Olivier Douliery / AFP
Olivier Douliery / AFP

Preocupação com mudança climática domina agenda do FMI

O encontro anual do banco, que teve início na terça-feira, 15, têm previstas ao menos 16 reuniões que tratam de políticas fiscais que ajudam a mitigar problemas ambientais

Beatriz Bulla, correspondente de O Estado de S. Paulo nos EUA

17 de outubro de 2019 | 05h00

Washington - Depois de ser tratado como prioridade na Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), há pouco menos de um mês, o tema das mudanças climáticas entrou no palco principal do Fundo Monetário Internacional (FMI). O encontro anual do banco, que teve início na terça-feira, 15, têm previstas ao menos 16 reuniões que tratam de políticas fiscais que ajudam a mitigar aquecimento global, biodiversidade, governança ambiental e uma “transição verde”.

“Se eu pudesse dar um conselho para todos nós é: todos temos responsabilidade de agir”, disse a diretora-geral do fundo, Kristalina Georgieva, ao participar de debate sobre o papel dos bancos centrais no combate às mudanças climáticas. “No FMI, sempre olhamos para os riscos. E essa (mudança climática) é uma categoria de risco que tem que ser absolutamente central no nosso trabalho”, afirmou.

“Primeiro, pelos riscos de desastres para a estabilidade dos países. Temos visto como um furacão pode tirar mais de 100% do PIB em Dominica. E, segundo, pelos riscos da transição. Todos reconhecemos hoje em dia que o caminho para crescimento e criação de trabalho precisa ser de baixo carbono. A transição de uma economia de alto para baixo carbono não é uma tarefa trivial e temos responsabilidade de cuidar da compreensão desses riscos, classificá-los e, mais importantes, trazer políticas para geri-los”, afirmou a chefe do FMI.

Horas antes, o fundo divulgou o Monitor Fiscal de outubro, que teve como tema central o aquecimento global como uma ameaça ao planeta - e formas de usar a política fiscal para mitigar “efeitos danosos e mortais” gerados pelas mudanças climáticas.

“A ação até agora tem sido inadequada. O Acordo de Paris de 2015 vai na direção certa, mas os compromissos que os países fizeram são menores do que o necessário para limitar o aquecimento global ao nível considerado seguro pelos cientistas”, considera o fundo.

Outro problema, segundo o FMI, é que há incerteza se os países têm reduzido as emissões de carbono conforme o combinado.

O relatório argumenta que, de várias estratégias, a mais poderosa e eficiente é a taxação de carbono.

“Se a taxação de carbono não for realizável, o sistema de trocas de emissão seria igualmente eficiente se aplicado a uma gama ampla de atividades econômicas”, afirma o fundo.

Para o FMI, os países com maiores emissões de carbono - Índia, China e Estados Unidos - deveriam participar de uma articulação global para definir uma política de preços mínimos.

Governos como o do presidente Donald Trump, nos Estados Unidos, no entanto, têm resistido a um debate mais rigoroso sobre as políticas de mitigação de mudanças climáticas. O americano já chegou a questionar a existência do aquecimento global - o que classificou em uma de suas intervenções como “invenção dos chineses”. Para o FMI, países que refutam o reconhecimento do problema precisam sentar à mesa, ou sofrerão consequências econômicas impostas pelos demais.

“Todo mundo precisa fazer sua parte e é importante que os países pensem em chegar a acordos, tanto domésticos como internacionalmente, sobre como fazer essa transição. Se alguns países estão relutantes em fazer esse debate, há propostas no debate público. Há grupos de países que dizem 'bem, se introduzirmos a taxação de carbono e outros não, iremos fazer um ajuste nas tarifas de importação destes outros países para que haja competição em pé de igualdade dentro da nossa economia'”, afirmou Paolo Mauro, diretor no fundo.

Limitar o aquecimento global ao padrão seguro de 2ºC ou menor exige políticas de escala ambiciosa, argumenta o fundo, como a imediata taxa sobre carbono que cresça rapidamente para US$ 75 a tonelada de CO2 até 2030. Nesse cenário, estima o FMI, o os preços de eletricidade subiriam, na média, 45% em 10 anos e os da gasolina aumentariam 15% na comparação com um cenário sem implementação dessa política. A receita da taxa representaria 1,5% do PIB em 2030, na média, para os países do G-20 - do qual o Brasil faz parte - e, segundo o FMI, poderia ser distribuída para dar suporte a famílias de baixa renda, apoiar trabalhadores ou comunidades afetados de uma forma desproporcional - como os ligados à mineração de carvão, diminuir outras taxas, reduzir déficit fiscal.

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Todo mundo precisa fazer sua parte e é importante que os países pensem em chegar a acordos, tanto domésticos como internacionalmente, sobre como fazer essa transição
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Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI

“Tenho esperança de que no ano que vem eu possa dizer que estamos um passo à frente. Se não fizermos isso continuaremos a fazer coisas burras, como investir em negócios de agricultura em lugares que serão afetados por secas como regra geral”, afirmou a diretora-geral do FMI.

Kristalina Georgieva afirmou que o fundo tem agido de forma rápida para integrar os riscos climáticos nas pesquisas realizadas.

Sobre o papel dos bancos centrais, ela disse que há questões controversas a serem debatidas, como o poder de que as instituições ajam de forma proativa para desestimular investimentos não verdes.

“Em outras palavras, as taxas de juros para investimentos verdes podem ser diferenciadas?”, questionou.

A diretora-geral do FMI disse ainda que mesmo países como os EUA têm avançado no tema, ainda que isso não se reflita “no quanto tem sido formalizado em política governamental”.

“Se olharmos o que cidadãos e empresas têm feito, não acho que os EUA estão atrás”, afirmou.

Presente no debate sobre o papel dos bancos centrais no combate ao aquecimento global, Philip Lane, membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu, afirmou que é necessário assegurar que todos incorporem corretamente os riscos climáticos nos seus ativos.

“Muito aconteceu nos últimos dois anos, mas acho que precisamos fazer isso corretamente, especialmente como Bancos Centrais. Não é tanto o que nós pensamos, mas o fato de que se há riscos significativos todos devem estar respondendo”, afirmou Lane.

Na mesma reunião, Sabine Mauderer, do Conselho Executivo do Banco Central da Alemanha ponderou que as autoridades monetárias precisam lidar com a questão do aquecimento global, mas não podem substituir as políticas governamentais sobre o tema.

“O que os Bancos Centrais devem fazer é lidar com o risco climático para a estabilidade fiscal”, afirmou.

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