FOTO GABRIELA BILO / ESTADAO
FOTO GABRIELA BILO / ESTADAO

Queimadas na Amazônia têm alta de 28% no mês de julho, informa Inpe

Mês é o que tem maior dado sobre focos de incêndio desde 2017, e ocorre após recorde de junho; no acumulado, índice apresenta queda

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2020 | 13h14

Mesmo após uma série de pressões de investidores nacionais e internacionais por ações para a preservação da Amazônia, o mês de julho fechou com uma alta de 28% no total de focos de incêndio na floresta, na comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo dados divulgados neste sábado (1.º) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É o pior dado desde 2017. Por outro lado, no acumulado do ano, entre janeiro e julho, o total de queimadas neste bioma teve queda de 7,6%.

A floresta amazônica teve 6.803 focos de de incêndio, contra 5.318 focos registrados em julho de 2019. O recorde para o mês, de 2017, foi de 7.986 queimadas detectada pelo instituto. O mês anterior já havia sido o pior junho dos últimos 13 anos, de acordo com os números do Inpe.

Só os dias 30 e 31 de julho foram responsáveis por cerca de 1.500 focos, o que contribuiu para a alta do mês. Para a geógrafa Ane Alencar, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), a redução das queimadas no acumulado do ano está mais relacionada a uma conjunto de queimadas atípicas registradas em Roraima no ano passado do que uma redução no comportamento dos incêndios deste ano.

“Os dados (atuais) são enviesados por causa de uma anomalia atípica dos focos de incêndio em Rondônia em março e abril do ano passado. Eles acabam mascarando o aumento do fogo neste ano”, disse. 

A anomalia citada pela pesquisadora pode ser observada nas tabelas sobre queimadas do site do Inpe. Em Roraima, no ano passado, foram detectados 2.433 focos de incêndio, mais do que o dobro do recorde anterior, de 2016, que era de 1.195 focos. 

Sobre o mês de julho, Ane afirma que os focos de incêndio atuais ainda são um saldo do aumento do desmatamento ocorrido em 2019, o maior da história. Segundo ela, as pessoas que investiram no desmatamento ainda precisam queimar as áreas desmatadas, o que ainda deve resultar em mais queimadas. 

“É caro desmatar. Cada 100 hectares custa cerca de R$ 100 mil. Se não houver a queimada, significa perda econômica para os que investiram nos desmatamento”, diz a pesquisadora, ao afirmar que a queimada é a forma mais prática de limpeza de um terreno desmatado. 

A bióloga Erika Berenguer, pós-douranda da Universidade de Oxford e pesquisadora da Universidade de Lancaster, ambas na Inglaterra, também destaca a ligação entre o desmatamento e as queimadas. Ela afirma que os dados parciais de julho de outro monitoramento do Inpe, o Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter),  atualizados até o dia 23, já são maiores do que os de julho 2019, que era o recorde até então.

"O que a gente está vendo é uma continuação de 2019", afirma, ao destacar que "não é surpresa" que as queimadas estejam em alta, uma vez que há a necessidade por quem colocou a mata abaixo de limpar a área, com fogo, para a realização de atividades econômicas que gerem retorno do investimento.

Ao comentar as ações de combate aos incêndios, Erika faz uma analogia com dores de dente: "Não adianta você ficar tomando paracetamol. O dente vai doer enquanto você não tratar da cárie", para explicar que a redução dos incêndios está ligada a um combate efetivo dos desmatamentos na floresta. 

A organização ambiental Greenpeace comentou por nota os dados do dia 30, que registrou 1.007 focos de queimadas. “Esse é o número mais alto registrado desde 2005. Neste mesmo dia, no ano passado, foram 406 focos.”

“O fato de ter mais de mil focos de calor em um único dia, recorde dos últimos 15 anos para o mês de julho, mostra que a estratégia do governo de fazer operações midiáticas não é eficaz no chão da floresta”, afirma a organização. “A GLO (Operação de Garantia da Lei e da Ordem, ação do governo federal) aplicada sem estratégia e sem conhecimento de como se combate as queimadas, também não traz os resultados que a Amazônia precisa”, diz a nota do Greenpeace.

A entidade também destacou que parte desses focos de incêndio foram observados dentro de terras indígenas. 

“Um levantamento feito pelo Greenpeace Brasil aponta que dos focos de calor registrados em julho, 539 foram dentro de Terras Indígenas, um aumento de 76,72% em relação ao ano passado, quando foram mapeados 305 focos. Além disso, 1.018 atingiram Unidades de Conservação, um aumento de 49,92% em relação ao mesmo período do ano passado”, segundo nota da entidade. 

As queimadas estão proibidas no País desde o dia 16, em um recesso que deveria durar 120 dias. A medida foi estabelecida por um decreto do presidente Jair Bolsonaro. O período mais intenso de queimadas no País começa agora, e deve durar até o início das chuvas de verão. Na ocasião, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que o decreto era “importante para sinalizar que nós não queremos queimada. Quem fizer queimada está incorrendo em ilegalidade aberta”.

O Estadão procurou a assessoria de imprensa do vice-presidente, Hamilton Mourão (PRTB), para comentar os dados de queimadas do Inpe, mas não conseguiu contato. Mourão é o presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal. No entorno do vice-presidente havia a expectativa de que o dado fosse positivo, conforme a Coluna do Estadão. No começo do mês, ele havia recebido uma carta de investidores pedindo uma política de proteção para a Amazônia. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.