Charly Triballeau / AFP
Charly Triballeau / AFP

‘Presidente do Brasil não veio aqui para ser advertido’, diz Bolsonaro sobre Merkel

Na véspera da abertura da cúpula dos países mais desenvolvidos do mundo, presidente rebate críticas feitas pela chanceler alemã à política ambiental do Brasil

Beatriz Bulla e Célia Froufe, enviadas especiais, Enviadas especiais a Osaka

27 de junho de 2019 | 04h42
Atualizado 27 de junho de 2019 | 22h02

OSAKA – Na véspera da estreia de Jair Bolsonaro na reunião de cúpula do grupo dos 20 países mais desenvolvidos e industrializados do mundo (G-20), o presidente brasileiro fez declarações contundentes ao rebater críticas da chanceler alemã, Angela Merkel, à política ambiental do País. Na quarta-feira, 26, Merkel disse ver com grande preocupação as ações de Bolsonaro sobre desmatamento no Brasil. Ao desembarcar em Osaka, no Japão, para o encontro do G-20, Bolsonaro contestou a chanceler alemã e disse que o País “tem exemplo para dar para a Alemanha” sobre meio ambiente. 

Ele também afirmou, depois, durante uma transmissão ao vivo na cidade japonesa, que não vai receber “pito” de ninguém. Foi uma referência a pressões internacionais envolvendo a questão ambiental no atual governo.

O presidente francês, Emmanuel Macron, ameaçou não assinar nenhum tratado comercial com o Brasil caso Bolsonaro saia do acordo climático de Paris. A declaração tem potencial de colocar em risco os trabalhos de negociações comerciais entre a União Europeia e o Mercosul.

“Se não falarmos do Acordo de Paris e se não formos capazes de defender nossos objetivos climáticos, (a declaração conjunta) será sem a França”, disse o francês, com quem o presidente Jair Bolsonaro tem reunião prevista para hoje. 

A chanceler, por sua vez, havia descrito como “dramática” a situação no Brasil e afirmou que pretendia abordar Bolsonaro para ter uma conversa clara sobre o tema. 

As manifestações foram mal recebidas na comitiva brasileira. O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, afirmou que países como a Alemanha têm interesse em explorar florestas brasileiras no futuro e, por isso, dão “palpite” na política ambiental do País. 

“Quem tem moral para falar da preservação de meio ambiente no Brasil? Esses países que criticam? Vão procurar sua turma”, declarou o ministro. 

Visivelmente cansado e irritado, Bolsonaro disse que não foi para o encontro de cúpula para ser repreendido. “O presidente do Brasil que está aqui não é como alguns anteriores, que vieram aqui para ser advertidos por outros países, não. A situação aqui é de respeito para com o Brasil. Não aceitaremos tratamento do passado como alguns chefes de Estado tiveram aqui”, disse ele na chegada ao hotel em Osaka.

Em seguida, o presidente culpou a imprensa ao comentar a fala de Merkel. “Eu vi o que está escrito e, lamentavelmente, em grande parte o que a imprensa escreve não é aquilo”, afirmou. Advertido por um jornalista de que as observações de Merkel foram publicadas pela imprensa estrangeira, e não brasileira, Bolsonaro respondeu: “Não interessa que foi (a imprensa) alemã, e deixa eu terminar o raciocínio. Então, tem que fazer a devida filtragem para não se deixar contaminar por parte da mídia escrita especialmente”.

Ele disse que não vê “problema nenhum” em ser abordado por Merkel para falar sobre desmatamento no G-20. “Nós temos exemplo para dar para a Alemanha sobre meio ambiente, a indústria deles continua sendo fóssil, em grande parte de carvão, e a nossa, não. Então eles têm a aprender muito conosco”, disse Bolsonaro. Não há previsão de encontro oficial entre os dois durante o G-20 até o momento.

A questão ambiental é um ponto de atenção desde o início do governo Bolsonaro. No plano internacional, o relator especial da ONU sobre pobreza extrema e direitos humanos, Philip Alston, citou o presidente brasileiro em seu relatório no trecho dedicado a analisar casos de “fracasso de liderança governamental”. O documento incluiu o Brasil entre os países que dão “passos na direção errada” em relação aos esforços globais para conter as mudanças climáticas e o impacto delas na parcela mais pobre da população.

Pronunciamentos. Questionado sobre o que pretende dizer durante a reunião do G-20, Bolsonaro devolveu a pergunta a um jornalista: “O que você quer que eu fale?” 

Na sequência, o presidente brasileiro disse que vai se pronunciar sobre indústria, internet e meio ambiente. Na programação do G-20 há previsão de que ele se manifeste duas vezes. A primeira, em um pronunciamento de 5 minutos e a segunda, de 3 minutos. “Nós falaremos tudo o que estiver na pauta. E, se formos questionados por alguma coisa, temos certeza de que estamos prontos para resolver”, afirmou ele. / COLABORARAM ANDRÉ ÍTALO ROCHA e DANIEL GALVÃO

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