CBM-AC 09/09/2021
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Rede de sensores mede qualidade do ar e revela impactos das queimadas na Amazônia

Monitoramento feito na capital e no interior do Acre analisa quantidade de aerossóis na atmosfera com base em padrões da OMS; poluição de incêndios florestais está ligada a problemas respiratórios

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

06 de abril de 2022 | 10h00

Os moradores de Acrelândia, no interior do Acre, sentiram o ar bastante pesado por mais de três meses ao longo do ano de 2021. As queimadas registradas na região lançaram uma grande quantidade de aerossóis na atmosfera, deixando o ar irrespirável. Mais precisamente, os padrões para o material particulado estipulado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) foram ultrapassados ao longo de 72 dias. Isso significa alto risco de doenças respiratórias para a população, ainda mais para as parcelas mais vulneráveis, como crianças, idosos e portadores de doenças crônicas. 

Não é apenas em Acrelândia. No Acre, toda a população interessada em saber a qualidade do ar que está sendo inalado em direção aos pulmões precisa ter acesso apenas à internet para conseguir fazer a consulta em tempo real. Tudo graças a um sistema de monitoramento que começou a ser construído há aproximadamente 20 anos.

Por causa das queimadas, tanto florestais quanto urbanas, a poluição atmosférica em toda a região amazônica deveria ser acompanhada à exaustão, mas não é o que ocorre em grande parte das áreas. Estudos científicos já mostraram correlação positiva tóxica entre queimadas e problemas respiratórios.

Os amazônidas, neste caso, acabaram duplamente penalizados. O fogo lança micropartículas de poluição na atmosfera, que são invisíveis. A exposição crônica ao material particulado muito fino, que passa pelas vias aéreas e pode impregnar os pulmões, causa sérios problemas de saúde e, em pessoas com predisposição a ter doenças respiratórias, leva à morte.

“O primeiro sensor foi instalado por volta do ano 2000. Atualmente, a rede cobre todos os 22 municípios do Estado”, afirma Alexandro Duarte, professor da Universidade Federal do Acre e um dos cientistas que acompanha o processo de montagem do sistema de monitoramento da poluição do ar no Estado desde o início.

“Hoje, vários entes públicos consultam e usam os dados. O Corpo de Bombeiros, por exemplo, pode agir em uma área específica, quando se percebe a ocorrência de queimadas por meio dos mapas”, acrescenta Duarte. A fiscalização ambiental também pode se guiar pelas manchas de poluição registradas pelos sensores.

Vários estudos científicos e relatórios de investigação de mais longo prazo também estão sendo gerados por causa do acompanhamento dos padrões atmosféricos acreanos, que começou de forma sistemática em 2017. Os 30 sensores instalados fazem parte de uma rede internacional de monitoramento. Tudo é público e pode ser consultado pela internet, por meio do site da iniciativa. “É um equipamento de fácil manutenção e de um custo baixo, por volta de US$ 250 (cerca de R$ 1.160). Além disso, pode ser instalado em praticamente qualquer lugar. A facilidade na consulta dos dados também ajuda na participação da própria população em todo o processo”, explica Duarte..

O papel do Ministério Público do Acre, segundo o pesquisador, foi decisivo para que a rede que "enxerga" o ar intoxicado pelas queimadas na Amazônia passasse a funcionar de forma sistemática. Por meio de ações legais, os procuradores atrelaram o pagamento das multas ambientais pelas queimadas ao financiamento e à manutenção da rede de monitoramento atmosférico. Além dos equipamentos em si, existe um trabalho técnico por trás para que os dados possam ser corrigidos e apresentados de forma coerente para o público.

“Podemos dizer que as informações geradas pelos sensores, seja em Rio Branco ou no interior, já fazem parte do dia a dia das pessoas. Até mesmo a imprensa local vem usando bastante as informações. Assim, a população também fica cada vez mais ligada no tema. Políticas públicas estão sendo fomentadas a partir disso”, explica Sonaira Silva, outra pesquisadora da Federal do Acre que também investiga os efeitos deletérios da poluição atmosférica amazônica sobre o meio ambiente e a saúde das pessoas. “Ter o acompanhamento constante de como se comporta a poluição do ar é fundamental para a nossa região”, afirma Sonaira.

O exemplo da rede até chegou a ser exportado para outros Estados do Norte do Brasil, por iniciativa do próprio Ministério Público do Acre. Estados como Amapá, Pará e Mato Grosso chegaram a instalar um sensor em seus territórios, mas a capilaridade da rede nestes outros locais, algo fundamental para se conhecer o comportamento global da poluição, ainda não ocorreu.

“Esse é um modelo que pode funcionar como solução, até certo ponto simples, para outras regiões do Brasil”, destaca Duarte. De acordo com os especialistas, um sistema de monitoramento eficiente da atmosfera é importante tanto para melhorar a qualidade de vida das pessoas quanto para a proteção do meio ambiente. 

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