Benoit Tessier/REUTERS
Benoit Tessier/REUTERS

Proposta de acordo de Paris é inconsistente com a meta de 1,5°C, alertam cientistas

Pesquisadores analisaram o rascunho do documento apresentado na quinta à noite e disseram que sem uma meta específica de zerar emissões ater 2050 é impossível alcançar o objetivo proposto

Giovana Girardi e Andrei Netto, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2015 | 12h57

Atualizada às 20h47

PARIS - O texto final da Conferência do Clima de Paris (COP-21) tem o mérito de sinalizar que o aquecimento do planeta fique bem abaixo de 2°C até 2100, com esforço de chegar a 1,5°C, mas nenhuma outra decisão do documento é consistente com essa meta. Essa é a avaliação que um grupo de cientistas do clima fez nesta sexta-feira, 11, sobre o rascunho apresentado na noite de quinta-feira.

Segundo os pesquisadores, o que está proposto para limitar as emissões de gases de efeito estufa é muito vago. Para eles, a não ser que o documento traga menções específicas de zerá-las até 2050, o planeta vai aquecer bem acima de 2°C. “O texto como está coloca as pessoas mais pobres, particularmente do Hemisfério Sul, em algum lugar entre o perigoso e o fatal”, diz Kevin Anderson, diretor adjunto do Centro Tyndall para Pesquisa de Mudança Climática. 

“Essa formulação que temos agora de ficar em algum ponto entre 1,5°C e 2°C é boa, mas no restante do texto as ações não são suficientes para isso”, explica Hans Joachim Schellnhuber, diretor do Instituto Potsdam para o Impacto Climático. “Vamos pensar, por exemplo, sobre 1,5°C. Sejamos claros: para conseguir isso é preciso zerar as emissões de CO2 até 2050. Mas o que temos na proposta é alcançar ‘neutralidade de gases de efeito estufa na segunda metade do século’. Isso deixa a porta aberta para incluir o que eu acabei de dizer, mas nós, como cientistas, achamos que precisa ser mais específico e consistente.”

Em versões anteriores do documento havia sugestões de cortar as emissões entre 40% e 70% ou entre 70% e 90% até 2050. Esses valores eram condizentes com o que foi proposto no último relatório do IPCC (o painel científico das Nações Unidas sobre clima), de 2014. 

Essas opções, no entanto, desapareceram do rascunho que foi apresentado pelo presidente da conferência, o chanceler francês Laurent Fabius, na noite de quinta-feira. Ficou apenas uma menção genérica, com o complemento de se buscar a neutralidade de emissões.

De acordo com Johan Rockström, diretor executivo do Centro de Resiliência de Estocolmo, uma vez que se coloca esse limite de temperatura para a proteção do planeta, todo o restante do texto precisaria ser consistente com essa meta. “Falar em neutralidade de carbono é uma concessão, que deixa em aberto contar com maciços sumidouros de carbono que temos na biosfera, e eventualmente com tecnologias como sequestro e captura de carbono (que ainda não existem em escala econômica) para assim continuar queimando combustíveis fósseis. Isso arriscaria nossa estabilidade no futuro”, afirma. 

“Para limitar o aquecimento a 1,5°C, não há nenhum cenário viável que diga que podemos adiar as ações para além de 2020”, completa Joeri Rogelj, pesquisador do International Institute for Applied Systems Analysis. 

Orçamento de carbono. Toda essa discussão se dá em torno de um conceito muito simples. Quanto mais carbono é jogado na atmosfera, mais engrossa o efeito estufa - camada de gases que retém o calor na atmosfera. Por isso, considerando a intenção de conter a temperatura em 2°C, o IPCC calculou quanto ainda seria possível emitir antes de atingir essa temperatura. O número mágico, que foi apelidado de “orçamento de carbono”, é de 1.000 gigatoneladas de CO2 entre 2011 e 2100. 

Mas quatro anos já se passaram e esse orçamento já diminuiu um tanto. Cerca de 140 gigatoneladas foram emitidas nesse período, provenientes somente de energia, de acordo com Kevin Anderson. Estimando emissões provenientes ainda de desmatamento e produção de cimento, ele calcula que sobram somente 650 gigatoneladas. A análise foi publicada no início da semana em artigo na revista Nature Geoscience. 

Presente ao evento em Paris, Anderson comentou que isso joga ainda mais pressão sobre a COP. “Quando se leva tudo isso em consideração, a quantidade de emissões que pode ser feita para o setor de energia é muito menor do que se imaginava. E isso tem repercussão sobre as políticas que precisam ser colocadas em ação”, disse. 

Para ele, da forma como está, o acordo “é mais fraco que o de Copenhague”, por não deixar claro que tudo deve ser feito dentro do melhor conhecimento científico. Ao menos isso constava no texto da COP de 2009, que incluía também a proposta de reduzir as emissões de aviação e transporte marinho. “Se esses setores não forem considerados, acho que a meta de 2°C também fica inviável.” 

Os pesquisadores sugeriram também que o mecanismo de revisão pelo qual devem passar as chamadas INDCs (as metas nacionalmente determinadas, apresentadas pelos países antes do início da conferência) tem de ser muito mais frequente e com uma sinalização clara de aumento da ambição. Diversos estudos publicados ao longo dos últimos meses mostram que só com as metas que estão hoje na mesa o planeta ruma para um aquecimento entre 2,7°C e 3,5°C - isso se forem cumpridas na totalidade.

Giovana Girardi cobre a COP-21 como fellow da Climate Change Media Partnership

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