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Publicidade em alta pressiona por mudanças

Discurso ambiental passou a ser praxe nas empresas que abriram capital na bolsa durante a pandemia

Especial ESG, Media Lab Estadão
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30 de outubro de 2020 | 05h00

A necessidade de que empresas se comprometam com práticas no âmbito do ESG – meio ambiente, social e de governança – não é uma novidade entre grandes investidores, gestores e outros agentes do mercado financeiro. Mas 2020, com todos os desafios de ordem sanitária, econômica e de preservação ambiental, levou o conceito ESG mais longe. A publicidade em torno dos princípios é grande e a sociedade e o pequeno investidor, antes menos atentos ao tema, agora engrossam a pressão por mudanças. Nas análises das empresas que captaram recursos na B3 neste ano, a importância da aderência às práticas ESG é ponto comum dos discursos.

Apesar da instabilidade no mercado, com a bolsa trabalhando no vermelho, já foram realizados 18 IPOs (oferta inicial de ações) na B3, que movimentaram R$ 22 bilhões, segundo dados da bolsa. Entre as estreantes, companhias com forte apelo ambiental, como a Ambipar (resíduos sólidos). Nos follow-on (oferta secundária), outra operação de sucesso foi a da empresa de energia renovável Omega, que levantou R$ 896,9 milhões. Na esteira para fazer IPOs ainda em 2020, outras companhias que se beneficiam da onda ESG, como Enjoei (economia circular) e a Aeris (fabricante de pás eólicas).

Na Omega Energia, que abriu capital em 2017, as iniciativas para avançar nos temas ESG são constantes, conforme explica Andrea Sztajn, diretora financeira e de Relações com Investidores (RI) da empresa. “A companhia tem fortalecido sua governança de modo a voluntariamente ir além dos padrões mais rígidos exigidos, com sua estratégia organizacional alinhada aos Princípios para a Governança Corporativa do G20”, comenta Andrea, acrescentando que a Omega pauta sua atuação, direta ou indiretamente, em 14 das 17 metas globais estabelecidas pela ONU através dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que englobam ações voltadas a energia limpa, inovação, educação, entre outras. A empresa vai formalizar, ainda neste ano, sua política de sustentabilidade, com metas estabelecidas em todas as frentes ESG. “A origem limpa e renovável da nossa energia e nossa postura séria e comprometida com a sustentabilidade tornam-se grandes atrativos para o mercado.”

Glaucia Terreo, representante da Global Reporting Initiative (GRI) no Brasil, uma das mais importantes organizações dedicadas ao desenvolvimento de relatórios de sustentabilidade, lembra que a sigla ESG não é novidade, mas a visibilidade hoje deve acelerar as mudanças. “O interessante agora, com o ESG, é que o G (Governança) está caindo na real, os conselhos e os executivos não podem mais tratar as áreas de sustentabilidade como um anexo. É cada vez mais claro o impacto das práticas ESG na criação de valor para as empresas de capital aberto”, comenta Glaucia.

Entre os IPOs deste ano, o sucesso da operação da Ambipar pode ser medido pela demanda elevada, 10 vezes superior à oferta, e pelo volume captado. A empresa, que atua com gestão de resíduos sólidos e com o atendimento de emergência para manuseio de produto químico, arrecadou R$1,08 bilhão no IPO. “Desde 2010, a empresa se voltou para o conceito de economia circular. Já sabíamos que o tema tinha um potencial para evoluir muito. O planejamento para o IPO era antigo, mas o momento foi bastante oportuno com toda a publicidade em torno do ESG”, comenta Thiago Silva, diretor financeiro da Ambipar. “A diretora de Sustentabilidade da Ambipar, Onara Lima, destaca também a aquisição neste ano da Âmbito, que atua como consultoria e auditoria com foco na legislação de meio ambiente, saúde e segurança ocupacional. “Nós já usávamos uma ferramenta da Âmbito e agora estamos oferecendo aos nossos clientes para que façam a gestão de prazos regulatórios. O software reforça o pilar de governança da companhia.”

Para a professora do Insper Andrea Minardi, 2020 marca um amadurecimento maior por parte do mercado financeiro que tem papel importante para pressionar as empresas. “Se a pandemia mudou tanto nossas vidas, talvez também tenha chamado a atenção para questões socioambientais e o ESG ganhou espaço”, comenta Andrea, acrescentando que as pressões vêm de todas as partes. “Os frigoríficos, por exemplo, vão ter que avançar na rastreabilidade do gado para não perder mercado e, portanto, valor. As agências de rating de crédito também olham o ESG ao emitirem uma nota, que impacta no custo de captação.”

A rastreabilidade do gado nacional, embora reconhecida pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) como importante, não deve sair tão cedo. “Precisamos lembrar que só 1/5 do gado brasileiro tem origem na região. A rastreabilidade será feita, mas não é tão simples”, comenta Marcelo Brito, presidente da Abag, citando que serão necessárias novas tecnologias até uma definição de limites sobre proteção de dados. “A pressão social é enorme, o investidor privado pede, mas vai demorar um pouco.” Em relação ao agronegócio como um todo, Brito afirma que as práticas ligadas ao ESG avançaram muito, em especial nas grandes e médias propriedades.

Mineradoras buscam melhorar a reputação

Alguns setores, pela característica das atividades que desenvolvem, são mais sensíveis a temas socioambientais. É o caso da mineração, que altera a paisagem interferindo na biodiversidade e nas comunidades locais. Os acidentes em barragens da Vale em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), com centenas de mortes e danos ambientais severos, deixaram marcas na imagem do setor, mas também levaram a mudanças importantes na legislação. 

“As mineradoras já têm uma cultura voltada à sustentabilidade, segurança do meio ambiente e das comunidades, mas os episódios da Vale mostraram a necessidade de melhorias que estão sendo feitas”, afirma Flávio Penido, diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), citando o banimento da tecnologia de alteamento de barragens a montante. Penido acrescenta investimentos do setor para a recirculação de água, que é tratada e chega a até 90% em algumas minas. Na visão do presidente do Ibram, o mercado financeiro hoje tem uma preocupação de fiscalizar as boas práticas socioambientais, o que é positivo.

Entre as iniciativas do Ibram, que atendem os princípios ESG, está um documento com 12 determinações que as mineradoras precisam adotar em áreas como segurança ocupacional, barragens e mitigação de impactos ambientais, lançado em 2019. Em novembro, o Ibram vai divulgar os índices que o setor se compromete a atingir.  “Nosso desafio hoje é demonstrar para a sociedade que o setor tem condições de fazer uma operação com sustentabilidade e segurança. Precisamos trabalhar a nossa reputação.”

A aproximação com as comunidades no entorno das minas é parte relevante na estratégia da brasileira Aura Minerals, que explora ouro e commodities metálicas e fez seu IPO na B3 em julho, captando R$ 790 milhões com o lançamento de BDRs – recibos que permitem a empresas estrangeiras serem negociadas aqui. Parte da estratégia inclui o programa Mina Aberta, que permite que a população visite o local. “Damos transparência para a comunidade, satisfação de tudo que está sendo feito, como mineramos e planos futuros”, diz Rodrigo Barbosa, CEO da Aura. Em relação ao crescente interesse do investidor sobre ESG, o executivo lembra que o movimento começou na Europa e hoje influencia os EUA e o Brasil. “É um caminho irreversível e, no meu entender, positivo.”

Sobre a preocupação da sociedade com as barragens, a empresa canadense informa que, como a operação no Brasil é nova, ela já nasceu dentro dos padrões mais rigorosos de proteção ambiental e de segurança. A empresa está no meio do processo de uma emissão secundária de ações no País, cujo preço ainda não foi definido.

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