Projeto Baleia Franca faz fotoidentificação de animais

Catálogo já reúne mais de 300 visitantes regulares da costa de Santa Catarina

Ricardo Muniz, O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2008 | 19h13

O Projeto Baleia Franca completa 26 anos em 2008. Começou com parcos recursos, movido pela dedicação de voluntários. A Universidade de Miami foi uma das poucas instituições a dar apoio na época - mesmo assim humildes mil dólares por ano, e só por dois anos. O vice-almirante Ibsen de Gusmão Câmara, conservacionista pioneiro e inspirador da iniciativa, alertou sobre o surgimento dos cetáceos em águas brasileiras. Pelos relatos de pescadores colhidos por Câmara, tinha de ser baleia franca (até então, havia ocorrências de encalhes de indivíduos mortos, apenas).   Veja também: Relatório sobre baleias francas do sul (em inglês) Lista de alerta vermelho dos cetáceos (em inglês) Relatório de avistamento de baléias na América Latina (em espanhol) O mistério das baleias que se perdem Gaúcha migra para Santa Catarina para 'encantar baleias'   O primeiro avistamento de uma franca viva, firme e forte foi registrado em 1982 por José Truda Palazzo Jr., um dos fundadores da ONG, na praia de Ubatuba, litoral norte de Santa Catarina.   Desde então, o projeto tem se concentrado na investigação científica e no monitoramento da população sobrevivente desses cetáceos. Uma das principais atividades é a fotoidentificação dos indivíduos que aparecem em seu raio de observação. Até 2003, o catálogo acumulava 332 visitantes regulares. Os dados de 2004 até hoje ainda precisam ser revistos e consolidados, explica a bióloga Karina Groch, 34 anos, há três na direção da ONG. Na Argentina, o Instituto de Conservación de Ballenas mantém um catálogo similar, mas já com 1.800 francas.   Estima-se que a população total de baleias francas que circulam pelo litoral brasileiro seja de 500 indivíduos. Como elas não viajam todas juntas, todas as temporadas - o objetivo da incursão é procriar, e isso ocorre de três em três anos -, a conclusão é que há três grupos, de tamanhos diferentes, que se revezam no litoral brasileiro.   Outro objetivo da ONG é a educação e conscientização pública para impedir que os animais sejam molestados. Ainda que não organize tours de observação de baleias, o Projeto busca "incentivar a atividade ao mesmo tempo em que zela para que seja conduzida sem impactos aos animais", diz Karina, que concluiu doutorado em Biologia Animal pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2005. "Há um grande aumento na procura por informações, bem como do fluxo turístico durante esses meses de presença das francas (junho a novembro, com auge em setembro)."   O Projeto Baleia Franca tem patrocínio da Petrobrás desde 2002. Segundo a assessoria de imprensa da estatal, foram destinados à ONG no ano passado R$ 729,7 mil. Para este ano, a previsão é de um investimento de quase R$ 811 mil.   Grandalhona, mas hábil   Curiosamente, as francas não encalham, problema que costuma ceifar a vida de colegas de outras espécies. "Elas têm hábito de freqüentar águas rasas, a grossa camada de gordura permite que flutuem com facilidade em regiões com menos de 5 metros de profundidade. A exceção são ocorrências com filhotes depois de tempestades. Fraquinhos, às vezes doentes, eles não conseguem se manter na superfície", explica Karina.   Também é muito raro que elas se compliquem com redes de pesca - porque as baleias são fortes e porque são fracas as redes usadas na pesca artesanal que predomina em Santa Catarina. "As francas são grandes, gordas e pesadas. Elas arrebentam e levam pedaços da rede embora. Cansamos de ouvir reclamação de pescador, até pedindo indenização."   A mesma sorte não têm as primas do Norte. Lá são utilizadas armadilhas para pesca de lagosta, instaladas no fundo do mar. Somando a isso os incidentes com grandes embarcações, uma vez que o Atlântico Norte é área sobrecarregada por rotas marítimas, o resultado é que a pequena população, de somente 300 indivíduos, está em declínio.

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