Werther Santana/ Estadão
Werther Santana/ Estadão

No lugar de carros, projeto na região central de SP constrói 'vagas verdes'

Com 15 espaços já implementados, Subprefeitura da Sé pede que moradores indiquem vias públicas onde estacionamentos de veículos podem dar lugar a bancos e jardins de chuva

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 05h00

A Subprefeitura da Sé, responsável pela região central da cidade de São Paulo, convocou a população a pedir a transformação de leitos carroçáveis em jardins de chuva e mini praças. Ao todo, 15 “vagas verdes” foram implementados desde setembro pelo projeto Gentileza Urbana, que promete entregar outras sete até o fim deste ano, ocupando espaços de 10 a 25 metros quadrados.

Segundo a subprefeitura, 32 munícipes responderam à convocatória, divulgada nas redes sociais, mas nem todos os endereços indicados tinham meio-fio adequado à intervenção urbana. O objetivo é “ampliar as possibilidades de permeabilidade e biodiversidade do solo, além de bem-estar aos munícipes”, drescreve.

“Um carro a menos/uma árvore a mais!” é o que destaca o título do chamamento do projeto, liderado por técnicos da subprefeitura e que será premiado em dezembro pela Federação Nacional de Arquitetos e Urbanistas (FNA). Trata-se de um contraponto ao avanço da Zona Azul, agora concedida e que congela o número de vagas de estacionamento rotativo por 15 anos.

Um dos primeiros a serem atendidos foi o arquiteto e urbanista Gustavo Paternostro, de 24 anos, que mora no distrito da Liberdade e estava interessado em incrementar a permeabilidade e as áreas verdes e de lazer da rua em que reside. “Sempre achei interessante a ideia de ocupar vagas de carros dando lugar a espaços que servissem tanto à cidade quanto às pessoas, como os parklets”, justifica o morador. 

Após duas semanas de obras, o espaço onde antes cabiam dois carros recebeu dois bancos coletivos de cimento, uma árvore e plantas. “Um dia depois de a vaga verde ser concluída, as pessoas começaram a usá-la. Virou parte da rotina da vizinhança, todo mundo aproveita para conversar e descansar”, descreve.

Além disso, a área foi transformada em um “jardim de chuva”, técnica em que as entradas na guia permitem que a água escoe por uma depressão coberta por sedimentos e vegetação, dificultando alagamentos. “A função de jardim de chuva está sendo bem-sucedida, infiltrando quase toda a água da chuva que desce a rua. O resultado está sendo ótimo”, avalia Paternostro.

Em outras vagas verdes, também foram instalados paraciclos e mesas. Essas intervenções estão distribuídas nas Ruas Conselheiro Brotero, Capistrano de Abreu, Pires da Mota, Avanhandava, Conselheiro Nébias, do Lava-pés, General Júlio Marcondes, Carmelitas, Gabriel dos Santos, Maria José, da Graça, Teodureto Souto e Hermínio Lemos. A próxima, ainda em obras, é na Major Quedinho. 

Além do projeto para as áreas centrais, a região da Subprefeitura da Vila Mariana está com a implantação em curso de duas vagas verdes na esquina das Ruas Décio e Uvaias, no distrito da Saúde, na zona sul. A iniciativa faz parte da quarta etapa do Projeto Piloto de Arborização de Calçadas, realizado pela Secretaria Municipal do Verde e do Ambiente.

A implementação das vagas verdes também está prevista no Plano Municipal de Arborização Urbana, apresentado em setembro. Um trecho destaca: “Explorar alternativas locacionais visando à arborização”, identificando com a CET vias públicas potenciais para implementá-las”.

Esse tipo de mudança dialoga com o conceito de “acupuntura urbana”, difundido pelo urbanista Jaime Lerner, de pequenas melhorias que podem ter efeitos práticos no dia a dia da população. Ele entende que intervenções urbanas, a depender da necessidade e da complexidade do problema, podem ser rápidas, baratas e de simples aplicação.

Professor de Urbanismo da Mackenzie, Valter Caldana destaca que esse projeto oferece a possibilidade de o cidadão reivindicar melhorias mais pontuais. Ele destaca, contudo, que é preciso que esteja inserido dentro de um planejamento amplo para os espaços públicos, para que as intervenções não fiquem isoladas e tenham um efeito mais abrangente.

Como ele destaca, metrópoles norte-americanas e europeias têm apostado na transformação das vagas antes ocupadas por carros. Um exemplo recente é Barcelona, que anunciou na semana passada uma expansão do programa de superquadras, com a criação de 21 eixos verdes e 21 praças de bairro ao longo de 61 ruas, ocupando vias, cruzamentos e outros espaços antes destinados aos automóveis.

O programa catalão tem o objetivo que todos os moradores tenham uma área verde a até 200 metros de casa. “Espaços asfálticos, hoje dedicados quase exclusivamente ao tráfego, se transformação em áreas de estar amigáveis, com vegetação, jogos, calçadas permeáveis e outros usos desempenharão um papel importante”, diz comunicado do governo local.

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