Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Plano de Bolsonaro de 'naufrágio artificial' em Fernando de Noronha pode atrair coral destruidor

'Estado' revelou em reportagem nesta terça-feira, 3, que o governo pretende afundar 12 barcos no entorno da ilha; medida foi duramente criticada pelo governo de Pernambuco

André Borges, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2020 | 11h29

BRASÍLIA - O plano do governo federal de fazer 12 “naufrágios artificiais” de embarcações no mar de Fernando de Noronha, com o propósito de formar novos recifes para atrair mergulhadores, traz riscos de levar para a região uma espécie invasora que afeta completamente a biodiversidade por onde passa.

O alerta é de especialistas que estudam a proliferação no Brasil do chamado “coral-sol”, uma praga do mar que acaba com tudo o que encontra ao redor.  Nativo do Oceano Pacífico, esse coral chegou ao litoral brasileiro na década de 1980, incrustado em navios e plataformas utilizadas na exploração de petróleo. Desde então, o problema é enfrentado por biólogos, por causa de seu alto poder de devastação.

Os recifes artificiais, que se baseiam em afundar embarcações para simular naufrágios, são situações favoráveis para o aparecimento dessa praga, que não tem predador natural. Dado o forte poder de proliferação desse coral, hoje sua presença é combatida em partes do litoral da Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.

O Estado apurou que, em janeiro, o Laboratório de Ecologia Marinha da Universidade Federal do Rio Grande do Norte fez um alerta de ocorrência de novo registro de coral-sol no litoral pernambucano, mais precisamente no Parque dos Naufrágios Artificiais de Pernambuco. O problema já foi, inclusive, comunicado ao Ibama, com recomendação de que a espécie exótica seja totalmente eliminada do local.

“Além de ser um plano desnecessário para uma região de biodiversidade já tão rica como Fernando de Noronha, é algo extremamente arriscado. A introdução dessa espécie de coral pode impactar profundamente a fauna aquática, reduzindo ou acabando de vez com outras espécies”, diz o biólogo e doutor em saúde pública, Anderson Sena Barnabe.

Conforme revelou reportagem do Estado nesta terça-feira, 3, o governo pretende afundar 12 barcos no entorno de Fernando de Noronha. A informação foi confirmada em vídeo gravado pelo senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), que esteve na ilha com o presidente da Embratur, Gilson Machado. Flavio diz que o governo está agindo para “desatar os nós” da legislação e permitir e ampliar a exploração turística de Fernando de Noronha. “Estamos desatando os nós dessa legislação para permitir que esses segmentos sejam muito melhor explorados por nosso País”, declara.

Gilson Machado disse que obteve aprovação junto à Marinha, de 12 pontos novos de naufrágio “para agregar ao turismo de Noronha”. “Estamos fazendo a vistoria dos pontos dos recifes artificiais em Fernando de Noronha”, disse o presidente da Embratur.

A reportagem apurou que a visita de Flavio Bolsonaro e Gilson Machado a Fernando de Noronha ocorreu sem nenhum tipo de comunicação, aviso ou convite ao governo de Pernambuco, Estado que administra o território do arquipélago. As informações sobre abertura de cruzeiros e naufrágios artificiais também não foi dividida com o governo de Pernambuco.

Após a publicação da reportagem pelo Estado, o secretário de Meio Ambiente pernambucano, José Bertotti, criticou duramente o plano federal e disse que “a informação de que o governo federal vai ‘autorizar’ a entrada de cruzeiros marítimos em Fernando de Noronha deixa mais uma vez evidente a maneira como a União lida com o meio ambiente”.

“As referidas autoridades desconhecem a existência da limitação do número de visitantes em Fernando de Noronha e as consequências de colocar na ilha mais de 600 pessoas de uma só vez, como acontece no caso dos navios de cruzeiro”, disse Bertotti.P

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