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Reciclagem enzimática de garrafa PET

Lixo do material corresponde a 12% dos resíduos sólidos produzidos pela humanidade

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2022 | 05h00

As garrafas e embalagens feitas de PET (polyethylene terephthalate) são um enorme problema ambiental. Correspondem a 12% do lixo sólido produzido pela humanidade. Não é à toa que faz décadas que cientistas investigam métodos para reciclar esse plástico. Ele pode ser queimado para gerar energia, o que libera gás carbônico. Pode ser derretido e usado novamente, mas as propriedades do material obtido são muito piores. Ou pode ser cortado e usado para fabricar tecidos, carpetes ou mesmo bolsas, mas esses usos só adiam a necessidade de reciclar.

Como diz o nome, PET é um polímero de ethylene terephtalate. Na fabricação do PET esses monômeros, produzidos a partir de petróleo, são emendados um ao outro, formando longas cadeias. Essas cadeias podem ser moldadas no formato de garrafas ou outras embalagens. Em teoria o ideal seria desenvolver um sistema circular em que o plástico na forma de polímero fosse quebrado e seus monômeros fossem liberados. Uma vez liberados, eles poderiam ser purificados e usados novamente.

A novidade é que um grupo de cientistas conseguiu fazer exatamente isso. Enzimas capazes de quebrar as cadeias de PET, liberando os monômeros, foram descobertas faz muitos anos. O problema é que são pouco resistentes ao calor e não funcionam bem nas condições necessárias para degradar o PET. Agora os cientistas modificaram sequências de DNA para produzir enzimas mais resistentes. O resultado foi uma enzima com modificações em cinco regiões. Um total de 51 tipos de embalagens foi tratado e as fotos são impressionantes. A garrafa ou outra embalagem fica opaca, começam a surgir furos e aos poucos ela vai derretendo até desaparecer em uma semana. Analisando o líquido resultante, os cientistas observaram a presença dos monômeros de PET. Em seguida desenvolveram um método para separar esses monômeros e utilizaram para produzir um PET reciclado. Ao contrário dos outros métodos, esse produz PET com exatamente as mesmas propriedades do material produzido a partir de petróleo. Aproximadamente 95% dos monômeros presentes nas garrafas foram recuperados e usados para refazer o plástico. 

O ciclo completo, que envolve degradar as garrafas, isolar os monômeros, e sintetizar o plástico, demora pouco mais de cinco dias. Essa descoberta abre o caminho para construirmos um ciclo completo de reutilização de 12% do lixo sólido produzido pela humanidade.

MAIS INFORMAÇÕES: MACHINE LEARNING-AIDED ENGINEERING OF HYDROLASES FOR PET DEPOLYMERIZATION. NATURE HTTPS://DOI.ORG/10.1038/S41586-022-04599-z

*É BIÓLOGO

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