Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Agricultores orgânicos de Parelheiros: eles vivem de cultivar a terra na cidade de São Paulo

Regiane Bispo e Arpad Spalding moram em área rural dentro da capital paulista e contam sobre o trabalho que é levar um produto mais saudável para a mesa dos paulistanos

João Prata, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2021 | 15h00
Atualizado 29 de maio de 2021 | 10h55

Regiane Bispo, 38 anos, vive em São Paulo, na maior cidade do País. Mas para chegar na casa dela nem com o Waze. É que na parte final, quando acaba o asfalto, as informações ficam menos precisas. Falta no aplicativo alguém para avisar que, depois do matagal, vai ter uma descida de leve e uma placa vende-se num portão de madeira à direita. A casa da Regiane, ou melhor, o Sítio Felicidade, é logo depois. Aí não tem como errar. Da entrada, se reparar, já dá para perceber que ali vive um dos 60 agricultores orgânicos registrados de Parelheiros, área rural no extremo sul da capital - no total, 571 pessoas vivem da roça na região.

Regiane aponta ao que parece uma montanha de terra ao lado do portão e explica que é café usado, doado pela Nestlé. Ela explica que é importante para o adubo das plantas e que ajuda a afastar as formigas da plantação. Faz parte da agroecologia, práticas que incorporam questões sociais, culturais e ambientais na agricultura familiar. Uma ferramenta para o desenvolvimento sustentável, que tenta superar os danos causados à biodiversidade pela prática da monocultura, e do uso indiscriminado de agrotóxicos. 

A casa de Regiane é simples, térrea, com dois cômodos, uma varanda de cimento, com um muro à meia altura. A diferença para uma residência comum da região é que o esgoto do banheiro é ligado a uma fossa biodigestora, duas caixas d´água que ficam enterradas no gramado até a altura da tampa. Para funcionar, basta adicionar mensalmente uma mistura de água e esterco bovino. As bactérias limpam os resíduos e a água tratada que sai por uma torneira pode ser reutilizada para regar as plantas. 

Um galpão ao lado, com pé direito alto, está terminando de ser construído para servir de estoque e também para a montagem das cestas dos clientes. Um pouco mais à frente tem um cercado com criação de galinhas. Elas não têm botado muitos ovos, talvez por causa do frio. Regiane está investigando isso. 

Depois do galinheiro tem uma trilha que parece a abertura de um portal. O caminho poderia servir de locação para comercial: as árvores da Mata Atlântica de diversas espécies e flores de diferentes cores em volta. Uma leve curva e em seguida já dá para avistar o lugar que garante o sustento de Regiane e sua mãe, Dona Lurdes. Há dezenas de tipos de hortaliças pelo chão, com pequenas mangueiras pretas interligadas para fazer a irrigação. Tudo ali garante uma colheita mensal de 800 quilos, distribuídos entre cerca de 200 clientes. Todos fazem os pedidos pelo whatsapp. Tudo orgânico. Nada de agrotóxico. 

Há também inúmeras bananeiras. Também faz parte da agroecologia plantar diferentes espécies para não empobrecer o solo. Um pouco mais adiante uma estufa possibilita Regiane semear vegetais mais sensíveis às mudanças bruscas de temperatura. "Só assim é que consegui colher os tomates. As berinjelas também estão ficando bem bonitas", conta. O terreno termina com uma plantação de feijão, o milharal e um pequeno pasto para criação de duas vacas. Recentemente Regiane passou a entregar leite de verdade aos clientes. "Uns ficam até com dor de barriga, porque só estão acostumados com aquele de caixinha." 

Toda produção chega ao consumidor sem intermediários. Por isso o valor é semelhante e, dependendo do lugar, até mais barato do que as hortaliças vendidas em supermercado na parte central da cidade. Quando Regiane não consegue atender todos os pedidos dos clientes, completa a cesta com frutas, verduras e legumes de outros agricultores da região. 

Da cidade para o campo

Regiane descobriu há pouco mais de seis anos os benefícios da agricultura orgânica e da agroecologia. Antes ela vivia no Grajaú e tentava seguir a carreira de engenheira civil. Nem gostava muito de passar os finais de semana no sítio da família. A mãe e o pai já plantavam alguma coisa ali, mas mais para consumo próprio. A filha passou por alguns escritórios até ficar desempregada. Nesse mesmo período, perdeu o pai, vítima de câncer. 

Foi quando ela percebeu que poderia aproveitar o terreno em Parelheiros para tirar o sustento, ter melhor qualidade de vida e também trabalhar com sustentabilidade e ecologia. Mudaram ela e a mãe. "Percebemos que tudo passa muito rápido, que era preciso dar mais valor às coisas. A gente vivia no automático, minha mãe era comerciante e não tinha hora para almoçar, não ia em consulta médica porque estava sempre atarefada. Vimos que precisava mudar, pensar mais na gente."

Uma das pessoas que ajudou no processo de mudança foi um brasileiro de nome húngaro, Arpad Spalding, de 41 anos. Formado em geografia e sempre ligado em projetos sustentáveis, ele descobriu os potenciais de uma área rural em São Paulo lá por 2009. Ficou encantado com Parelheiros e passou a focar todos os seus projetos para a região. Trabalhou em diversas entidades com ações vinculadas à agricultura familiar e orgânica até comprar o sítio onde mora com a esposa e dois filhos, em 2015, um lugar com vista magnífica da região, com direito a nascente de rio e um pequeno lago para chamar de seu.

Spalding faz parte da cooperativa de produtores orgânicos que tem como principal objetivo encurtar o caminho da colheita ao consumidor final. "A Regiane conseguiu desenvolver uma produção orgânica e tem feito um sistema agroflorestal que atrai o olhar das pessoas pela produção diversificada. Nos últimos anos teve apoio do poder público. Isso foi bem importante para ela. Porque consegue ter escala e também uma qualidade de produção melhor do que antes." 

    

Mas não é só isso. O geógrafo também notou ao longo desse período na região que a importância da área rural de Parelheiros vai além do que se planta. "Há várias nascentes aqui. Ou seja, é um lugar que produz água, oferece conforto térmico para o restante da cidade, além de possuir uma biodiversidade incrível. E estamos dentro de São Paulo. Queremos mostrar que é possível desenvolver economicamente a região, protegendo as questões ambientais. Tenho trabalhado para ajudar no desenvolvimento econômico, social e ambiental. Como? Com agricultura."

Parelheiros é o distrito de São Paulo em penúltimo lugar na classificação por IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Aparece em 96º lugar, com índice 0,747 só à frente do vizinho Marsilac (0,701), ainda mais ao sul. Na região vivem cerca de 130 mil pessoas e uma densidade demográfica das mais baixas. São somente 855 habitantes por quilômetro quadrado, quase dez vezes menos do que por exemplo em regiões nobres, com o bairro de Pinheiros (8.171), onde Spalding morava.

Desde que trocou a zona urbana pela rural, o geógrafo só pensa em tornar o local viável para mais moradores. Outra ação que ele faz questão de divulgar é o turismo na região. "É importante trazer escolas para conhecer o dia a dia do rural. Temos uma associação para desenvolver o turismo pedagógico. Isso é muito importante para complementação de renda e mostrar o quão é legal ser agricultor. Ressignificar o que é zona rural, fazer as crianças entenderem de onde vem o pé de alface, as frutas e estimular que mais pessoas optem por esse estilo de vida."

Ligue os Pontos

Spalding atualmente integra a equipe do Projeto Ligue os Pontos, uma ação premiada da prefeitura de São Paulo para promover o desenvolvimento sustentável do território rural. O projeto saiu do papel porque venceu o prêmio Mayors Challenge 2016, promovido pela Bloomberg Philanthropies. A organização premiou iniciativas inovadoras em políticas públicas nas cidades da América Latina.

O dinheiro do prêmio possibilitou ao projeto oferecer consultoria de profissionais agrônomos aos produtores locais, também ajudou a mapear melhor a região, e também promover a aceleração de seis projetos. O sítio de Regiane foi um dos contemplados. Os R$ 35 mil que ela recebeu serviram para construir aquela estufa.

"Muitos agricultores não tinham metodologias ou conhecimento técnico para profissionalizar o negócio. O projeto, em um ano, já ajudou nessa transformação: 49% dos agricultores disseram que transformaram sua visão sobre o negócio e 25% já perceberam aumento da renda nos últimos 12 meses", diz Aline Cardoso, secretária de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Turismo da prefeitura de São Paulo.

A ótica do projeto, que termina agora em junho sua primeira fase e deve continuar no segundo semestre, é que todos elos da cadeia produtiva precisam ser estimulados. "Quanto mais demanda mais estruturada fica oferta. Quanto mais produtores orgânico, mais acessível ficará para a população", diz Aline. "Queremos conectar os elos da cadeia. No site Sampa Mais Rural a gente quer disponibilizar informação de onde as pessoas encontram os produtores. Queremos facilitar, aumentar demanda e oferta com mais coerência. A cadeia é circular, estamos falando com todos os elos. Queremos democratizar informação com alimentação mais saudável, acrescentou.

 

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