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Projeto une aula formal e cultura dos ribeirinhos

Pedagogia da alternância é aplicada em comunidades extrativistas do Amazonas

Giovana Girardi, enviada especial/ Manaus, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2012 | 03h05

Uma mistura de ensino formal aliado a conhecimento tradicional dos povos e técnicas profissionalizantes. É a ideia por trás de uma proposta educacional que vem sendo aplicada em comunidades que vivem em Reservas Extrativistas (Resex) e de Desenvolvimento Sustentável (RDS) no Estado do Amazonas.

Apelidada de pedagogia da alternância, a iniciativa tenta lidar com um problema comum a povos ribeirinhos, indígenas, quilombolas. Ao aplicar a mesma educação regular adotadas nas cidades, sem muita relação com a vida dos alunos, as escolas acabam convivendo com estudantes desestimulados e evasão.

Na proposta da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) - aplicada em sete Núcleos de Conservação e Sustentabilidade criados pela organização em unidades de conservação do Amazonas -, os alunos se revezam entre a sala de aula e atividades práticas de pesca, roça, horta, entre outras que valorizam a cultura local.

De Manaus, subindo o Rio Negro com uma voadeira, o núcleo mais próximo é o do Tumbira, a cerca de uma hora de viagem. Lá o projeto é desenvolvido há dois anos e hoje atinge 83 alunos de 9 comunidades presentes na RDS do Rio Negro. Com plano de ampliação, a ideia é atender as 19 comunidades que fazem parte da reserva.

"O livro didático que chega aqui é o mesmo de São Paulo. A educação formal é muito rígida e não se relaciona com a vida dos ribeirinhos. Aqui é preciso, por exemplo, estudar o manejo dos recursos", explica João Tezza, superintendente técnico-científico da FAS.

"O núcleo funciona como um formador de pessoas para que elas possam atuar em suas próprias comunidades de forma rentável", complementa a professora Isolena Garrido, que assumiu o projeto em seu início.

Ela chegou à comunidade muito antes da FAS ou de qualquer projeto mais inclusivo. Nos idos de 1994, deparou-se com uma escola "caindo aos pedaços".

Isolena conta que enfrentou desde o dilema de convencer os pais a liberarem os filhos a ir para a escola até tentar influenciar também na educação das famílias. "Ouvi muito pai falando: 'Se estou vivo até hoje e nunca precisei de estudo, por que meu filho vai precisar?", conta.

Pelo programa da Secretaria de Educação do Estado são combinadas aulas presenciais e a distância, já que uma das dificuldades é justamente levar professores para comunidades às vezes distantes a dias da capital.

O projeto da FAS complementa com aulas ligadas à preservação da mata, plantação e consumo de hortaliças e outros alimentos a fim de melhorar a ingestão de nutrientes, cultivo de orgânicos, compostagem, computação e até turismo e gastronomia.

Restaurante. Alguns resultados já começam a aparecer. Após um curso de gastronomia no núcleo vizinho, o do Saracá, foi aberto um restaurante, aproveitando a demanda turística de quem navega pelo Rio Negro, querendo conhecer os povos da floresta. A estrutura já está montada e a ideia é funcionar atendendo a reservas.

Um dos garçons conseguiu complementar o ensino fundamental por conta do projeto. Antes a escola só oferecia até o 5.º ano, agora vai até o 9.º. Ao terminar o primeiro termo, ele tinha de ir para Manaus para continuar os estudos, o que não queria fazer. "A educação aqui era esquecida. Hoje ficou mais interessante estudar", diz Janderson da Silva, de 16 anos, referindo-se às aulas de computação. Agora já sonha com uma faculdade de Administração, para depois voltar para a comunidade. E abrir uma pousada.

Contando todos os núcleos, hoje o projeto atinge mais de 300 alunos que vivem nas unidades de conservação incluídas no programa Bolsa Floresta, que beneficia pessoas e comunidades que mantêm a mata. A meta dos organizadores é de que o projeto se expanda para um política pública (mais informações nesta pág.).

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