Léo Souza/Estadão
Léo Souza/Estadão

Pneus, chinelos e cigarros: remando entre os muitos dejetos do Rio Pinheiros

Ação da Virada Sustentável leva convidados a percorrerem de bote 2,5 quilômetros do principal curso de água da grande São Paulo

João Ker, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 18h32

Chinelos, embalagens de xampu, pneus, sacolas de plástico, garrafas de vidro, cigarros e muito lixo orgânico tomam o lugar do que, um dia, foi habitat de peixes, fonte de alimento para comunidades indígenas e lazer para os paulistanos do século passado. Na manhã deste sábado, 3, a reportagem do Estadão remou de bote ao longo de 2,5 quilômetros do rio Pinheiros, onde encontrou de tudo, menos a possibilidade real de vida naquelas águas. 

Na altura da estação Vila Olímpia, próximo à Ponte Estaiada, os únicos animais que transitam no entorno do rio são as aves, enquanto o mau cheiro da decomposição de dejetos orgânicos torna a respiração difícil. Reunidas em muitos conglomerados de sujeira na água, elas se misturam à pouca vegetação das margens e se dissolvem quando tocadas pelos remos do bote de rafting. 

O cenário é desolador e em nada lembra o rio que há apenas algumas décadas era usado como uma extensão do Esporte Clube Pinheiros, com direito a raias para aulas de natação. Muito menos o antigo rio Jurubatuba, como era chamado pelos índios tupis graças à grande quantidade de palmeiras em seu entorno, muito antes de os jesuítas desembarcarem no Estado e o rebatizarem. 

“Vocês têm coragem, hein, parabéns!”, gritou um ciclista ao avistar os botes no rio. Antes da embarcação, os convidados puderam ver por óculos de realidade virtual como o Pinheiros é parte integral de São Paulo, cujo aumento populacional nas últimas décadas fez com que o volume de lixo descartado nas águas representasse um desafio crescente para a sua despoluição.  

“Qualquer lixo jogado no chão, da bituca de cigarro à garrafa plástica, acaba eventualmente indo parar no rio Tietê ou aqui”, explica André Palhano, fundador da Virada Sustentável, sobre a ação disponível apenas para 20 convidados. “O objetivo (da ação) é aproximar as pessoas, para que elas não tenham apenas a ideia e o conceito, mas a experiência do que pode ser o principal rio da nossa cidade. Temos que cobrar dos gestores públicos e responsáveis, mas também temos que fazer nossa parte como cidadãos.”

Plano de despoluição para 2022 continua

Um rio Pinheiros sem lixo, sem mau cheiro, com boa aparência e água limpa até dezembro de 2022. É esse o objetivo do plano traçado pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) em conjunto com outros órgãos do Estado e com investimento total de R$ 1,7 bilhão. 

Como parte de um plano continuado que começou ainda em 1992, com o Projeto Tietê, uma das principais ações previstas pela Sabesp é o aumento da capacidade de tratamento de esgoto, que deve saltar de 4,6 mil para 7,4 mil litros por segundo. Além disso, serão realizadas obras de saneamento básico nas bacias do rio, para evitar que o lixo chegue diretamente aos córregos que deságuam no rio.

Até aqui, a Sabesp afirma que mais de 43 mil imóveis já foram ligados à rede de esgoto e o objetivo é ampliar essa cobertura para mais de meio milhão nos próximos dois anos, o que beneficiaria diretamente quase 30% da população paulistana. O desafio, entretanto, está nas áreas periféricas e de ocupação irregular, onde o tratamento será feito diretamente na água, uma vez que o saneamento básico seria inviável nessas regiões, de acordo com o governo do Estado. 

“O grande diferencial desse plano é ampliarmos a cobertura dentro das áreas irregulares e tratar os córregos que chegam ao Pinheiros”, explica Fabio Toreta, superintendente de comunicação da Sabesp. Ao todo, são 16 córregos afluentes, dos quais cinco estão em áreas mais distantes e que “precisam de um esforço maior”, onde serão instaladas novas unidades de recuperação da qualidade da água. 

Apenas na região metropolitana de São Paulo, a Sabesp conta com cinco estações de tratamento de esgoto, a maior delas em Barueri, responsável também por tratar toda a bacia do Pinheiros e com capacidade para 16 mil litros por segundo. “Quando o plano começou em 1992, apenas 20% do esgoto coletado era tratado. Hoje, estamos próximos de 80%. A mancha de poluição já recuou quase 400 km”, afirma Tortela, que enxergou no Novo Marco Legal do Saneamento Básico uma possibilidade de ampliação e aceleração desse processo.

A despoluição do rio é uma promessa política antiga, que nas últimas décadas permeou sem grandes resultados as campanhas de todos os governadores do Estado de São Paulo. Tortela acredita que o plano Novo Rio Pinheiros também seja um grande programa de saúde pública, ao aumentar a qualidade de vida das pessoas que moram às suas margens. “O desafio é que a população se conscientize em relação  ao lixo e ao esgoto. Só assim conseguiremos atingir esse objetivo em conjunto.”

Além da Sabesp, o Plano Novo Pinheiros envolve também a Secretaria de de Infraestrutura e Meio Ambiente, a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee).

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