'Podemos dizer que o Araçá está vivinho'

SÃO SEBASTIÃO - À primeira vista não é um lugar dos mais bonitos do litoral norte. A praia é lamosa, o cheiro meio ruim. A vida não é muito evidente. Tanto que no início de 2011 o prefeito de São Sebastião, Ernane Primazzi (PSC), chegou a decretar a morte da baía do Araçá.

Giovana Girardi, Enviada especial,

24 Dezembro 2013 | 20h00

A comunidade científica reagiu. Pesquisas realizadas ao longo das cinco décadas anteriores haviam descoberto que ali viviam mais de 700 espécies, principalmente no substrato, como moluscos e crustáceos. Isso em somente um terço da baía, a faixa entre marés.

Diante da declaração do prefeito, os pesquisadores se viram diante do desafio de responder se a região estava realmente morta e estender a investigação para toda a bacia, analisando não só sua biodiversidade como também a hidrodinâmica, transporte de sedimentos, as interações da cadeia alimentar, a relação com a população e a dinâmica pesqueira, além dos serviços ecossistêmicos.

Mais de 140 pesquisadores ligados a um megaprojeto do programa Biota, da Fapesp, começaram a pôr o pé na lama no ano passado e já estão confirmando suas suspeitas. "Sem ainda analisar todos os dados, já podemos dizer que o Araçá está vivinho, continua com uma alta biodiversidade", resume a pesquisadora Cecília Amaral, do Instituto de Biologia da Unicamp e líder do projeto.

Em cerca de um ano e meio foram identificadas cerca de 430 espécies, sendo 100 de peixes e 30 de aves. A maioria, cerca de 300, vive no substrato arenoso e/ou lamoso, nos costões rochosos e no manguezal. A quantidade de peixes, aliás, surpreendeu os pesquisadores.

“A minha primeira impressão da baía também foi de que aquele era um ambiente meio fedido, desprovido de vida. Mas o resultado das coletas foi surpreendente para um ambiente sob forte pressão antrópica. A cada campanha de coleta encontrávamos espécies diferentes. Vimos garopas, robalos, peixe-borboleta, raias de 20 centímetros de diâmetro a apenas 30 centímetros de profundidade. A variedade é muito maior do que se percebe só de olhar para o local”, afirma o pesquisador Riguel Contente, especialista em peixes do Instituto Oceanográfico da USP.

Ele explica que o local funciona como uma espécie de refúgio para sardinhas. “Em determinadas épocas do ano, há entradas de cardumes imensos, com quantidades elevadíssimas de indivíduos juvenis.” O canal de São Sebastião é muito profundo, com até 40 metros de profundidade, mas a baía do Araçá é mais rasa, então os cardumes com indivíduos juvenis procuram o lugar para se proteger dos predadores. Na visão dos pesquisadores, a construção do porto como é desenhado hoje poderia levar à perda desse habitat.

Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da USP, destaca o papel de limpeza que a baía promove no esgoto da cidade que chega sem tratamento ao mar. "O que estamos vendo é que esse ambiente tem vários valores e funções. As pessoas que vivem ali percebem isso, não só hoje, mas historicamente. A gente quer qualificar a discussão sobre o uso dessa região, para que seja mais sábia."

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