Produção aliada a floresta em pé
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Produção aliada a floresta em pé

Sistemas agroflorestais ajudam a mudar a cultura do desmatamento na Amazônia

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2022 | 08h00

Produtor de cacau em Novo Repartimento (PA), Cloves dos Santos conseguiu dobrar a receita nos últimos cinco anos. Desde que o produtor aderiu a um programa coordenado pela Solidaridad, organização internacional da sociedade civil que trabalha há mais de 50 anos no desenvolvimento de cadeias agropecuárias sustentáveis.

O grande diferencial proporcionado pelo programa, implantado a partir de 2015 com apoio de financiamentos internacionais, foi o acesso dos produtores à Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater). “Não tínhamos a quem perguntar quando surgia algum tipo de dúvida ou necessidade. Ter esse apoio fez toda a diferença para produzir com mais qualidade e responsabilidade ambiental”, avalia Santos. Orientado pelos técnicos, ele cercou os pés de cacau com espécies frutíferas, a exemplo de caju, manga e murici.

Os resultados do projeto, que envolveu 230 famílias ao longo da primeira década de funcionamento, incluem aumento médio de 30% na renda bruta e redução de 74% no desmatamento nas propriedades engajadas. Comprovados por critérios científicos, esses números atraíram a atenção do Fundo JBS pela Amazônia.

A nova fase do projeto, batizado de RestaurAmazônia, envolverá 1.500 propriedades de perfil familiar – como é o caso de Cloves – em Novo Repartimento e outros três municípios paraenses, Pacajá, Anapu e Altamira. A ideia é que os produtores recebam assistência gratuita nos três primeiros anos e a partir daí, já capitalizados pelo aumento da produtividade, comecem a pagar pelo serviço – 25% no quarto ano, 50% no quinto ano e 100% a partir do sexto ano.

“Essa fórmula torna o processo autossustentável, com prazo de retorno para os investimentos projetado em nove anos”, diz o líder do projeto pela Solidaridad, Paulo Lima. Outra vantagem é que o próprio fomento de negócios de assistência técnica em associações e cooperativas locais, com capacitação de boas práticas agropecuárias de baixo carbono, torna-se também uma fonte de renda que movimenta a economia regional.

Modelo replicável

Um dos elementos essenciais da metodologia é a recuperação de áreas degradadas a partir da implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs), nos quais diversas culturas compartilham uma mesma área. Essa diversidade contribui, ao mesmo tempo, para gerar renda e manter o equilíbrio da terra. “Buscamos escala nos projetos que apoiamos e vislumbramos que isso é possível nessa metodologia”, descreve a diretora de Programas e Projetos do Fundo JBS pela Amazônia, Andrea Azevedo.

“Sem dúvida é um modelo replicável em outras realidades. Isso é uma característica muito importante, porque a cultura-âncora varia de região para região”, diz Lima. No caso do RestaurAmazônia, a região envolvida, no entorno da Rodovia Transamazônica, é um cluster consolidado de cacau, com alto índice de desmatamento e de áreas degradadas. O projeto prevê a intervenção direta em 3 mil hectares, incluindo a restauração de 1.500 hectares de pastagens degradadas.

Aumentar a consciência sobre sustentabilidade entre os proprietários de terra é um passo importante – e isso, muitas vezes, envolve obrigatoriamente a oferta de alternativas viáveis para obtenção de renda. Parceiro do RestaurAmazônia, o Ipam publicou um levantamento recente que chegou à conclusão de que há 11,3 milhões de hectares de vegetação nativa em propriedades privadas da Amazônia – área superior à dos Estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte somados.

Parte considerável dessa área pode ser legalmente desmatada, de acordo com a legislação brasileira – daí a importância de criar mecanismos que mitiguem o desmatamento legal. “Projetos de SAF fazem parte desse esforço, mas precisamos ter sempre em mente que a prioridade máxima no Brasil é interromper o desmatamento criminoso, responsável por 46% da destruição da Amazônia nos últimos dois anos”, lembra André Guimarães, diretor executivo do Ipam.

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Ter esse apoio fez toda a diferença para produzir com mais qualidade e responsabilidade ambiental
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Cloves dos Santos, Produtor

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Precisamos ter em mente que a prioridade máxima no Brasil é interromper o desmatamento criminoso
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André Guimarães, Diretor executivo do Ipam

 

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