Bruno Kelly/Reuters - 23/11/2021
Bruno Kelly/Reuters - 23/11/2021

Polícia Federal tenta conter avanço de 'Serra Pelada' fluvial na Amazônia

Informação sobre descoberta de ouro atraiu centenas de balsas para região do Rio Madeira nesta semana

André Borges, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2021 | 13h46
Atualizado 24 de novembro de 2021 | 20h23

BRASÍLIA – A Polícia Federal articula ações para tentar conter o avanço de centenas balsas de garimpo ilegal que estão reunidas há dias no Rio Madeira, um dos principais rios da Amazônia, numa região onde teria sido encontrada uma grande quantidade de ouro pelas embarcações clandestinas. Outros órgãos federais participam dessa operação, como o Ibama e o Ministério da Defesa.

A informação foi confirmada à reportagem pela superintendência da PF no Amazonas e, depois, pelo Ministério da Justiça, ao qual força policial é vinculada. “A pedido do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a Polícia Federal acompanha o caso para adoção das medidas cabíveis com a maior brevidade possível.”

A PF não dá detalhes sobre a operação, mas o Estadão apurou que um grande contingente de agentes envolvendo policiais, agentes do Ibama e das Forças Armadas foi destacado, dada a dimensão do problema e os riscos de reações violentas.  Em ações desse tipo são utilizadas geralmente drones e aparelhos de telefone satetital.

Conforme o Estadão revelou, garimpeiros já estavam cientes da mobilização policial que pretende dar fim ao que se converteu em uma “Serra Pelada” fluvial. Em mensagem enviada no fim da manhã de quarta-feira, 24, por meio de WhatsApp, um garimpeiro já avisava aos demais que “está saindo de Manaus um comboio do Exército, Polícia Federal e Ibama” para a região onde estão as balsas, nas proximidades do município de Autazes. “Está lotado, mano, e subindo para a banda daí, viu”, diz o garimpeiro.

No comando das balsas clandestinas, garimpeiros também prometeram reação caso sejam abordados por ações de repreensão. Em outra mensagem de áudio obtida pela reportagem, um homem fala em montar um “paredão” de balsas, com pessoas ao redor dos equipamentos, para reagir a qualquer tipo de abordagem para fiscalização. “Vocês que têm muita balsa aí, (tem que) fazer um paredão mesmo daqueles e esperar todo mundo aí na frente da balsa. Um atrás, um na frente e ver o que é que dá. Eles vão respeitar, entendeu?”, afirma.

O garimpeiro lembra ainda episódios em que grupos invadiram e queimaram unidades do Ibama e do Instituto Chico Mendes (ICMBio) no município de Humaitá, nas margens do Rio Madeira, após agentes dos órgãos ambientais destruírem uma de suas balsas. “Uma vez, quando tocaram fogo numa balsa aqui em Humaitá, nós fomos pra cima. Tocamos fogo no Ibama, tocamos fogo no ICMBio, tocamos o foda-se, meu irmão”, diz o garimpeiro.

Nos últimos dias, centenas de garimpeiros concentraram suas balsas em uma mesma área do rio, após correrem informações de que teria sido encontrada uma grande quantidade de ouro na região. Mensagens obtidas pela reportagem também apontam a “comemoração” pela quantidade de ouro que estaria sendo retirada do leito do Rio Madeira. “Meus colegas dizem que lá embaixo estão fazendo 1 grama de ouro por hora. Mas é certo mesmo, não é mentira”, diz um garimpeiro, em mensagem de áudio.

A lavra clandestina de ouro ao longo do Rio Madeira é um problema histórico e conhecido de todo o setor público. Essa mesma atividade criminosa se espalha há décadas por outros afluentes do Amazonas, como o Rio Tapajós, na região de Itaituba. O que chama a atenção no caso atual, porém, é a aglomeração de balsas numa mesma região, nas proximidades dos municípios de Autazes.

Para retirar o ouro do fundo do rio, essas balsas utilizam longas mangueiras, que são lançadas até o leito do rio. Acionadas por geradores, elas sugam a terra e tudo o que encontram no fundo. O material revolvido é trazido até a balsa e passa por uma esteira, onde é filtrado e devolvido à água. Nesse processo, o ouro fica retido na esteira.

Essas operações geram extremo dano ambiental, porque acabam com todo tipo de alimento de centenas de espécies de peixes, comprometem a qualidade da água e geram assoreamento.

O governo do Amazonas se esquivou de qualquer responsabilidade sobre a ação criminosa que reúne mais de 600 balsas clandestinas nas águas do Rio Madeira. Por meio de nota, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão do governo estadual responsável pela fiscalização do meio ambiente, declarou que a atribuição de agir contra o garimpo ilegal na região é do governo federal e de órgãos vinculados à gestão do Executivo em Brasília.

O Ipaam afirmou que, ao identificar a presença das balsas mineradoras, comunicou o Ibama para “alinhamento de providências”. O diretor-presidente do Ipaam, Juliano Valente, declarou que as balsas estão ancoradas no Rio Madeira, em “área de competência dos órgãos federais”.

“A regulamentação da exploração mineral na área, conforme o gestor, é de competência da Agência Nacional de Mineração. O licenciamento é de responsabilidade do Ibama, e a atuação, em caso de crimes de exploração ilegal de minério, é competência da Polícia Federal. Ainda sobre a trafegabilidade e de poluição hídrica, o acompanhamento é feito pela Marinha”, afirmou Valente.

Segundo o Ipaam, embora a competência de atuação na área seja federal, Juliano Valente informou que o governo do Estado “está à disposição para atuar em parceria com os demais órgãos” e que, na manhã desta quarta-feira, 24, fez uma reunião de alinhamento com representantes do Ibama, Marinha e Polícia Federal.

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