Raízes secas: clima levará a desequilíbrios dos recursos hídricos na China

Segunda avaliação Nacional sobre Mudança do Clima não é nada otimista

Norman Gall, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2012 | 09h25

"A mudança climática levará a graves desequilíbrios dos recursos hídricos na China anualmente e ao longo dos anos", disse a Segunda Avaliação Nacional sobre Mudança do Clima, em novembro de 2011. "Na maioria das áreas, a precipitação vai se tornar cada vez mais concentrada nas temporadas de chuva no verão e no outono, e enchentes e secas se tornarão cada vez mais frequentes." A maior parte das chuvas vem nas monções de julho e agosto. Secas recorrentes ao longo dos últimos três séculos se intensificaram.

A mudança climática está punindo a China com o aumento de secas e tempestades de areia conforme o Deserto de Gobi invade a Planície Norte, onde muitos rios estão secos e interrompidos, perdendo sua capacidade de repor a água subterrânea e carregar areia e sal. Como a densidade populacional aumentou, a sobrevivência de cidades e fazendas agora depende do bombeamento de águas subterrâneas que estão recuando.

O esgotamento dos aquíferos é uma ameaça. O número de poços subiu de 150 mil em 1965 para 4,7 milhões em 2003, e para dezenas de milhões hoje, por causa dos preços de água abaixo do custo e à disseminação de tecnologia barata de bombeamento.

Em 2002, a extração excessiva de água subterrânea baixou os lençóis freáticos em até 50 metros e em até 90 metros em aquíferos profundos – perfurados a profundidades superiores a 1 mil metros hoje. O esgotamento dos aquíferos apressa a secagem de lagos e pântanos e aumenta a salinidade, conforme a água marinha invade as cavidades subterrâneas esvaziadas. A compactação de aquíferos esgotados destrói sua capacidade de armazenamento e, portanto, sua utilidade como reserva estratégica em anos secos, o que agrava o impacto de secas e desertificação em algumas áreas.

Desigualdade. A Planície Norte, que abriga cerca de 500 milhões de pessoas, abrange 65% das terras cultiváveis da China, mas apenas 24% de seus recursos hídricos, que produzem 80% de seu milho e trigo. O planalto de loess é seco. Os agricultores dependem de irrigação. Mas a irrigação desperdiça muito. Apenas metade da água que vem dos canais principais efetivamente chega aos campos.

Entre 1965 e 1975, apesar das convulsões da Revolução Cultural, a área de irrigação quase dobrou, com investimentos em infraestrutura de água aumentando 10% por ano. Mas falta aos canais revestimento para proteger contra infiltração e esforços de conservação, o que causa deterioração estrutural de sistemas de irrigação locais por toda a China, com canais entupidos e dilapidados por lama e detritos.

A irrigação ampara 80% da produção chinesa, principalmente de trigo, milho, arroz, algodão e hortaliças, cultivadas por mais de 245 milhões de famílias em pequenos lotes. A pressão sobre os recursos hídricos se intensifica com duplas colheitas, com trigo crescendo no inverno e milho no verão.

Com 19 milhões de hectares, a China só perde para a Índia em área equipada para irrigação por bombeamento de águas subterrâneas. De acordo com pesquisa do governo, o lençol freático recuou até 1 metro por ano na planície do norte entre 1974 e 2000, enquanto a extração de água subterrânea aumentou em 2,5 bilhões de m³ por ano e a poluição dos aquíferos se intensificou. No sul da China, a água subterrânea está contaminada por metais pesados e outros poluentes industriais. A Pesquisa Geológica da China descobriu que 90% das águas subterrâneas estão poluídas – 60% delas, seriamente.

O esgotamento das águas subterrâneas é tendência mundial, conforme a atividade econômica se intensifica e os níveis de consumo aumentam, com impactos variados em países como EUA, Índia, Paquistão, México, Arábia Saudita e Iêmen, para citar alguns. A China é especialmente vulnerável por causa do tamanho e da densidade da sua população e pela súbita onda de crescimento urbano, econômico e de padrões de vida nas últimas décadas. As pressões são mais urgentes nas cidades.

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