Divulgação
Divulgação

Programa promove oficinas de computação para 2 a 3 mil alunas ao ano

O 'Meninas Digitais' tem como missão aumentar a inclusão de pessoas do sexo feminino no mercado da tecnologia

Juliana Tiraboschi, Especial para o Estado

17 Novembro 2017 | 18h42

A cada 100 estudantes matriculados em cursos de computação do Brasil, apenas 15 são do sexo feminino, segundo dados do último Censo da Educação Superior (2013). Além disso, 79% das alunas dos cursos relacionados com tecnologia da informação desistem no primeiro ano e 41% das mulheres que trabalham com tecnologia deixam a área, em comparação com 17% dos homens.

Estatísticas como essas são reflexos de uma cultura que ainda associa o mercado da computação aos homens. E é para mudar essa cultura que surgem iniciativas como o “Meninas Digitais” programa coordenado pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC) que oferece, gratuitamente, minicursos, oficinas, dinâmicas e palestras com estudantes e profissionais que já atuam na área para alunas do ensino médio e fundamental de diversas escolas públicas de todo o Brasil.

A igualdade de gênero é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU para 2030, e uma das diretrizes desse objetivo é “aumentar o uso de tecnologias para promover o empoderamento das mulheres.”

O programa começou em 2011 sob a coordenação da Secretaria Regional do Mato Grosso da SBC e, em 2015, foi institucionalizado pela sociedade. Hoje o “Meninas Digitais” reúne 30 universidades parceiras em todo o País que, juntas, oferecem ações a cerca de 2 a 3 mil estudantes todos os anos.

Para um dos coordenadores do programa, Cristiano Maciel, professor na graduação do Instituto de Computação e da pós-graduação em educação da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), essa área precisa de diversidade de gênero. Para Maciel, não deveríamos ter homens desenvolvendo tecnologia para homens, mas seres humanos criando para seres humanos. “As mulheres têm uma visão diferentes deles e podem contribuir de outras maneiras. Estudos apontam que equipes diversas são mais produtivas”, diz.

Segundo Maciel, as alunas das oficinas respondem a um questionário inicial para avaliar os conhecimentos delas sobre o tema. Em geral, as meninas sabem o que é um computador, usam tecnologias, mas não sabem que faz um profissional da área. “Muitas vezes a mulher até escolhe uma carreira na área de exatas, mas não na computação”, afirma. “Há muita desinformação”, diz.

Além da falta de informação, o programa esbarra em outros desafios, como a resistência de algumas famílias quando oficinas são oferecidas nas escolas. “Alguns pais não assinam o termo de permissão para as meninas participarem, ou ligam e dizem que elas já escolheram suas carreiras”, afirma.

Karen Figueiredo, também professora do Instituto de Computação da UFMT, está realizando uma pesquisa de doutorado na área de educação para avaliar como alunas do ensino médio se relacionam com tecnologia no dia a dia e como questões de relações de gênero influenciam na escolha do curso superior e da carreira a ser seguida. A pesquisa usa como modelo a autoeficácia, conceito da psicologia que mede o quanto uma pessoa acredita ser capaz de realizar determinadas tarefas.  

“Conseguimos perceber que as meninas demonstram uma autoeficácia baixa para tarefas relacionadas a tecnologia e à escolha da carreira, ou seja, há muita insegurança”, diz Karen. Segundo a pesquisadora, outros estudos mostram que muitos meninos têm uma autoeficácia até mais elevada do que sua real capacidade. “As alunas também consideram muito fortemente a influência da família na escolha da profissão”, diz a professora, que já conheceu pelo menos cinco alunas dos cursos de computação e sistemas da informação da UFMT que escolheram a faculdade depois de participarem de oficinas do “Meninas Digitais” durante o ensino médio.

Segundo o Code.org, organização sem fins lucrativos com objetivo de ensinar programação a pessoas de todas as idades, os empregos na área de computação no Brasil irão mais do que dobrar até 2020, passando para 1,4 milhão de vagas. Mas estima-se que apenas 400 mil delas serão preenchidas, por falta de mão de obra especializada. Se mais meninas puderem se capacitar para essas carreiras, certamente esse número poderá crescer no futuro.

Mais conteúdo sobre:
EducaçãoTecnologia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.