Produção agropecuária é a maior responsável pela poluição da água na China

Segundo o governo, a descoberta irá requerer um realinhamento parcial da política ambiental chinesa

The Guardian

09 Fevereiro 2010 | 19h27

Grandes plantações são uma fonte muito maior de contaminação da água na China do que os efluentes das fábricas, revelou o governo chinês  em seu primeiro “censo de poluição”. A matéria foi publicada pelo jornal britânico The Guardian.

 

Os oficiais do governo disseram que a descoberta, depois de um estudo de dois anos envolvendo 570 mil pessoas, irá requerer um realinhamento parcial da política ambiental – que, ao invés de se ocupar tanto com as chaminés, deverá voltar sua atenção para os galinheiros, os estábulos e os pomares.

 

Apesar da nítida revisão de papéis que trouxe à tona a contaminação rural, o governo sugeriu que o problema de poluição do País pode estar perto do auge – ou pode até ter ultrapassado esse ponto. Esse argumento pode incitar um certo ceticismo entre os grupos ambientais.

 

De acordo com fontes do governo, a divulgação do relatório foi adiada por resistência do ministro da agricultura, que havia insistido previamente no argumento de que as fazendas contribuíam apenas com uma pequena fração da poluição na China.

 

O censo desmente esses argumentos completamente. De acordo com o estudo, a agricultura é responsável por 43,7% da produção de oxigênio químico do País (a principal medida de compostos orgânicos na água), 67% do fósforo e 57% dos efluentes de nitrogênio.

 

Na divulgação do estudo, Wang Yangliang, ministro da agricultura, reconheceu a falência dos métodos de criação e plantação intensivos.

 

 “Fertilizantes e pesticidas desempenharam um papel importante no aumento da produtividade, mas em alguma áreas, o uso impróprio provocou grande impacto no meio ambiente”, disse ele. “O rápido desenvolvimento da criação intensiva de animais terrestres e aquáticos produziu muito alimento, mas tornou-se também a maior fonte de poluição das nossas vidas”.

 

Ele disse que o ministério iria introduzir medidas para melhorar a eficiência do uso de pesticidas e fertilizantes, expandir a produção de biogás a partir de dejetos animais e mudar o estilo de agricultura para proteger o meio ambiente.

 

Enquanto o papel determinante do setor rural na contaminação da água é parcialmente explicado pela imensa proporção do setor agrícola na China, também reflete a dependência massiva do País de insumos artificiais, como os fertilizantes.

 

O governo diz que isso é necessário porque a China usa apenas 7% da terra do planeta para alimentar 22% da população mundial. Um lobby industrial está tentando forçar uma utilização ainda maior de insumos químicos. Ele inclui a CNOOC, uma grande companhia que possui a maior fábrica de fertilizante à base de nitrogênio do País, na cidade de Hainan Dongfang.

 

 “A poluição pela agricultura tornou-se um dos problemas mais graves da China”, disse o diretor de campanha do Greenpeace, Sze Pangcheung. “A China precisa lutar contra o abuso da utilização de fertilizantes e pesticidas e promover a agricultura ecológica, que tem vantagens óbvias para a saúde humana e o ambiente”.

 

Wen Tiejun, dean of the school of agriculture and rural development at Renmin university, said the survey should be used as a turning point. His research suggested that Chinese farmers used almost twice as much fertiliser as they needed.

 

Wen Tiejun decano da Escola de Agricultura e Desenvolvimento Rural da Universidade de Renmin, disse que a pesquisa deveria ser usada como um ponto de partida para a mudança.

 

 “Durante quase todos os 5 mil anos de história da China, a agricultura fez de nós uma economia que absorve carbono. Mas, nos últimos 40 anos, ela se tornou uma das maiores fontes poluentes que do País. A experiência diz que nós não precisamos nos apoiar nos insumos químicos para resolver a questão da segurança alimentar. O governo tem de reforçar a agricultura de baixa-poluição”, disse ele.

 

O governo teme que os novos dados sobre a agricultura e outras informações do censo não serão úteis para avaliar o sucesso do plano de cinco anos para reduzir a poluição em 10%.

 

Zhang Lijun, o vice-ministro de proteção ambiental, argumentou que a China estava resolvendo seus problemas de poluição muito mais rápido que outros países durante seus estágios mais sujos de desenvolvimento.

 

“O que acontece é que, como a China segue um padrão diferente de desenvolvimento, é muito provável que a poluição vá chegar ao auge quando a renda per capita alcançar os US$ 3 mil”, afirmou, comparando aos US$ 8 mil que ele diz ser o padrão para as outras nações.

 

Se isto é verdade, sugere então que o pior já passou, pois, de acordo com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, a renda per capita na China já ultrapassou essa cifra. Se as taxas de câmbio e o baixo custo de vida forem computados, a renda per capita chinesa pode estar próxima dos US$ 6 mil.

 

Mas o argumento de Zhang é contestável. Como inúmeros escândalos revelaram, muitas indústrias e governos locais sonegaram dados sobre poluição e emissões.

 

Muitas formas de poluição, controversas ou danosas, também não forma mensuradas – como é o caso do dióxido de carbono e de emissões de pequenas partículas. Ou então foram medidas, mas os dados não foram publicados, como é o caso do ozônio.

 

Zheng disse que o governo irá expandir seu sistema de monitoramento no próximo plano de cinco anos.

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