Quente e preocupado

Até agora, o combate às mudanças climáticas não surtiu muito efeito. A humanidade precisa encontrar melhores soluções - mas também precisa aprender a conviver com o problema

The Economist

27 Novembro 2015 | 20h22

No início do século 24, ao lançar um olhar sobre o passado, Charlotte Shortback diz, em tom meio jocoso, que a história moderna da humanidade pode ser dividida em alguns períodos distintos. O mais empolgante foi o Accelerando, abrangendo os anos de 2160 a 2200, quando se observou grande aumento na expectativa de vida dos seres humanos e a "terraformação" (realização de modificações em um planeta com o objetivo de torná-lo semelhante à Terra e, portanto, habitável pelo homem) de Marte foi concluída. A esse período, seguiu-se o Ritardando, quando os habitantes de Marte descambaram para o isolacionismo. Muito antes disso, porém, houve uma fase estranha, que se estendeu de 2005 a 2060, quando as pessoas dominavam a ciência das mudanças climáticas, mas pouco faziam para evitá-las e tampouco tentavam colonizar outros planetas. O período recebe o nome de Enrolando.

Charlotte Shortback é uma personagem de 2312, romance de ficção científica de Kim Stanley Robinson - que faz parte de um estranhamente reduzido grupo de autores cujos enredos têm como pano de fundo as mudanças climáticas. Nesse futuro ficcional, a Terra foi transformada pelo aquecimento global num planeta úmido, repleto de florestas. Submersa, a cidade de Nova York está 11 metros abaixo da superfície. Em outros lugares, empreendem-se esforços desesperados, com uso de nitrogênio líquido e barragens, para impedir o deslizamento de geleiras. Será que o mundo ficará realmente assim? É pouco provável: o rigor realista não é o forte, nem o objetivo da ficção científica. Mas, no que diz respeito ao presente, Robinson está cheia de razão.

Pode até não parecer que os líderes mundiais estejam "enrolando". Na segunda-feira, eles se encontrarão em Paris para realizar uma grande conferência sobre mudanças climáticas, a 21ª reunião desse tipo desde que o assunto entrou na pauta da ONU. Pronunciamentos e promessas foram feitos em abundância - pelo papa Francisco, por Xi Jinping, por Barack Obama e por muitos outros. O FMI adverte que os recursos da humanidade "evaporarão como água sob sol escaldante", se as mudanças climáticas não forem contidas.

Principalmente na Europa, mas também de maneira crescente nos Estados Unidos e na China, os geradores eólicos e as vastas extensões de terra cobertas com painéis solares fotovoltaicos vêm se tornando elementos comuns na paisagem. Na Europa, ao comprar um carro ou uma casa, ou mesmo ao fazer uma reserva de hotel, muitas vezes as pessoas são informadas de seu custo em emissões de carbono. Diversas empresas, incluindo o grupo que publica The Economist, monitoram suas emissões de CO2 e, com frequência, estabelecem metas para reduzi-las. Fala-se animadamente que o carvão, o petróleo e o gás estão sendo substituídos tão rapidamente que em breve as empresas de energia ver-se-ão sentadas sobre pilhas de ativos sem valor.

O fato, porém, é que nada disso significa muita coisa. Em 1995, quando a ONU realizou sua primeira conferência sobre as mudanças climáticas, a concentração atmosférica de CO2 era de 361 partes por milhão (ppm). No ano passado, essa concentração chegou a 399 ppm. Entre 2000 e 2010, o aumento nas emissões de gases-estufa foi ainda mais acelerado que nas décadas de 1980 e 1990. O ano mais quente desde que as medições começaram a ser realizadas foi 2014; na década atual, a temperatura média do ar na superfície terrestre é, até o momento, cerca de 0,9ºC superior à registrada nos anos de 1880. Dieter Helm, especialista na área de energia da Universidade de Oxford, chama a atenção para o fato de que "ao longo de um quarto de século nada de mais significativo foi realizado".

Em 2013, segundo cálculos da Agência Internacional de Energia (AIE), 13,5% do fornecimento mundial de energia primária foi realizado a partir de fontes renováveis. Parece um bom número, mas quase 75% disso veio daquilo que é eufemisticamente chamado de "biocombustíveis", os quais, em sua maior parte, envolvem a queima de madeira, esterco e carvão vegetal em países pobres. As hidrelétricas, que o Ocidente já não vê com bons olhos, por conta de seus efeitos frequentemente desastrosos para o ecossistema dos rios, foram a segunda fonte mais importante de energia renovável. As usinas nucleares, uma fonte verde, mas não renovável, forneceram 5% das necessidades mundiais de energia - porcentual que vem caindo, em termos mundiais. Os geradores eólicos, as centrais de energia solar, as barragens de maré, as estações de energia geotérmica e assemelhados foram responsáveis por apenas 1,3% da energia gerada no mundo.

A tentativa de enfrentar as mudanças climáticas com a imposição de limites nacionais às emissões de gases do efeito estufa, até pouco tempo atrás descrita como fundamental para salvar o planeta, foi descartada. O protocolo de Kyoto, de 1997, que representou a iniciativa mais ousada implementada pela ONU com o objetivo de comprometer seus países-membros com a redução de emissões, expirou em 2012. O tratado teve poucos efeitos e se inviabilizou; seu fim não foi muito lamentado. Nenhum acordo global mais ambicioso será assinado em Paris - mas é de se esperar que todo e qualquer documento produzido pela conferência seja saudado como um progresso significativo. 

Em vez de se submeter a limites de emissões, a maioria dos países agora diz que pretende reduzi-las, ou pelo menos restringi-las, por conta própria. Essa perspectiva voluntária e fragmentada evita a controvérsia, que por tantos anos paralisou as negociações sobre o clima, a respeito da responsabilidade pela redução das emissões de gases-estufa, que, segundo alguns, deveria recair apenas sobre os países desenvolvidos e, segundo outros, deveria ser mais largamente compartilhada (uma discussão que ficou sem sentido em virtude do crescimento da China). A abordagem tem a vantagem de ser inclusiva. Com exceção das nações ricas em petróleo do Oriente Médio, que, em sua maioria, têm ignorado o processo, os demais países pelo menos vêm refletindo sobre o que podem fazer.

As promessas que eles levarão a Paris, conhecidas como "contribuições previstas e determinadas em nível nacional", são variadas e de difícil comparação. Mas algumas são evidentemente mais ambiciosas do que outras. Os EUA assumem o compromisso de cortar progressivamente as emissões, de maneira a reduzi-las, até 2025, a patamares entre 26% e 28% inferiores aos registrados em 2005. A Coreia do Sul diz que até 2030 suas emissões ficarão 37% abaixo do que ficariam se a recente tendência de alta observada no país se estendesse pelos próximos 15 anos. Portanto, mesmo que consigam atingir esse objetivo, os sul-coreanos estarão emitindo, em 2030, 81% a mais de gases-estufa do que em 1990.

Sobre um ponto os delegados da conferência já estão de acordo: não se pode permitir que as temperaturas mundiais ultrapassem em mais de 2ºC os níveis observados na época pré-industrial. Há vários anos, políticos e ambientalistas sustentam que qualquer elevação superior a essa seria extremamente perigosa. Em quase todos os livros e relatórios sobre as mudanças climáticas esse limite é descrito como inviolável.

Questão de grau. A menos que sobrevenha uma catástrofe global ou que todos os modelos climáticos já concebidos estejam errados, porém, as emissões de gases-estufa resultarão, inevitavelmente, num aquecimento superior a 2ºC. "Falar em dois graus é bacana", diz o filantropo e investidor Bill Gates. "Mas o fato é que, com os compromissos que temos hoje, o aquecimento será de, pelo menos, quatro graus."

As mudanças no nível atmosférico de CO2, principal responsável pelo aquecimento global, continuam sendo sentidas por vários séculos. Faz sentido imaginar, portanto, que a humanidade tem um montante fixo de carbono para queimar. Pierre Friedlingstein, climatologista da Universidade de Exeter, calcula que, a fim de restringir a 2ºC as elevações na temperatura, o mundo pode emitir um total de cerca de 3,2 mil gigatoneladas de CO2. Desse total, foram queimadas até o momento 2 mil gigatoneladas. Se as emissões anuais se mantiverem nos patamares observados hoje, em apenas 30 anos a reserva de CO2 que o planeta pode queimar terá se esgotado.

É de fato possível que as emissões globais mantenham-se estáveis por algum tempo. Em 2014, segundo a AIE, o total de emissões resultantes da ação do homem foi aproximadamente o mesmo do registrado em 2013. Este ano o número pode até apresentar ligeira queda. Mas tal refresco pouco tem a ver com a proliferação de geradores eólicos ou painéis de energia solar nos países ocidentais, estando mais intimamente relacionado com a desaceleração da economia chinesa. O que não quer dizer que, tendo em vista a alta acentuada nas emissões observada nos últimos anos, o alívio não seja bem-vindo.

Por outro lado, mesmo que as emissões de gases-estufa estejam se estabilizando, isso acontece num patamar muito elevado; e não há motivos para supor que, uma vez atingido esse platô, a tendência daqui para a frente será declinante. O consumo de carvão na China deve recuar um pouco nos próximos anos, mas aumentará na Índia - e haverá mais carros circulando pelas ruas das cidades chinesas. "Muitos países pobres se enriquecerão queimando combustíveis fósseis", prevê Bjorn Lomborg, do Copenhagen Consensus Centre. Os países ricos continuarão a diminuir o volume de emissões, mas não de forma drástica, pelo menos quando se leva em conta o conteúdo de carbono de suas importações.

As mudanças climáticas não serão ruins para tudo e para todos. Em alguns países frios, a produção agrícola se beneficiará; em outros, com a água do mar mais quente, a pesca sairá ganhando. A Grã-Bretanha, com seu clima temperado marítimo, deve ser muito favorecida. Apesar disso, em quase todos os lugares, os efeitos negativos superarão, progressivamente, os positivos. Alguns organismos começarão a ter problemas muito antes de o limite de 2ºC ser atingido.

O fato é que as mudanças climáticas precisam ser enfrentadas com mais inteligência e racionalidade econômica do que vem acontecendo até agora. A energia renovável é fundamental. Mas, ao contrário do que muitos dizem, não é verdade que as atuais tecnologias solares e eólicas seriam capazes de salvar o planeta, a um baixo custo, e criando simultaneamente grande quantidade de empregos verdes, se continuassem a ser subsidiadas por mais alguns anos. Essas fontes de energia renovável custam caro para os consumidores e deturpam os mercados de energia. Destinar recursos para a instalação de um número ainda maior de geradores eólicos e painéis solares é menos inteligente do que canalizá-los para pesquisas sobre tecnologias que possam substitui-los.

A humanidade também precisa ser muito mais ousada em suas reflexões sobre como conviver com elevadas concentrações de gases-estufa na atmosfera. A adaptação será inevitável, em parte com a concentração da atividade agrícola em culturas mais resistentes ao calor e a condições climáticas extremas, em parte com o abandono das áreas mais afetadas. Os animais e as plantas precisarão de ajuda - o que inclui seu transporte entre fronteiras nacionais e até continentais. Será essencial também a realização de mais pesquisas voltadas para o desenvolvimento de tecnologias capazes de modificar a atmosfera terrestre e resfriar o planeta.

Com frequência, diz-se que as mudanças climáticas são um problema urgente. Se fosse verdade, isso talvez facilitasse seu enfrentamento. O fato é que elas são um problema gigantesco, mas seu avanço é vagaroso, estendendo-se por várias gerações.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

 

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