia circular, pelas marcas e consumidores.

De acordo com o relatório, grandes marcas de alimentos e supermercados têm o poder de fazer com que a produção sustentável e positiva para natureza se torne a nova norma geral. “Ao repensar os ingredientes que usam e como são produzidos, eles podem oferecer escolhas que são melhores para os clientes, para os agricultores e para o clima”, diz o documento.

“É um sistema que já não está dando certo e que já tem sinais de perdas econômicas também”, diz Luísa Santiago, diretora executiva da fundação para o Brasil e América Latina. “A estiagem que está aí não é à toa. As safras de grãos já foram afetadas.”

Segundo o mais recente relatório do IPCC, o painel científico sobre mudanças climáticas da ONU, a queda na capacidade de produção agrícola é apenas um dos efeitos que o Brasil sofrerá com o aumento da temperatura 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. O aquecimento global é resultado direto da emissão de gases do efeito estufa.

Também segundo a ONU, “a extração e processamento de materiais, combustíveis e alimentos representam cerca de metade das emissões globais de gases de efeito estufa e mais de 90% da perda de biodiversidade e estresse hídrico”.

A produção de alimentos é a principal fonte mundial de emissões de gases como o metano, na criação de gado, e o óxido nitroso, com uso de fertilizantes. Ao lado do dióxido de carbono, ambos são também geradores do efeito estufa - o que ajuda a dar uma ideia do tamanho do problema.

No Brasil, segundo os dados mais recentes do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), as mudanças de uso da terra e a agropecuária representaram 72% das emissões do país em 2019.

O redesenho do sistema de produção, diz Luísa, é mais do que necessário. “O estado atual é alarmante, precisamos de velocidade”, afirma a diretora executiva da fundação.

O conceito de economia circular, já aplicado pela fundação nas cadeias de produção de plástico e da moda, se estrutura em três pilares: a eliminação de resíduos e poluição, a manutenção dos matérias em uso e regeneração dos sistemas vivos.

O relatório aponta que a relação das marcas (de produtos alimentícios e supermercados) com os produtores agrícolas pode ser um catalisador desse processo movido pela urgência e pela demanda da opinião pública. Para isso, aponta caminhos.

A diversificação das culturas é a primeira delas. Três alimentos hoje são responsáveis por cerca de 60% das calorias consumidas no mundo: arroz, milho e trigo, segundo a FAO, a agência da ONU para a segurança alimentar. Apenas 4% das espécies de plantas conhecidas são comestíveis, e apenas 200 delas são usadas por humanos. O açúcar, por exemplo, diz o relatório, não precisa ser derivado apenas da cana, beterraba ou milho, mas também de safras perenes, como a tamareira, a alfarroba e o coco, além do uso de adoçantes naturais de alta intensidade, como a estévia.

A preferência por ingredientes de menor impacto também faz parte da lista. A substituição da proteína animal por vegetal, que vem avançando em produtos até mesmo de redes de fast-food, é um dos exemplos. Não se trata de defender uma dieta vegetariana, diz Luisa, “até porque não é possível imaginar que 7,5 bilhões de pessoas no mundo serão vegetarianas ou veganas”.

Há outros formas de fazer essa substituição e obter um bom resultado para a saúde do planeta. Trocar a farinha de trigo convencional por farinha de ervilha em um cereal matinal pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 40% e a perda de biodiversidade em 5%, aponta o relatório - o trigo é um dos alimentos mais presentes na dieta humana.

Aproveitar os produtos secundários de uma cultura é outra medida a ser ampliada. Isso evitaria o descarte de parte importante da produção para ser transformada e aplicada em outras culturas, para a adubação, por exemplo. Para além de ser uma medida ambientalmente correta, é dinheiro, diz o relatório. “O mercado de alimentos reciclados de US$46 bilhões deve crescer 5% ao ano, possibilitado por novas tecnologias”.

Por fim, o documento aponta a adoção de medidas regenerativas durante a produção de alimentos. O plantio direto e o uso de vegetação de cobertura, por exemplo, são técnicas que já são aplicadas em diversas cadeias e que protegem e podem restaurar a composição do solo. Outro benefício é que essas práticas reduzem as emissões de gases de efeito estufa e o escoamento de nutrientes levados pela chuva quando o solo é mantido nu.

Por mais que essas medias possam parecer distantes do consumidor é deles que essa mudança deve partir, diz Luísa. Para a diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur, o crescimento e a geração de escala em produções feitas a partir do modelo de economia circular ajudará a responder a questão do preço desses alimentos. “Estamos focados nas grandes companhias que influenciam essa cadeia”, afirma. “Nosso papel é a mudança sistêmica.”  

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