Michael Studinger / Nasa
Michael Studinger / Nasa

Plataformas de gelo da Antártida estão cada vez mais finas

Espessura das massas de gelo flutuante diminuiu 18% entre 1994 e 2012 e perda deverá se acelerar, segundo estudo da Science

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

26 Março 2015 | 19h48

A espessura das plataformas flutuantes de gelo da Antártica diminuiu 18% em um período de 18 anos, em algumas áreas, de acordo com um novo estudo publicado nesta quinta-feira, 26, na revista Science. Para piorar a situação, a redução do volume de gelo está se acelerando, segundo os autores. As plataformas são espessas placas de gelo que, ao se desprender de glaciares ou mantos de gelo, flutuam em torno da Antártida.

O estudo, que se baseou em dados de satélites obtidos entre 1994 e 2012, foi patrocinado pela Nasa e coordenado por cientistas do Scripps Institution de Oceanografia (Estados Unidos). Com tal taxa de perda de espessura, os cientistas estimam que as plataformas de gelo da instável região oeste da Antártida poderão se extinguir nos próximos 100 anos.

A partir de dados de radares altimétricos dos satélites da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), os pesquisadores construíram um novo registro, de alta resolução, da espessura das plataformas de gelo. Reunindo dados de três diferentes missões de satélites, os cientistas identificaram mudanças na espessura do gelo ao longo de quase duas décadas - um avanço em relação a estudos anteriores que analisavam dados de uma só missão e só podiam indicar tendências.

O volume total das plataformas de gelo - que é calculado pela medida da espessura multiplicada pela área da plataforma -, em toda a Antártida, mudou muito pouco entre 1994 e 2003, declinando rapidamente a partir daí, de acordo com o estudo. As plataformas da Antártida ocidental perderam gelo ao longo de todo o período observado, com redução acelerada na última década analisada. A diminuição do volume das plataformas nessa área pode ter chegado a 70%. Segundo o estudo, na Antártica oriental, o aumento do volume das plataformas de gelo cessou depois de 2003. Algumas plataformas chegaram a perder 18% de seu volume entre 1994 e 2012. "Uma mudança de 18% ao longo de 18 anos é realmente substancial", disse um dos autores do estudo, Fernando Paolo, do Scripps. 

Como as plataformas já estão flutuando, seu derretimento não contribui diretamente para aumento do nível do mar, segundo os cientistas. Mas eles indicam que há um importante efeito indireto: as plataformas de gelo normalmente restringem o fluxo de gelo que escoa da terra firme para o oceano e, sem elas, o fluxo aumenta, com impactos na subida do nível dos oceanos.

"Esse trabalho demonstra o poder das observações por satélites para a compreensão das mudanças nas coberturas de gelo polar. Com esses dados que abrangem décadas, nós podemos entender algumas das mais importantes mudanças e suas implicações para o aumento do nível do mar", disse Thomas Wagner, gerente do Programa de Ciências Criosféricas da Nasa.

De acordo com os autores, futuros estudos terão foco nas causas da perda do volume das plataformas de gelo, incluindo os efeitos da atmosfera e do oceano.

"Estamos procurando conexões entre os eventos como o El Niño nas mudanças que estão acontecendo no Oceano Pacífico tropical e na cobertura de gelo da Antártida. São dois contextos muito distantes, mas sabemos que eles estão conectados. Isso deverá permitir o aprimoramento dos nossos modelos de previsão da futura perda de gelo", disse Paolo.

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