Willian Gomes/Secom-UFMT
Onça é resgatada com as patas queimadas no Parque Estadual Encontro das Águas. Willian Gomes/Secom-UFMT

Queimada no Pantanal atinge metade do Parque Estadual Encontro das Águas

Ações na região ajudam a resgatar animais vítimas do incêndio; saiba ainda riscos que a fumaça provoca à saúde

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2020 | 22h51

SÃO PAULO - Conhecido por abrigar a maior concentração de onças-pintadas do mundo, o Parque Estadual Encontro das Águas, na região de Porto Jofre, na cidade de Poconé que fica a cerca de 100 km de Cuiabá, atingido desde o início da semana pelas queimadas que estão devastando o Pantanal mato-grossense, já teve mais de 50% de sua área devastada.

Segundo o último boletim de operação do Corpo de Bombeiros, a área estimada que foi queimada é de aproximadamente 55 mil hectares, pouco mais da metade do total do parque que é de 108 mil hectares.

A corporação ampliou os esforços no combate ao fogo que está destruindo vegetação e também matando animais. Atuam no local, 21 combatentes, três viaturas, duas aeronaves do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), maquinários cedidos pela Fazenda São João, três esteiras e duas pás carregadeiras.

Cinco frentes de trabalho da força-tarefa da Operação Pantanal II, iniciada em 7 de agosto, atuam diretamente para conter o incêndio em toda a região. O Parque Encontro das Águas foi considerado uma das frentes prioritárias pelo Comitê Temporário Integrado Multiagências de Coordenação Operacional de MT (Ciman/MT).

Somente na quarta-feira, 9, o número de focos de calor no parque estadual foi de 28, enquanto Mato Grosso registrou 1.521 focos, conforme dados do satélite de referência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Conforme mostrou reportagem do Estadão na terça-feira, 8, o número de focos de incêndio registrado no Pantanal entre janeiro e agosto deste ano equivale a tudo o que queimou no bioma nos seis anos anteriores, de 2014 a 2019.

Resgate de animais

As imagens da destruição e de animais mortos e feridos têm chocado o mundo inteiro. Na tentativa de minimizar o sofrimento dos animais resgatados, uma força tarefa coordenada pelo Comitê Estadual de Gestão do Fogo, que reúne instituições do governo, terceiro setor e iniciativa privada, criou um Posto de Atendimento Emergencial a Animais Silvestres (PAEAS) Pantanal. Desde o dia 30 de agosto, a estrutura já recebeu mais de 13 animais de pequeno e grande porte, como onça, iguana, anta, jabuti, garça, jaguatirica, entre outros. 

O posto funciona com apoio das secretarias estaduais de Meio Ambiente, Segurança Pública e Saúde, universidades federais (UFMT e IFMT), Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, Polícia Ambiental, Marinha, Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MT), Ordem dos Advogados do Brasil, ONG Ampara Silvestre, Clínicas Veterinárias, Ibama, prefeitura municipal, trabalho voluntário e doações.

Para ajudar a manter a operação de resgate aos animais feridos, foi lançada ainda a campanha Pantanal em Chamas. "São milhares de animais silvestres encontrados carbonizados ou com partes do corpo queimadas. As antas são animais lentos e têm muita dificuldade em conseguir escapar das chamas. Já animais mais ágeis como a onça-pintada têm suas patas queimadas", afirma o texto da campanha. A 'vaquinha virtual' já arrecadou mais de R$ 555 mil. Para participar acesse o site:  https://voaa.me/vaquinha-pantanal.

A população local pode ainda doar utensílios e medicamentos veterinários conforme lista disponível no site do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-MT).  Os itens podem ser entregues na sede do CRMV-MT localizada na Rua Choffi, 178, Santa Rosa, Cuiabá-MT. Para participar acesse o site: https://crmv-mt.org.br/novo/lista-de-donativos. O cadastro de voluntários também pode ser feito pelo site.

Causas das queimadas no Pantanal

Laudos das perícias realizadas pelo Ciman-MT apontaram que os incêndios registrados na região do Pantanal foram provocados por ação humana. Os laudos foram encaminhados para a Delegacia de Meio Ambiente (Dema) para abertura de inquérito e responsabilização dos infratores.

Análises técnicas foram realizadas em áreas dentro do Pantanal, como o incêndio que atingiu a Fazenda São José, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Sesc Pantanal e Fazenda São Francisco.  

"Muitas vezes não conseguimos identificar o causador, mas é possível detectar onde o fogo foi iniciado e o tipo de material utilizado", explicou a comandante adjunta do Batalhão de Emergências Ambientais, Jusciery Rodrigues Marques.

O valor da multa varia de acordo com o tamanho da área, danificação, tipo de vegetação, se atingiu a fauna, flora e se há reincidência. A penalidade varia de R$ 1 mil a R$ 7,5 mil por hectare, conforme decreto federal 6514/2008.

Riscos à saúde provocados pela inalação de fumaça de queimadas florestais

A fumaça provocada pelas queimadas florestais no Pantanal traz prejuízos à saúde principalmente de doentes crônicos, idosos, bebês e gestantes que moram na região atingida. Esse tipo de incêndio libera um material particulado fino, gases como dióxido de nitrogênio, monóxido de carbono e hidrocarbonetos voláteis, que entram pelas vias respiratórias até chegar ao fundo do pulmão, onde ocorrem as trocas gasosas. "Metais também podem ficar grudados no material particulado, pois quando as plantas crescem, absorvem metais que estão no solo, esses podem ser espalhados com as queimadas", disse o pneumologista Ubiratan de Paula Santos, diretor da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia.

A fumaça de queimadas florestais inflama narinas e pulmões. "A inalação da fumaça provoca inflamação nos pulmões que pode agravar o quadro de pessoas que têm doenças pulmonares e liberar substâncias no sangue que vão afetar outros órgãos do corpo. Pode ainda descompensar pacientes que têm doenças crônicas e cardiovasculares", explicou o pneumologista.

Bebês e gestantes que moram na região também são gravemente afetados pela fumaça das queimadas florestais. "A gestante corre o risco de ter complicações no parto, como bebê nascer prematuro ou com menor peso. E a criança que nasce, ela terá mais chance de ser asmática quando adulta, mesmo os pais não sendo asmáticos", alertou o especialista.

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Trabalho voluntário e amor aos animais salvam espécies atingidas pelo fogo no Pantanal

Região já teve área de quase 600 mil hectares atingidos pelo fogo

Bruna Pinheiro, especial para o Estadão

11 de setembro de 2020 | 17h00

CUIABÁ - Em meio a uma das maiores tragédias ambientais já registradas no Pantanal, a solidariedade e o trabalho voluntário têm conseguido resgatar alguns dos poucos animais encontrados com vida na região. Lançada pela ONG Ampara Animal e a Ampara Silvestre, a campanha “Pantanal em chamas” reúne médicos veterinários e voluntários para o trabalho de resgate, deslocamento de água, alimentos e animais para tratamentos e cirurgias. A ação já conta com o apoio de mais de oito mil colaboradores nas doações em dinheiro.

Presidente da Ampara Animal, Juliana Camargo relata que as cenas vistas pelas equipes de voluntários no Pantanal chocam tanto pela destruição do meio ambiente como pelas milhares de mortes de animais. Ela conta que cerca de 90% das espécies atendidas e resgatadas apresentam quadros de queimaduras severas. Por tratar-se de animais silvestres, o tratamento encontra dificuldades pela necessidade de curativos diários, imobilizações e sedações. 

"O Pantanal abriga a maior concentração de onças pintadas por metro quadrado do mundo. E infelizmente, encontramos várias delas com patas e partes dos corpos queimados. Sem a possibilidade de locomoção, estes animais acabam morrendo antes mesmo de conseguirmos chegar até eles. É uma tristeza enorme ver o que está acontecendo no Pantanal e ainda não termos a dimensão desta tragédia. São danos irreparáveis para o planeta", acrescenta Juliana.

Com uma meta de arrecadar R$ 550 mil para o custeio com medicamentos, alimentação, procedimentos clínicos, combustível e despesa com veículos e hospedagem, entre outros gastos, o financiamento coletivo lançado pela Ampara já alcançou mais de R$ 544 mil em recursos. Até que o valor seja repassado à ONG para cobrir as despesas, o trabalho vem sendo pago com recursos próprios, parcerias e ações voluntárias. 

"É irônico que quem está na linha de frente deste trabalho sejam as ONGs, que foram tão criticadas por governantes. Não temos estrutura para fazermos tudo o que é necessário e poderíamos contar com o apoio do Exército, da Marinha e outras instituições, o que não chegou até hoje", critica.

De acordo com um estudo divulgado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) no início de setembro, as queimadas já consumiram cerca de 1,7 milhão de hectares de todo o território de Mato Grosso. Somente a região do Pantanal teve sua área atingida em quase 600 mil hectares.

Estrutura – Desde que os primeiros médicos veterinários e voluntários da Ampara Animal se deslocaram de São Paulo para Mato Grosso, a entidade busca parcerias com órgãos estaduais para potencializar o trabalho de resgate e atendimentos. 

Atualmente, a ação conta com duas estruturas improvisadas que recebem os resgatados, sendo uma na Pousada Jaguar Ecological Reserve, em Poconé (MT), e outra na base do Corpo de Bombeiros no km 17 da Transpanteira. O trabalho é coordenado pelo Comitê do Fogo da Secretaria de Estado do Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT).

Na próxima terça-feira (15), a presidente da AMPARA Animal, Juliana Camargo, retorna a Cuiabá (MT) para firmar um convênio com o Hospital Veterinário da Universidade Federal de Mato Grosso (HOVET-UFMT), que deve resultar na implantação de um centro cirúrgico que possa receber animais resgatados. Até o momento, o estado não possui unidades neste formato e por isso não tem recebido as espécies atendidas.

Doações: Quem quiser contribuir com o financiamento coletivo da AMPARA Animal pode realizar doações pelo site Vooa. O valor mínimo é de R$ 25 para pagamentos em boleto bancário ou cartão de crédito e R$ 40 pelo Paypal.

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