Luiza Sampaio / WWF-Brasil
Luiza Sampaio / WWF-Brasil

Projetos buscam repovoar praias com peixes e corais no litoral brasileiro

Enquanto em Pernambuco berçários com mudas são utilizados na tentativa de multiplicar a reprodução dos corais, no Paraná um programa pioneiro ajudou na preservação dos meros

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

13 de abril de 2022 | 10h00

Nem sempre foi assim. Os resquícios coralinos pisoteados pelos turistas na praia de Porto de Galinhas, no litoral de Pernambuco, eram cheios de vida há cerca de 40 anos. De lá para cá, não apenas o turismo desenfreado ajudou a matar os corais, como as mudanças climáticas também desempenharam um papel decisivo na destruição desse ecossistema.

Na verdade, como costuma dizer o biólogo brasileiro Luiz Rocha, um dos poucos mergulhadores para avistar corais profundos no mundo, “o branqueamento dos corais é um sinal de alerta.” É um fenômeno que mostra como o planeta está sendo afetado pelo aquecimento global. O tempo para reverter essa situação está no fim, mostram os dados do IPCC, painel sobre o clima da Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2019, pelo menos 70% dos corais de todo o mundo sofreram com algum grau de branqueamento – por causa do aumento da temperatura da água os pólipos dos corais expulsam uma microalga que vive em simbiose nos recifes coralinos.

Apesar da desvantagem pelo novo normal climático, várias iniciativas em curso no litoral brasileiro estão focadas em ajudar a biodiversidade marinha. Mas o desafio é grande. A metodologia usada no Projeto Coralizar, de forma pioneira no Brasil, é desenvolvida em Pernambuco por uma equipe multidisciplinar, que envolve cientistas, empreendedores e membros do terceiro setor.

Primeiro, os pesquisadores mergulham nas águas ainda cristalinas para buscar fragmentos de corais em regiões já praticamente mortas. Como está fadada a desaparecer, a coleta é fundamental para a sobrevivência dos animais. Na praia, o material resgatado pela equipe é colocado sobre uma estrutura desenhada especificamente para receber os organismos, graças ao trabalho da startup Biofábrica de Corais.

Depois de tudo pronto, as jangadas levam essas espécies de berçários novamente para o fundo do mar. Elas são colocadas em locais escolhidos a dedo, com base em dados científicos. A expectativa dos técnicos é de que aquela colônia possa se multiplicar novamente e um novo ambiente coralino surja na região.

As espécies utilizadas no projeto (coral-fogo e coral couve-flor) são nativas, explica Vinicius Nora, analista de conservação do WWF-Brasil, uma das ONGs envolvidas na iniciativa. “O foco do trabalho é desenvolver uma metodologia, e uma cultura a partir da estrutura em rede, para mostrar que a restauração dos corais na região é possível”, diz Nora.

Os integrantes do projeto, reforça o analista, têm a real noção de que trabalham com a adaptação e mitigação às mudanças climáticas. “O problema do aquecimento global será resolvido por completo com uma ação global por menos emissões de carbono."

Até agora, 12 berçários estão instalados nas águas de Porto de Galinhas. Um total de 720 mudas de corais são monitoradas. Sem o resgaste, estes organismos estariam mortos. Há um outro berçário, com 120 mudas, sendo montado nos laboratórios da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Os resultados científicos obtidos até agora são promissores, segundo Nora. O monitoramento das estruturas lançadas no fundo do oceano indicam uma mortalidade de aproximadamente 10% das mudas. Além de desenvolver uma metodologia científica robusta – e em sintonia com vários projetos semelhantes em curso hoje nos Estados Unidos, na Polinésia Francesa e em outras partes do mundo – a iniciativa em Pernambuco pode ganhar escala para outras partes do litoral do Nordeste.

“Queremos promover o turismo atrelado à restauração de corais. Os jangadeiros de Porto de Galinhas, por exemplo, poderão levar os turistas para ver os berçários. E os visitantes que quiserem se envolver ainda mais com o projeto, em breve, poderão participar de um programa de voluntariado”, afirma o analista do WWF.

Renata Chagas, diretora-presidente do Instituto Neoenergia, detalha a iniciativa: “O Coralizar busca tornar a restauração, a manutenção e a adaptação dos recifes de corais uma agenda prioritária no Brasil, além de engajar diversos atores sociais em prol da preservação dos oceanos.”

Em outro ponto do litoral brasileiro, há mais de 15 anos, o Programa de Conservação e Recuperação da Biodiversidade Marinha da Associação MarBrasil (Rebimar) começou com a iniciativa de povoar uma parte do litoral do Paraná com recifes de corais artificiais. Na verdade, blocos de concreto com 50 centímetros cúbicos especialmente tratados para serem povoados por cracas, mariscos e até algumas espécies coralinas. No total, 3,5 mil estruturas foram lançadas ao mar.

“O nosso principal foco, além de criar novos ambientes marinhos, era coibir a pesca de arrasto no litoral, que estava acabando com a biodiversidade marinha e impactando a própria pesca artesanal do Paraná'', resume o oceanógrafo André Cattani, coordenador do programa Rebimar.

Desde que os blocos de concreto chegaram ao fundo do Atlântico, a colonização biológica das estruturas cresceu bastante. O que fez o mero, um dos peixes de topo de cadeia que existem no litoral brasileiro, passar a ser uma figura frequente na região. Cattani conta ainda que monitora espécies de tartarugas e tubarões que vivem na região.  

O próximo passo do projeto é mostrar que as soluções ambientais para o litoral brasileiro também passam por uma efetiva e constante preservação dos manguezais. “Até o ano que vem vamos terminar essa parte do projeto. Os manguezais têm uma importância muito grande para a questão da fixação de carbono, processo fundamental em termos de aquecimento global", afirma Cattani. 

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