Problema maior da madeira ilegal não é exportação, mas comércio interno, diz biólogo

Problema maior da madeira ilegal não é exportação, mas comércio interno, diz biólogo

Roberto Waack diz que há esquemas fraudulentos para 'esquentar' produto; Bolsonaro afirmou esta semana que iria revelar países envolvidos na compra irregular

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 14h00

O presidente da República, Jair Bolsonaro, prometeu esta semana que revelaria quem são os compradores de madeira ilegal do Brasil. Nessa quinta-feira, 19, porém, ele recuou. Disse que o governo tem, na verdade,  “nomes de empresas” que comprariam produtos brasileiros de forma ilegal. Nem mesmo esses nomes, porém, foram citados.

As declarações, porém, abriram um debate sobre o mercado de exploração das florestas. Para o biólogo Roberto Waack, especialista no assunto, trata-se de uma falsa polêmica.  “A maior parte da madeira tropical brasileira é consumida no Brasil mesmo”, afirma o biólogo, empresário do setor e, atualmente, fellow da Chatham House de Londres. 

Waack destaca que o ponto central desse debate é outro. “A exportação não é o foco da questão. O ponto é que o consumo é aqui mesmo. É ótimo ir atrás de quem compra madeira ilegal, mas antes tem muita coisa para resolver aqui, especialmente os esquemas para “esquentar” a madeira no País”, defende. Veja trechos da entrevista com o biólogo Roberto Waack.

Bolsonaro está dizendo que vai divulgar compradores de madeira ilegal do Brasil.  Quem compra hoje madeira brasileira?

A maior parte da madeira tropical brasileira é consumida no Brasil mesmo. Não há boas informações, até porque a maior parte da madeira tropical brasileira é ilegal e vem do desmatamento. Minha estimativa é que menos de 20% é exportado. Talvez 10 %. Os compradores são EUA, China e países da Europa, mas claramente nenhum deles é relevante em comparação com o consumo no mercado interno. Nunca foram, a maior parte da madeira ilegal é consumida no Sudeste e agora, provavelmente no Centro-Oeste. É preciso muita atenção nos mapas de fluxo de exportação de produtos madeireiros. O Brasil é um grande exportador de madeira plantada, que não tem nada a ver com Amazônia ou exploração ilegal.

Qual é o tamanho desse mercado de madeira? Movimenta quanto?

O mercado de madeira é bastante complexo. Se divide em madeiras oriundas de: a) plantações (pinus, eucalipto, e outras espécies como teca e paricá, mas em escala ínfima perto de eucalipto e pinus). Esse mercado de plantações é praticamente 100% legal e grande parte certificado FSC. A aplicação da madeira é principalmente para celulose, mas também para painéis de madeira e para energia. Uma parte pequena é usada como madeira sólida, para construção e movelaria, mas ainda é pouco. b) planos de manejo sustentável de florestas nativas. Essa tecnologia permite a colheita de uma percentagem pequena de árvores colhidas de forma que não afete a biodiversidade e com mínimo impacto. c) a madeira ilegal, oriunda de desmatamento. Além disso, o preço depende da espécie, do grau de industrialização e do tipo de corte. A madeira pode ser vendida em toras, serradas de forma bruta ou aparelhadas, prontas para uso. Como ninguém sabe quanto de madeira ilegal acaba chegando no mercado, não se sabe o tamanho inteiro do mercado de madeira no Brasil. Os dados de plantações estão disponíveis no site da IBA – Associação Brasileira de Árvores.

O mercado de produtos de plantações deve estar em torno de R$ 100 bi, mas tem vários graus de agregação de valor. A madeira em pé é um valor, derrubada, é outro, serrada, outro.  Não há dados disponíveis do valor específico das toras. Não há informações boas sobre o mercado de madeiras oriundas de planos de manejo. Estimo que não chegue a 3% do mercado de plantações. Não há nem mesmo estimativas do mercado de madeira ilegal. O consumo nacional de madeira tropical deve estar por volta de 10 a 15 milhões de metros cúbicos.

Qual é o ponto central dessa questão?

O ponto central é que exportação não é o foco. O consumo é aqui mesmo. É ótimo ir atrás de quem compra madeira ilegal, mas antes tem muita coisa para resolver aqui, especialmente os esquemas  para “esquentar” a madeira. Se o tal DNA que o presidente menciona funciona, se sabemos de onde saiu, ora, por que não pegamos esses caras?

Como está atualmente o mercado em termos de preço?

Os preços variam por espécie, uso, grau de industrialização e beneficiamento e tipos de cortes. A madeira para energia, por exemplo, toras finas pode chegar a R$ 30 a R$ 40 por m 3. Uma tora de madeira nativa, por exemplo, um ipê, pode ser comercializada no Brasil (não é possível exportar toras) por R$ 600-1000/m 3. Um jatobá, a metade disso. Uma madeira nobre serrada bruta, sem aparelhamentos, pode chegar a ser exportada por R$ 10 mil. Ou seja, não dá para responder a essa pergunta com um só número.  Esses preços são no mercado legal. No ilegal, não se sabe, mas eu estimo que possam chegar a 60% disso.

E esses compradores da “madeira ilegal” são parcela relevante do mercado brasileiro?

Para começar, é preciso entender o que é madeira ilegal. A maior parte da madeira ilegal é "esquentada", portanto, vira legal. Os esquemas incluem planos falsos de manejo, planos de manejo existentes, mas com colheitas falsas que servem para esquentar madeiras ilegais, serrarias que usam parte da madeira oriunda de autorizações e parte de ilegais, rendimentos falsos de serrarias, mais de um uso da mesma via de transporte. Enfim, o fato é que esses esquemas são bem conhecidos e facilmente poderiam ser sufocados. Mas não são. Com isso, a madeira ilegal vira legal e pode até ser exportada sem que o comprador lá fora saiba que a origem é ilegal, uma vez que a documentação oficial é legal.  A maior parte dos países compradores sabe da fragilidade do processo, mas não têm como interferir na atuação interna, acobertada por interesses que há décadas atuam no ramo. Os bons compradores pedem certificação FSC e usam métodos de rastreabilidade. De maneira geral, esses produtos não chegam a 1% do que é transacionado no mercado. O contrabando de madeira realmente ilegal, sem documentos etc, é muito pequeno. O problema está aqui mesmo no País. Não adianta colocar a culpa nos compradores estrangeiros. Deixando claro: acho ótimo que sejam rastreados pelo governo brasileiro. Se conseguirem fazer isso, é muito bom. Mas, obviamente, também saberão de onde a madeira partiu (o tal DNA que o presidente menciona) e poderão sufocar quem opera na ilegalidade. Por que isso não é feito? A mesma regra deveria ser aplicada para quem compra madeira "esquentada" no mercado interno. Ora, se sabem quem compra fora, sabem quem compra aqui. E mais: sabem também quem é e como a madeira é "esquentada". E nada é feito. Com isso, quem opera um bom plano de manejo não tem como sobreviver, como competir. Você chega ao mercado com um produto realmente legal e compete com um que tem o mesmo documento, obtido fraudulentamente, com custo muito menor. O pior é que essa confusão, essa imagem do País, incluindo as falas do presidente, apenas servem para afastar de vez o bom mercado, o que valoriza bons planos de manejo legais. Como tudo é confuso, compradores sérios não querem nada com o Brasil. A Amazônia virou área de alto risco de um comprador sério se meter em encrenca. O mesmo vale para empresas sérias. O risco de ser confundido ou mesmo ser ameaçado é muito grande.

O Brasil compete com quem?  

Bacia do Congo, na África (Camarões, e Congos). A China também compra da Indonésia. Isso com relação à madeira tropical. No caso de plantações, é diferente. No caso de madeiras não tropicais, certamente o maior mercado do mundo, competimos com EUA, Canadá, Suécia, Finlândia, Rússia e Austrália.

Quanto tempo demora para se ter uma floresta em condições de exploração legal?

Uma plantação para colheita de madeira para serraria, entre 15 e 25 anos, dependendo da espécie. Se for manejo, uns dois anos para fazer inventário, estradas e preparar indústria.

Qual é o tipo de madeira que é explorada com rendimento satisfatório hoje? E para que serve?

Das madeiras tropicais, ipê, cumaru, angelin. E algumas outras. O uso principal é construção civil e movelaria.

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