Agrobee
Agrobee

Colmeias de aluguel ajudam a salvar florestas e abelhas pelo Brasil

Do Norte ao Sul do Brasil, animais são fundamentais para o funcionamento das florestas e lavouras

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

04 de maio de 2022 | 10h00
Atualizado 06 de maio de 2022 | 07h12

Os bons resultados dos chamados serviços ambientais realizados pelos polinizadores, principalmente pelas abelhas, são mais claros a cada dia. Dos campos de canola no Sul do Brasil, passando pelo café no Sudeste, e chegando às grandes árvores amazônicas, a visitação dos insetos aumenta a produção em até 20%. Os ganhos não são importantes só para os bolsos dos produtores, mas também para toda a biodiversidade. As abelhas - e os insetos em geral, como besouros e borboletas - são um dos elos fundamentais para o funcionamento natural das florestas e das lavouras.

O Brasil abriga grande diversidade de espécies de polinizadores, mas as abelhas formam o maior grupo. Elas participam da polinização de 80% das plantas cultivadas ou silvestres já mapeadas pelos cientistas no País. São mais de 90 tipos de vegetais no total. Em 65% dos casos, como mostra o Relatório Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil, as abelhas são visitantes exclusivos das plantas.

“As abelhas são fundamentais no processo de polinização, inclusive de espécies de áreas florestadas, como o açaí, ou o café e o cacau, quando plantados em conjunto com as matas”, afirma Vera Imperatriz Fonseca, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e especialista no estudo de abelhas.

Desde as pesquisas do entomólogo Warwick Kerr (1922-2018) na Amazônia, na região do Rio Tapajós, se tem o conhecimento de que as abelhas são responsáveis pela polinização de 35% a 90% das árvores da floresta. É por isso que cientistas em várias partes do mundo estão alarmados com o sumiço desses vetores de vida.

O ritmo acelerado da extinção de espécies de abelhas fará com que as plantações de café, por exemplo, e a produção de algumas frutas, como a maçã e o maracujá, fiquem inviáveis. Nos Estados Unidos e na Europa, onde o processo é mais documentado, sumiram 50% das colônias das espécies domesticadas desde 1940. O aumento da criação de abelhas – e de espécies nativas sem ferrão, no caso do Brasil – é considerado positivo pelos especialistas, apesar de a situação ainda estar longe da ideal.

“No caso da Amazônia, onde existem por volta de 5 mil produtores, estamos há 15 anos trabalhando com a chamada meliponicultura, termo criado para fazer referência ao cultivo das abelhas sem ferrão, que existem aqui. Neste período, os índios do Oiapoque, por exemplo, começaram a perceber que a produção da banana aumentou. O que também ocorreu em outras áreas e culturas com os quilombolas e os ribeirinhos ”, explica João Meirelles, diretor da ONG Peabiru. Ter colmeias por perto da plantação, portanto, é crucial para a polinização e para garantir o sucesso da produção. 

A criação de abelhas precisa se espalhar pela Amazônia, principalmente, por uma questão de educação ambiental, diz Meirelles. “Como a coleta é uma vez por ano, os produtores também conseguem uma pequena renda com a venda do mel." Neste contexto é que surgiu a empresa Peabiru Produtos da Floresta para comercializar os produtos feitos a partir das abelhas sem ferrão da Amazônia. Parte do trabalho de formalizar produtores da floresta e certificar os produtos vendidos teve financiamento do Fundo Amazônia, que recebe doação de países estrangeiros para ações de preservação do bioma. 

Tecnologia vira aliada

O mel é apenas um dos produtos das abelhas. As colmeias, desde a chegada de startups como a empresa Agrobee, também podem ser alugadas para os produtores que queiram garantir os bons resultados de sua cultura. O que a plataforma desenvolvida pela empresa faz é unir as duas pontas. Ou seja, dentro de critérios científicos preestabelecidos, ela leva colmeias para lugares específicos da propriedade onde as abelhas vão poder cumprir com o papel que já cumprem na natureza.

“A tecnologia possibilita ganho de escala aos serviços ambientais das abelhas, gerando aumento da produtividade de culturas como o café, a soja e o girassol. Acabamos de entrar em uma área de mil hectares nos campos de canola do Rio Grande do Sul”, afirma Andresa Berretta, uma das sócias da empresa. Ao longo do desenvolvimento da tecnologia, a iniciativa contou com o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A manutenção dos serviços ambientais dos polinizadores vai além do uso da tecnologia, segundo os especialistas. Principalmente, porque a crise ambiental que atinge as abelhas e os besouros não é localizada. Um dos passos fundamentais, segundo Vera Fonseca, é colocar o tema sob escopo da lei dos serviços ambientais.

Para a professora da USP, é importante que fragmentos florestais ao lado de plantações, por exemplo, sejam vistos como fontes de polinizadores. “No Rio Grande do Sul, há avaliações importantes sobre o valor dos fragmentos florestais para a implementação dos campos plantados de canola. Os donos das áreas naturais precisam ser recompensados, pois é nestes locais que os polinizadores vivem, se reproduzem e também polinizam muitas espécies”, explica.

Mas nem uma plataforma eletrônica que coloca em contato criadores de abelhas com agricultores interessados em alugar colmeias nem apenas manter as florestas intactas ao lado das plantações são suficientes. Em casos específicos, o manejo adequado também é fundamental para que determinadas produções não acabem.

O grupo internacional que a pesquisadora da USP participa acaba de publicar um estudo específico sobre o açaí na Amazônia. Além da visita dos polinizadores, a forma como a espécie vem sendo cultivada - muitas vezes de maneira intensiva e distante de outras espécies da floresta - pode ser um entrave para a produção no longo prazo. 

Segundo Vera, do ponto de vista macro, a maior preocupação que ela tem hoje precisa ser combatida por todos. “As grandes ameaças sobre os polinizadores e a polinização em geral são as mudanças climáticas, acentuadas pelas alterações do uso da terra (destruição de áreas naturais indiscriminadamente) e o uso sem critérios de defensivos agrícolas, que precisam ser tratados de acordo com os programas de avaliação de risco”, explica a pesquisadora.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.