Quem é que dorme agora?

'Ou EUA se tornam parceiro da China em tecnologia energética, ou serão obrigados a ceder para Pequim'

Thomas Friedman*, The New York Times

13 Janeiro 2010 | 12h31

C. H. Tung, primeiro governador local de Hong Kong nomeado pela China depois que o território foi absorvido em 1997, resumiu em três sentenças a história econômica do seu país: "A China dormia na Revolução Industrial. Começou a acordar com a Revolução da Tecnologia da Informação. Agora pretende participar plenamente da Revolução Verde."

 

Encontrando-me na China, estou mais convencido de que, quando os historiadores olharem para o fim da primeira década do século 21, dirão que a coisa mais importante não foi a Grande Recessão, mas o Grande Salto Verde da China. Pequim compreende que a revolução da TE – tecnologia energética – é uma necessidade e uma oportunidade.

 

Andy Grove, um dos fundadores da Intel, gostava de dizer que as companhias chegam a "pontos de inflexão estratégicos", em que os fundamentos de um empreendimento mudam. Então elas tomam a difícil decisão de investir durante um ciclo de crise e adotam uma trajetória mais promissora ou não fazem nada e acabam morrendo. O mesmo ocorre com os países.

 

Os Estados Unidos se encontram em um ponto de inflexão estratégico. Ou estabelecemos um preço para o carbono e uma regulamentação com os incentivos corretos para garantir que o país se torne o principal concorrente/parceiro da China na revolução da TE ou seremos obrigados a ceder lentamente este setor para Pequim – e os bons empregos e a segurança energética a ele relacionados.

 

Será que o presidente Barack Obama concluirá a reforma do sistema de saúde e depois deixará de lado a legislação energética pendente que o Congresso já aprovou para se preocupar com as eleições de meio de mandato sem a gritaria republicana sobre os "novos impostos"? Ou aproveitará este momento – talvez sua última oportunidade para conseguir uma maioria no Senado que incluiria alguns republicanos em torno da questão do preço do carbono – e montará um mecanismo americano para inovar no campo da energia limpa e da segurança energética? Fiquei pasmo ao ter conhecimento da espantosa quantidade de projetos eólicos, solares, nucleares, para transporte de massa e queima eficiente do carvão que surgiram na China só em 2009.

 

Tenho um e-mail de Bill Gross, diretor da eSolar, uma promissora companhia solar-térmica da Califórnia. No sábado, ele anunciou em Pequim "o maior acordo sobre energia solar e eólica já concluído".

 

"Trata-se de um acordo no valor de US$ 5 bilhões para a construção de usinas na China que utilizariam nossa tecnologia baseada na Califórnia. A China está sendo até mais agressiva que os EUA. Pedimos um empréstimo (ao Departamento de Energia dos EUA) para um projeto de 92 megawatts no Novo México e, enquanto os burocratas ainda terminavam a primeira fase da revisão do pedido, a China assinou, aprovou e está pronta para construir um projeto 20 vezes maior", diz Gross.

 

Sim, a mudança climática é preocupante para Pequim, mas os líderes chineses sabem que em seu país ocorre a maior migração de pessoas do campo para os centros urbanos da história. Isso aumenta repentinamente a demanda energética, que a China pretende atender com fontes mais limpas, nacionais, a fim de que sua economia seja menos vulnerável aos choques da oferta e para não se poluir até morrer.

 

Só em 2009, surgiram tantos fabricantes de painéis solares no país que o preço da energia solar caiu de US$ 0,59 o quilowatt/hora para US$ 0,16. Ao mesmo tempo, na semana passada, a China testou o trem-bala mais rápido do mundo – 347 km/h – de Wuhan a Guangzhou. Como observou o diretor da sucursal do Times, Keith Bradsher, a China "quase concluiu a construção de uma ferrovia de grande velocidade de Pequim a Xangai ao custo de US$ 23,5 bilhões. Os trens cobrirão 1,12 mil quilômetros em 5 horas, em vez das atuais 12. Em comparação, os trens da Amtrak levam pelo menos 18 horas para percorrer uma distância semelhante de Nova York a Chicago".

 

A China pretende empreender a mais rápida expansão da energia nuclear no mundo. Seu projeto é construir até 50 novos reatores nucleares até 2020, enquanto o resto do mundo poderá construir ao todo 15. "A China dominará a produção global de toda a variedade de equipamentos nucleares", disse Andrew Brandler, CEO do grupo CLP, a maior empresa de serviços públicos de Hong Kong.

 

Neste processo, a China produzirá tecnologias energéticas não poluentes para ela e para outros. Mas especialistas chineses afirmam que isso poderá acontecer de modo mais rápido e eficiente se houver colaboração com os EUA – estes se especializando em pesquisa e inovação na área energética e em investimentos em empresas de risco e em serviços de novas tecnologias limpas, e a China, em produção em massa.

 

É claro que se os EUA se preocuparem com segurança energética, com o vigor da economia e com a qualidade do meio ambiente, teremos de estabelecer um preço do carbono a longo prazo de forma a estimular e premiar a inovação em energia limpa. Não podemos ficar dormindo enquanto a China está desperta.

 

* Thomas Friedman é colunista e escritor

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