Oceana/Divulgação
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'Precisamos olhar para as embalagens e para o vácuo legal', diz pesquisadora sobre uso de plástico

Lara Iwanicki é gerente da Campanha de Redução da Poluição Marinha por Plásticos, da ONG Oceana Brasil

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2021 | 12h43

Formada em Engenharia Ambiental pela Unesp, Lara Iwanicki tem mestrado em Gestão Ambiental pela Universidade de Yale (EUA). Trabalhou com várias organizações internacionais em projetos relacionados à conservação marinha e gestão pesqueira. Na Oceana, maior organização não governamental sem fins lucrativos voltada para a conservação dos oceanos, é gerente da campanha de Redução da Poluição Marinha por Plásticos, autora dos estudos "Um Oceano Livre de Plásticos" e "Auditoria da Pesca Brasil 2020".

Ao Estadão, ela fala sobre o trabalho em prol do meio ambiente e da conservação da biodiversidade nos oceanos.

O Canadá adotou há alguns dias uma restrição legal sobre plástico. O país incluiu o plástico na lista de poluidores. Como você analisa essa iniciativa deles e o que há neste sentido no Brasil?

A gente está muito, muito atrasado. Esse movimento que o Canadá fez não significa uma lei de banimento, como tantos países, centenas deles, estão fazendo. O movimento do Canadá inclui o plástico como uma substância tóxica dentro de um anexo que lista outras substâncias tóxicas. Não significa que eles estejam banindo o plástico. O ministro agora vai ter autoridade e autonomia para conduzir avaliações de risco e tomar medidas de gestão de risco com relação ao plástico. É uma camada a mais de regulamentação para a comercialização dos plásticos descartáveis. É um caminho diferente.

No paralelo, o Canadá está discutindo uma legislação de banimento de plástico de uso único, como há na Europa, na China, que já proibiu canudinho e tem uma lei que vai banir, gradativamente, sacolas. Como Austrália, África do Sul, Quênia, Jamaica, Chile, Peru, uma longa lista de países que estão indo nesse sentido. Um sentido mais restritivo, de redução gradativa, de banimento. Isso é o que realmente dá resultado. Reduz a poluição.

E no Brasil?

Aqui, a gente tem alguns municípios com leis mais restritivas. Como São Paulo, que tem lei aprovada em 2020, mas que ainda não está regulamentada. Ela proíbe canudinhos, sacolinhas e descartáveis em estabelecimentos comerciais. No Rio, há lei para cobrar pelas sacolinhas plásticas e uma lei que proíbe canudinhos. Em Belo Horizonte, se não me engano, também tem lei mais restritiva para sacolinhas. Então, alguns municípios têm leis mais restritivas, mas no nível nacional, a gente não tem.

A gente tem uma política nacional de resíduos sólidos que tenta endereçar o destino das embalagens em geral, por meio da logística reversa, que é organizada por um acordo setorial com as empresas. Mas nem isso está sendo implementado. Houve a fase um, que recuperou em torno de 1,5%, e  uma fase dois, prevista para ser iniciada em 2018 mas que até hoje, 2021, não foi iniciada. Nem sequer o que estava previsto na política de resíduos sólidos está sendo cumprido. Isso, se estamos falando de embalagens. E quando a gente olha para produtos descartáveis, que são os pratinhos, canudinhos, copinhos, contêineres de isopor, sacolinhas, nada disso está dentro do marco legal. Há um vácuo legal. Precisamos de uma legislação. É o que outros países estão fazendo, mas que no Brasil ainda há dificuldade de se avançar até na discussão do assunto.

Há uma pesquisa internacional sobre os efeitos de partículas de plástico na vida humana. O estudo, do final do ano passado, detectou microplástico em placenta e organismo de bebês. Isso é discutido no Brasil? Há estudos sobre o impacto do microplástico na saúde humana?

Há poucos estudos. O que a gente sabe é que os estudos mais aprofundados são os europeus. Tem esse italiano, que olhou para seis placentas humanas e viu que em cinco delas havia microplástico, e um outro, que é bem emblemático, feito, se não me engano por austríacos, que encontrou microplástico em fezes humanas. As amostras são de pessoas de diferentes países da Europa o que mostra que é um problema que não depende das fronteiras. Isso é bastante preocupante, porque o microplástico já está chegando ao nosso corpo. Mas agora está sendo objeto de estudo pela ciência.

A gente ainda não sabe qual é o efeito agudo disso no nosso corpo. Dependendo do tamanho da partícula, ela é excretada. Ou é absorvida.  Se você tem uma partícula de menos de 150 micrômetros, ela provavelmente vai ser absorvida pelo seu corpo, vai entrar na corrente sanguínea e talvez vá para algum tecido, como apareceu nas placentas estudadas. Quando é um pedaço um pouquinho maior, seu corpo talvez não absorva, mas seu corpo vai entrar em contato com os produtos químicos dessa partícula de plástico. O que é assustador nisso tudo é que a gente está ingerindo, respirando isso. São objetos sintéticos, corpo estranho para o nosso organismo. A resposta imunológica a isso, se vai ficar na célula, se vai causar mutação genética – no caso da placenta, se vai entrar no corpo do feto -, são as perguntas da ciência. O que acontece quando a gente ingere? A gente tende a imaginar que não é saudável. Porque não é natural, não é biodegradável. E pode gerar efeitos.

Ainda não dá para saber se provoca doenças, algum tipo de câncer, por exemplo?

A gente ainda não pode afirmar que o microplástico causa, por exemplo, o câncer de estômago. Essa afirmação ainda não é possível. Mas a gente sabe que o contato é cada vez maior por meio dos alimentos, da água, do ar.

Esses sinais de contaminação já eram detectados pelos cientistas na vida marinha. Além daquela imagens dos animais com sacos plásticos enrolados no pescoço, tampa de garrafas no aparelho digestivo, há estudos conclusivos sobre o impacto na vida animal, na vida marinha?

O que temos de estudos é que há mortes na vida marinha provocadas pela ingestão, que é efeito mais imediato. O plástico não é digerido e, então, vai se acumulando no estômago do animal. Depende do tamanho do animal. Os maiores comem os pedaços maiores. Os zooplânctons, por exemplo, vão comer pequenos fios de microplásticos. Então, o que os estudos estão mostrando  como efeito mais imediato na saúde dos animais é justamente a morte por inanição, ou seja, o acúmulo do plástico no sistema digestivo leva a uma falsa sensação de saciedade no animal. Ele deixa de procurar alimento porque ele entende que ele está satisfeito. E acaba morrendo por falta de nutrientes. Isso a gente mostra no nosso relatório no Brasil, mas tem sido encontrado no mundo todo. E também está sendo encontrada a migração de componentes químicos na cadeia trófica. O plástico ingerido pelo animal é composto por outras substâncias que não são só os polímeros. E os estudos científicos mostram que esses acúmulos são danosos e mortais.

Há uma tentativa de resistir a isso? Há campanhas?

A primeira campanha que estamos fazendo é a campanha do delivery. É quando as pessoas conseguem visualizar a quantidade de plástico que está indo para o lixo. E traz também responsabilidade não só para o governo, mas também para as empresas. É uma forma de trazer o debate sobre o plástico descartável. É o primeiro ponto.

A gente tem feito discussões com o setor da cadeia do plástico sobre a necessidade de se ter uma lei nacional que contemple o conjunto de plásticos que não são contemplados pela política nacional de resíduos sólidos. A gente precisa olhar para as embalagens, mas a gente precisa olhar para o vácuo legal. É difícil isso no Brasil. Não há tanto interesse. Há tantos outros problemas no País. Mas o que a gente percebe é que os problemas relacionados ao oceano ainda ficam sendo secundários, em relação às queimadas na Amazônia. Mas a gente tem feito trabalho com outros atores para levar a discussão ao Congresso. Mas há articulações. Na Câmara há mais de 50 projetos de lei sobre o tema.

Mas esse é um debate antigo, não?

Em termos científicos, as primeiras evidências desse problema do plástico nos oceanos vieram na década de 1970. Os americanos e a própria indústria já acompanham. A gente está em 2021, já temos aí 50 anos que há documentação disso. Mas à medida que a produção de plástico descartável se acelera e tudo passa a ser plástico descartável, as evidências aumentaram. Talvez de uns dez anos para cá a gente tenha visto um crescimento de mídia, de legislação porque ficou tão óbvio isso. Não é mais só em artigos científicos. Está na praia, na trilha. E a Oceana tem trabalhado campanhas  para reduzir a produção do plástico descartável desde 2018. Já tivemos algumas vitórias. A lei nacional do Peru foi uma vitória da Oceana. E recentemente o Chile também aprovou lei.

Há um ambiente novo que favorece o debate?

Tem, sim. E não só um ambiente novo, mas uma manifestação dos próprios consumidores. A gente viu isso no caso do Delivredeplástico. 72% dos consumidores querem o delivery sem plástico descartável porque as pessoas sabem que isso é um problema e elas querem receber alternativa. Há consumidores querendo formas mais sustentáveis. No mundo dos investimentos, do ESG, agora neste contexto da pandemia, há preocupação de não colocar dinheiro em indústrias que vão causar poluição. Há sim um movimento, uma onda nova. A empresa que não surfar esse movimento, vai ficar pra fora. Há materiais alternativos. Só precisam de escala. Há materiais biodegradáveis, soluções retornáveis. Coisa até que há 20 ou 30 anos já se usava. É preciso retomar e dar escala.

Neste tempo de pandemia. Como está o debate?

A pandemia também traz essa reflexão. Houve uma mudança no padrão de consumo, por exemplo. As pessoas estão mais em casa, aumentou o consumo por delivery. E não só no delivery, mas também no e-commerce. Isso foi gerando uma consciência da quantidade de embalagens e descartáveis. Isso ficava mais diluído, mas na pandemia, como mostra a campanha, as pessoas tomaram mais consciência de que não basta só separar o lixo. Mesmo você fazendo a sua parte, o lixo pode ir parar no lixão. A campanha mostra que as pessoas têm sede de alternativas.

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