NASA/Veronika Leitold
NASA/Veronika Leitold

Queda de árvores é 65% maior com El Niño

Estudo de cientistas da Embrapa e da Nasa mostra como o fenômeno afeta a Amazônia

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

21 Junho 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Sobrevoando uma área da Amazônia brasileira, cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, conseguiram pela primeira vez medir os impactos da seca provocada pelo El Niño na cobertura vegetal do bioma. Os resultados mostram que, nos anos de ocorrência do fenômeno, a mortalidade de árvores chega a crescer 65%.

+ Cientistas calculam impacto da proibição de importação de lixo plástico pela China

Uma das anomalias causadas pelo El Niño é a seca em regiões normalmente úmidas como a Amazônia. De acordo com os cientistas, já se sabia que a seca aumenta o risco de morte de árvores, mas medir a extensão dos impactos era considerado extremamente difícil. Segundo os autores, o estudo ajuda a entender o que acontece com o carbono armazenado nas florestas tropicais em períodos de secas prolongadas. Projeções feitas anteriormente mostram que, nas próximas décadas, as secas serão cada vez mais frequentes na Amazônia, por causa das mudanças climáticas. O estudo foi publicado na revista New Phytologist.

Para realizar a pesquisa, os cientistas sobrevoaram as mesmas áreas da Amazônia brasileira – duas faixas de 50 quilômetros na região de Santarém – em 2013, 2014 e 2016. Nos dois primeiros anos, não houve ocorrência do El Niño. Entre 2015 e 2016, o fenômeno foi registrado com intensidade especialmente alta. Na aeronave, um instrumento especial disparava em direção à floresta 300 mil pulsos de laser por segundo, fazendo uma espécie de “varredura” que permite registrar uma visão tridimensional precisa das copas das árvores. O equipamento, chamado Sistema de Perfilamento a Laser (Lidar, na sigla em inglês) também é utilizado em missões espaciais, para traçar o perfil de acidentes geográficos em outros planetas, por exemplo.

Comparando os resultados dos três levantamentos, os cientistas puderam detectar as alterações na cobertura vegetal causadas não apenas pela morte de árvores, mas também pela queda de galhos. De acordo com uma das autoras do estudo, Maiza Nara dos Santos, pesquisadora da Embrapa Informática e Agropecuária, a partir do solo, ou mesmo do espaço, seria impossível obter dados tão detalhados em uma extensão tão grande. Ainda assim, os resultados foram complementados por um minucioso levantamento do solo, em locais onde o monitoramento aéreo detectou perdas. Segundo ela, no levantamento em solo, uma das autoras do artigo científico, Veronika Leitold, da Nasa, mediu com precisão as dimensões das árvores e dos galhos caídos. “Ela fez um trabalho muito árduo, para verificar as dimensões dos galhos caídos – incluindo desenhos de cada galho, com medições das dimensões de cada uma de suas ramificações.”

Com esses dados complementares obtidos em solo, foi possível calcular a biomassa perdida com a queda de árvores e galhos. “Extrapolando esse cálculo para o resto da Amazônia, pudemos fazer uma estimativa de quanta biomassa é perdida no bioma”, explicou Maiza. 

Ciclo natural

Comparando os dados obtidos em 2013 e 2014, os cientistas concluíram que, em anos sem El Niño, os eventos de quedas de árvores e galhos produziram alterações em 1,8% das copas das árvores na área estudada. Embora o porcentual pareça baixo, em termos absolutos a quantidade de árvores perdidas pode ser enorme, de acordo com o estudo. O mesmo porcentual aplicado a toda a Amazônia seria equivalente à queda de árvores e galhos em uma área de cerca de 98,5 mil quilômetros quadrados – aproximadamente a área de Pernambuco. Com a seca, a queda de árvores aumenta 65% em relação a isso.

Além disso, uma alteração sutil em um ano de El Niño tem “um impacto imenso no balanço de carbono da floresta”, disse outro dos autores da pesquisa, Douglas Morton, da Nasa. O “balanço de carbono” é a comparação entre a quantidade de dióxido de carbono que as árvores removem da atmosfera para alimentar o crescimento de seus troncos, galhos e folhas e a quantidade de carbono que volta à atmosfera quando as árvores morrem e se decompõem.

“As projeções para a Bacia Amazônica sugerem que teremos condições mais quentes e secas nas próximas décadas. Os eventos de seca provocados pelo El Niño nos dão uma amostra de como as florestas tropicais podem reagir em um mundo mais quente”, afirma Morton.

Para entender

O El Niño se caracteriza por um enfraquecimento dos ventos alísios – que sopram na faixa equatorial do planeta, no sentido leste-oeste – e pelo aquecimento anormal do Oceano Pacífico, que provoca mudanças nas correntes atmosféricas, afetando todo o clima global. Como o fenômeno costuma ser observado mais claramente no Peru, no período de dezembro, foi apelidado por pescadores como El Niño, em referência ao menino Jesus. 

De acordo com um informe divulgado nesta quarta-feira, 20, pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que detalha um inverno dentro das médias climáticas esperadas, já existe um indicativo de um possível fenômeno El Niño ocorrer no fim da primavera e início do verão 2018/2019. Mas ainda é necessário aguardar as próximas medições para a confirmação da ocorrência do fenômeno.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.