Preservação da palmeira juçara depende de mais controle e proteção

Espécie híbrida ameaça vegetal nativo na Mata Atlântica; extração ilegal de palmito sempre foi um dos maiores inimigos da espécie

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2014 | 22h00

SÃO PAULO - Pressionada há décadas pela extração ilegal de palmito, a palmeira juçara pode estar ameaçada por estratégias traçadas justamente para salvá-la. O principal exemplo é a espécie híbrida que surgiu da mistura entre a juçara e o açaí da Amazônia. 

Cientistas temem que a nova palmeira invada o espaço da juçara na Mata Atlântica. A concorrência desigual contribuiria com o desaparecimento da palmeira nativa. Na opinião de especialistas, os principais problemas das áreas de preservação da espécie original são a falta de controle e fiscalização.

Mauro Galetti - Professor do Laboratório de Biologia da Conservação da Unesp (Rio Claro)

"Embora a pupunha esteja ganhando espaço e existam projetos de plantação de palmito juçara, continua sendo muito mais lucrativo entrar nos Parques Estaduais e roubar palmito. O ponto-chave é que nossos parques no estado de São Paulo não têm proteção nenhuma. Nem seria preciso ter guardas armados, mas apenas uma patrulha com rádio para acionar a Polícia Ambiental. Isso já inibiria muito a extração ilegal"

Talita Sampaio e Silva - Bióloga, mestre em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar

"A palmeira juçara é muito procurada pelos animais, por isso é uma planta extremamente importante na Mata Atlântica. Especialmente porque o pico da sua frutificação ocorre numa época em que outras plantas não estão frutificando, entre junho e julho. Nessa época, ela se torna uma fonte essencial de alimento. Além disso, ele produz uma quanidade grande de frutos. Acredito que é, sim, possível ter uma exploração sustentável do palmito. Mas a exploração do fruto é ainda mais promissora".

Tatiana Barreto Serra - Promotora do Ministério Público de São Paulo - Assessora da Área de Meio Ambiente do CAO Cível

"Trabalhei no Vale do Ribeira de 2003 a 2006 e participei de uma série de vistorias em mercados da região. A extração ilegal é um problema ambiental e também uma ameaça à saúde pública, já que as condições de manuseio são as piores possíveis. Não adianta só correr atrás de denúncias nas unidades de conservação. É preciso haver uma fiscalização intensa nos centros consumidores. Quem lucra não são os palmiteiros, mas os donos de pizzarias, churrascarias e pastelarias que encomendam o produto ilegal. Só não entendo por que as pessoas ainda comem palmito".

Hederson Carlos Fernandes - Cetesb - Gerente da Agência Ambiental de Registro (SP)

"Há dois ou três anos, a produção de palmito juçara ainda podia ser autorizada por planos de manejo no estado de São Paulo. Agora só uma empresa ainda tem licença, mas a emissão está expirando. Sobraram apenas as empresas clandestinas de fundo de quintal. A pupunha, o açaí e o híbrido não precisam de autorização e podem ser extraídos livremente, pois são consideradas espécies exóticas. A extração, no entanto, só é permitida desde que a palmeira estja plantada em áreas onde não existem restrições ambientais".

Simey Fisch - Professora da Unitau, em Guaratinguetá (SP)

"Trabalho há anos com palmeira juçara, em especial no Núcleo Santa Virgínia, no Vale do Paraíba. Não trabalhamos com palmito, só com o fruto.Na região há muitos trabalhos com a população do entorno da floresta, para que ela entenda que não é preciso extrair o palmito. O palmito da juçara tem que ser totalmente descartado, mesmo com manejo. Temos que nos concentrar na extração da polpa da juçara. Estou muito otimista com isso. A pupunha é uma boa alternativa para quem quer palmito".

Samuel Ferrari - Professor da Unesp - Campus Experimental de Registro

"A pupunha já está há quatro anos no Vale do Ribeira. Essa cultura tira um peso das costas da palmeira juçara, porque também tem um palmito de qulaidade. Buscamos cada vez mais uma técnica agronomicamente correta para que a indústria dê continuidade a esse negócio. Estamos aprimorando toda a cadeia produtiva, com métodos de plantio, cozimento, envase e esterlização. É uma cadeia que está evoluindo muito. Mas é preciso ganhar espaço com os pés no chão. Uma contaminação colocaria tudo a perder".

Cláudio de Andrade e Silva - Produtor de Pupunha em Iguape (SP) - Presidente da Associação de Produtores de Pupunha do Vale do Ribeira - Apuvale

"O palmito juçara era o rei das gôndolas dos supermercados, mas perdeu espaço porque depende do extrativismo, não tem as vantagens de uma planta cultivada. A pupunha contribui com a segurança alimentar e ajuda na renda dos trabalhdadores rurais. Quem era palmiteiro, hoje virou agricultor. A juçara é muito tardia, demora oito anos para ser colhida e precisa ser sombreada, plantada na floresta - o que traz dificuldades técnicas. A pupunha leva só quatro anos e pode ser plantada a pleno sol, como qualquer cultura. Não conheço um louco que plante juçara. Temos 800 produtores e 30 milhões de pés de pupunha na região".

Eduardo Soares Zahn - Assistente de planejamento da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) de Registro

"A atividade de extração ilegal está longe de acabar, mas tem ficado muito fragilizada diante das novas fontes oportunidades que têm surgido para as pessoas de baixa renda. Nos quilombos de São Pedro e de Pedro Cubas, em Eldorado (SP), só havia palmiteiros e hoje há pelo menos 400 mil hectares de pupunha em cada. O plantio da palmeira juçara em campo é até possível, mas é difícil evitar o roubo, porque a proibição da extração faz o preço disparar no mercado ilegal. A extração da polpa é uma boa ideia, mas tem que ser feita com manejo. Se todo o cacho for retirado, a palmeira não cumpre sua função ecológica de alimentar a fauna".

Renato Lorza - Engenheiro florestal - gestor ambiental da Fundação Florestal.

"Todas as alternativas para aliviar a pressão sobre a palmeira juçara são importantes. Não tenho nada contra nehuma delas. A opção do híbrido é a que me dá menos segurança, proque difundir uma espécie híbrida sem todos os cuidadso necessários pode significar uma ameaça irreversível à espécie original. Mesmo que a planta do híbrido não gere sementes, se as sementes de açaí forem distribuídas em grande escala, há perigo. A fauna vai se alimentar desses híbridos e isso terá consequências imprevisíveis sobre a planta nativa".

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