Pobres na AL sofrerão mais com mudança climática, diz ONU

O aquecimento global pode criar riscos à produção agrícola e à segurança alimentar da América Latina

GUIDO NEJAMKIS, REUTERS

27 de novembro de 2007 | 10h48

Tempestades mais intensas, escassez de água, redução da produtividade agrícola e desaparição de numerosas praias do Caribe seriam alguns dos desastrosos efeitos do aquecimento global na América Latina, segundo um relatório divulgado na terça-feira.   Veja também: Relatório da ONU pede corte 80% na emissão de CO2 até 2050 Relatório da ONU defende etanol brasileiro Em artigo, Lula defende 'ação nacional para desafio global' IDH mostra que estamos no caminho certo, diz ministro Para especialista, ranking da ONU adota 'rótulos artificiais' A evolução dos países O Relatório sobre o Desenvolvimento Humano 2007-2008, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), indicou também que esses efeitos podem provocar um grave retrocesso social numa região onde a pobreza já é endêmica e onde há pouca capacidade de manejo dos riscos climáticos. "Os lares pobres se vêem obrigados a enfrentar as crises geradas pelo clima em circunstâncias desfavoráveis, situação que aprofundará as desigualdades econômicas e sociais e agravará as condições de privação em que vivem", disse o relatório divulgado em Brasília. "Serão os pobres que sofrerão as piores consequências e quem terão de enfrentar esta crise com os escassos recursos que possuem", disse o texto, prevendo maior intensidade e tempestades tropicais e um aquecimento da água do mar. "As regiões da América Central e Caribe são especialmente vulneráveis a estes fenômenos. O aumento de 50 centímetros no nível do mar provocaria a perda de mais de um terço das praias do Caribe", afirmou o trabalho, num alerta sobre os danos ao setor turístico. Outro problema citado é a infiltração de água salgada na rede de abastecimento, o que obrigaria os governos a fazerem pesados investimentos em dessalinização. O Pnud advertiu no relatório que o aquecimento global pode criar riscos à produção agrícola e à segurança alimentar da América Latina, por causa das mudanças nos regimes de chuvas e temperaturas, afetando a disponibilidade de água para os cultivos. "Podem-se esperar perdas consideráveis na produtividade agrícola, o que terá efeitos negativos diretos na redução da pobreza", afirmou o texto. Os alertas se baseiam em estudos sobre os efeitos de diferentes furacões nos últimos anos na América Central e Caribe, em que famílias rurais pobres foram as mais afetadas por perdas na safra e na renda. Em relação ao Brasil, o relatório diz que o país é o quinto maior emissor mundial de gases do efeito estufa, especialmente por causa da devastação da Amazônia. DISPONIBILIDADE DE ÁGUA EM RISCO O aquecimento global ameaça também a disponibilidade futura de água na região, devido particularmente ao degelo dos glaciais na zona andina. "Os glaciares se derretem com rapidez no Peru e na Bolívia, e se projeta a desaparição daqueles localizados a baixa altitude em poucas décadas. O recuo dos glaciares ameaça diminuir a disponibilidade de água para milhões de pessoas", afirmou o Pnud. No Peru, os glaciares fornecem 80 por cento da água consumida nas principais cidades. Novos surtos de dengue, doença epidêmica em países como Brasil, Honduras, El Salvador e Venezuela, poderiam ocorrer por causa da mudança climática, chegando inclusive a regiões do continente hoje imunes à infecção. O colapso dos ecossistemas marítimos também poderia provocar um sem-número de problemas, afetando desde a nutrição da população até o setor turístico. O trabalho do Pnud propõe que os países em desenvolvimento recorram à cooperação internacional para a transferência e financiamento de novas tecnologias que ajudem a mitigar o impacto da mudança climática e recomenda aos países pobres incluir a adaptação ao aquecimento global em suas estratégias de redução da pobreza. (Com reportagem adicional de Raymond Colitt)

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