Claire O’Neill/The New York Times
Claire O’Neill/The New York Times

Por que 'biodegradável' não é o que você pensa?

Ao desenvolver produtos que parecem ser ecologicamente corretos é preciso levar em consideração planejamento de descarte e reciclagem

John Schwartz, The New York Times

04 de novembro de 2020 | 11h00

Você se preocupa com o planeta e quer evitar garrafas e outros produtos feitos de plástico descartável. Mas é complicado. Escolher produtos com embalagens que afirmam ser “biodegradáveis” ou “compostáveis” muitas vezes significa que eles se degradam apenas em condições especiais e podem complicar os esforços de reciclagem, disse Jason Locklin, diretor do Instituto de Novos Materiais da Universidade da Geórgia. “É extremamente confuso, não apenas para o consumidor, mas até para muitos cientistas”, disse ele.

Um relatório da empresa de pesquisa de mercado Mintel Group descobriu que 34% dos consumidores disseram que pagariam mais por uma água embalada em garrafas 100% biodegradáveis.

“Há espaço para os materiais biodegradáveis”, disse Jenna Jambeck, professora de engenharia ambiental da Universidade da Geórgia. No entanto, ela se preocupa com as consequências de desenvolver produtos que parecem ser ecologicamente corretos sem planejamento de descarte e reciclagem. “Quando você está projetando coisas, tem que pensar na eliminação dos materiais”, disse ela. Em última análise, disse Jambeck, “a melhor coisa que você pode fazer para o meio ambiente é não criar resíduos”.

Aqui estão quatro exemplos dos tipos de produtos que você pode ver nas prateleiras ou nos balcões.

Plástico à base de milho

Não é feito de petróleo. Mas, num aterro sanitário, pode ser tão ruim quanto

Entre as embalagens de alimentos feitas de ácido polilático, ou PLA, estão garrafas, talheres descartáveis, filmes plásticos, algumas sacolas de supermercado e outros produtos. O PLA parece plástico feito de petróleo, mas geralmente é feito de milho, embora possa vir de outras plantas, como beterraba, mandioca e cana-de-açúcar.

Os rótulos dos produtos de PLA geralmente os descrevem como compostáveis. Mas isso não significa que você pode simplesmente jogar o material na pilha de compostagem de seu quintal, se você tiver uma. Para degradar adequadamente, eles devem ser enviados para instalações de compostagem comerciais.

O processo de compostagem industrial envolve muito calor e uma umidade precisamente controlada, entre outras condições, e não está disponível em muitas partes dos EUA. Pior ainda, os produtos PLA são tão parecidos com as garrafas de plástico recicláveis normais - feitas do plástico mais comum usado em garrafas recicláveis, conhecido como PET - que podem se misturar na usina de reciclagem e contaminar o fluxo de reciclagem.

E, se o seu lixo de PLA acabar num aterro, ficará lá por muito tempo, porque é improvável que seja exposto a condições que o ajudariam a se decompor.

Papel (quando é só papel)

O que vale é o conteúdo

Semelhante ao impulso de alguns restaurantes para substituir os canudos de plástico pelos de papel, as garrafas de papel são vistas como uma possível opção para substituir as de plástico. Como podem ser feitas de materiais renováveis e sustentáveis (as árvores!), as garrafas de papel estão chamando a atenção das grandes empresas. Coca-Cola, Carlsberg e a fabricante de vodka Absolut estão explorando a ideia com a Paper Bottle Co.

O papel é reciclável, claro - desde que seja apenas papel. No entanto, garrafas e recipientes baseados em papel tendem a ser feitos com várias camadas de materiais diferentes de papel, como plástico ou lâminas metálicas, para formar barreiras. O site de um fabricante de garrafas de papel diz que o 100% de biodegradabilidade é uma “meta”.

Hipoteticamente, você poderia retirar as camadas e reciclar o papel, mas quem vai fazer isso para valer?

Tigelas de fibra

Parece compostável, mas pode acabar no aterro do mesmo jeito

Alguns restaurantes descolados usam tigelas projetadas e comercializadas para serem compostáveis. Elas são produzidas a partir do bagaço, fibra produzida como subproduto nas usinas de cana-de-açúcar.

A Sweetgreen, por exemplo, trazia no slogan a mensagem: “Nada de dentro da Sweetgreen vai para o aterro”. Mas chegar aos níveis atuais de compostabilidade tem sido uma luta para a Sweetgreen e a Chipotle, cujas tigelas anteriores continham PFAS, uma família de produtos químicos que foram ligados ao câncer e que podem permanecer no meio ambiente mesmo depois de a tigela ser compostada.

As empresas consertaram esse problema. Mas, ainda que sua tigela possa ser compostável, se você não fizer compostagem em casa, terá que jogá-la numa caixa de compostagem especial no restaurante, ou usar um serviço de compostagem.

Você não pode jogá-la no lixo reciclável: os recicladores rejeitam materiais que vêm contaminados com alimentos. E jogar a tigela numa lata de lixo no escritório ou em casa significa que provavelmente ela irá para um aterro sanitário.

Bioplástico produzido por bactérias

Promissor, mas economicamente desafiador

O PHA, ou polihidroxialcanoato, vem sendo o grande sucesso da biodegradabilidade nos últimos anos. Esse bioplástico, que pode ser produzido por bactérias, tem propriedades promissoras: pesquisas sugerem que ele pode se decompor em aterros sanitários convencionais. Na água do oceano, ele se degradará em alguns anos, uma fração dos 450 anos necessários para o plástico padrão.

Mas, em termos econômicos, a produção desse material tem sido um desafio técnico.

A Cove, uma empresa de água engarrafada, diz que está prestes a lançar seu produto em recipientes feitos de PHA. A empresa que fornece o bioplástico para a Cove, a RWDC Industries, no ano passado trouxe canudos feitos com o material ao mercado de Cingapura, onde fica a sede da empresa. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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