REUTERS/Ueslei Marcelino
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Queimada na Amazônia amplia pressão mundial; Bolsonaro mantém confronto

O presidente francês, Emmanuel Macron, falou nesta quinta em ‘crise internacional’ a ser discutida pelo G-7, a partir de amanhã. O brasileiro rebateu, dizendo que a sugestão ‘evoca mentalidade descabida’, e voltou a criticar os europeus e culpar ONGs

Edison Veiga, especial para o Estado, e Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2019 | 22h16

As queimadas recordes na região amazônica vêm despertando forte preocupação dos governos europeus e da comunidade científica, com ampla divulgação negativa sobre o governo Jair Bolsonaro. Nesta quinta-feira, 22, o presidente francês, Emmanuel Macron, falou em “crise internacional” a ser discutida pelo G-7, o grupo das nações mais ricas. Bolsonaro rebateu, dizendo que a sugestão “evoca mentalidade descabida no século 21” e ressaltou que o governo já está tratando do “crime” que ocorre na área.

O encontro da cúpula do G7 começa amanhã em Biarritz, sudoeste da França. Macron cobrou a pauta ecológica publicamente. “Nossa casa está queimando. Literalmente. A Amazônia - os pulmões que produzem 20% do oxigênio do planeta - está em chamas. Membros da cúpula do G7, vamos discutir esta questão de primeira ordem!”, escreveu no Twitter.

Integrante do parlamento europeu, o político belga Guy Verhofstadt também se manifestou sobre a necessidade de levar o assunto à mesa. “Os incêndios na Floresta Amazônica são nossa preocupação. Esta questão deve ser discutida pelos líderes do G-7 neste fim de semana e uma ação internacional precisa ser tomada”, afirmou.

Em julho, foi assinado um acordo histórico entre Mercosul e a União Europeia. Para ser implementado, contudo, os termos ainda precisam ser regulamentados pelos Parlamentos. Agora organizações não governamentais como o Greenpeace estão se mobilizando no continente europeu para pressionar seus parlamentares a não aprovarem os termos - já foram enviadas cartas a parlamentares da Áustria e da Alemanha.

Também a Organização das Nações Unidas (ONU) se manifestou. “No meio da crise climática global, não podemos permitir mais danos a uma fonte importante de oxigênio e biodiversidade”, disse o secretário-geral, António Guterres. A presidente da Assembleia-Geral, María Fernanda Espinosa, cobrou “ação urgente” e a Organização Meteorológica Mundial defendeu o uso de satélites para monitorar a situação.

'Mentalidade colonialista', diz Bolsonaro sobre intervenção de Macron

Nas redes sociais, Bolsonaro rebateu Macron, destacando que “o governo brasileiro segue aberto ao diálogo, com base em dados objetivos e no respeito mútuo”. “A sugestão do presidente francês, de que assuntos amazônicos sejam discutidos no G-7 sem a participação dos países da região, evoca mentalidade colonialista descabida no século 21.”

Mais tarde, em sua transmissão ao vivo na internet, pediu que denúncias de incêndio criminoso na região sejam dirigidas ao perfil no Twitter do ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno. “Se tiver suspeita ou certeza que há pessoas identificadas que estão tocando fogo de forma criminosa, botem aqui.” E voltou a atacar. “ONGs não trabalham para o bem do Brasil, mas para quem paga”, declarou. “Esses países não mandam dinheiro por caridade. Espero que dê para entender isso daí. Mandam com interesse. Para atingir a nossa soberania”. O presidente disse que é preciso “equilibrar narrativas” sobre a Amazônia. Afirmou ainda que há “inimigos aqui dentro.” 

Já o vice-presidente, Hamilton Mourão, falou em “má-fé” de quem vê uma crise na região. “Lá (na Amazônia) morei e sei que incêndios são episódicos em período de seca.”

Cientistas estrangeiros endurecem cobranças

Signatários de uma carta divulgada há quatro meses, pedindo que a União Europeia imponha sanções comerciais ao Brasil em caso de descumprimento de compromissos ambientais, cientistas estrangeiros endurecem as cobranças. “No Parlamento Europeu, há um movimento muito claro de exigir salvaguardas ambientais”, disse ao Estado o cientista Tiago Reis, pesquisador das relações entre commodities globais e uso do solo da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. “Vejo sinais claros de embargo econômico.”

Divulgada em abril, a carta contou com a assinatura de 602 cientistas de todos os 28 países membros da União Europeia. O documento pedia que o bloco condicionasse a compra de produtos brasileiros a determinados compromissos ambientais. Já a Comissão Europeia estuda há pelo menos quatro anos como suas relações comerciais afetam o clima mundial. A conclusão principal é de que adquirir produtos de um país que promova o desmatamento seria como “exportar desmatamento”.

Mercado ecoa preocupação

Especialista em alimentação, o pesquisador Mikael Linder, da Universidade Livre de Bolzano, na Itália, também ecoa essa preocupação. “É a imagem do Brasil. Nota-se uma associação dos produtos brasileiros à imagem da degradação ambiental”, avalia. Segundo ele, pesquisas preliminares apontam que, nos últimos meses, houve uma redução de alimentos de origem brasileira nas gôndolas dos mercados.

“Um modo para pressionar por mudanças no modo como o Brasil trata o meio ambiente poderá ser por meio de embargo a produtos nacionais”, diz ele.” Esse risco existe e pode se concretizar. É preciso que o governo federal entenda urgentemente que a preservação não é simples questão doméstica. Faz parte da agenda internacional.”

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