Tiago Queiroz/ Estadão
Viveiro Manequinho Lopes, o mais antigo da cidade, com mais de 90 anos. Tiago Queiroz/ Estadão

Plano de arborização da cidade de SP deve incluir vagas verdes e novos viveiros

Proposta pública que será lançada em setembro também vai priorizar Mata Atlântica; projetos comunitários mostram que mudanças dão certo

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2020 | 05h00

Seis anos após ter a elaboração determinada pelo Plano Diretor, o Plano Municipal de Arborização Urbana deve ser concluído ainda este mês, segundo a Prefeitura de São Paulo. Ele servirá de base para definir o planejamento, a implementação e a gestão de medidas relacionadas ao tema pelos próximos 20 anos.

A minuta inicial do plano reúne 219 propostas de ações. Dentre elas, estão a criação de uma listagem de espécies prioritárias, a identificação de locais potenciais para quatro novos viveiros, a especialização do Harry Blossfeld em Mata Atlântica e o estabelecimento de diretrizes para a atuação de concessionárias de distribuição de energia (como o fornecimento de mudas e insumos à Prefeitura como compensação para o volume de massa verde perdido com podas).

A criação de diferentes bancos de dados é um dos elementos mais destacados, com focos distintos, como o controle do fluxo de mudas, o rastreamento de mudas em projetos de restauração florestal (com data e local do plantio, por exemplo) e a disponibilidade de áreas para plantio, dentre outros.

A proposta discute, ainda, mudanças relacionadas aos Termos de Compromisso Ambiental (TCA), como, por exemplo, a obrigação que o plantio de compensação de obras privadas ocorra exclusivamente em áreas públicas próximas do imóvel e a aplicação de sanções legais por descumprimento ainda durante o processo.

Algumas ações propostas também indicam a criação de vagas verdes em áreas antes destinadas ao estacionamento de carros, fazendo extensões da calçada destinadas ao plantio de árvores. A minuta indica até a realização de um mapeamento junto à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) para identificar locais com potencial para esse tipo de uso. Essa mudança tem ganhado espaço fora do País. Em São Paulo, um programa da Subprefeitura da começou a aplicar a ideia neste ano.

A minuta ainda prevê a elaboração de outros materiais, como um Plano de Gestão dos Parques Urbanos (que indique áreas e normas de plantio e manejo), de Planos Regionais de Arborização (por subprefeitura) e a criação de um inventário das árvores da cidade.

Ações comunitárias mostram que é possível melhorar arborização de São Paulo

Enquanto essa ação municipal não ocorre, iniciativas de moradores, coletivos e ativistas têm mostrado que é possível modificar a situação, com o plantio de árvores nativas adequadas para áreas urbanas em canteiros, praças e calçadas.

Um caso conhecido é o do empresário Hélio da Silva, que plantou algumas milhares de árvores no entorno do Córrego Tiquatira, na zona leste. Outro caso são dos movimentos “Muda”, como o Muda Mooca, o Muda Ipiranga, o Muda Leopoldina e outros focados em diferentes distritos paulistanos.

“Tem muita coisa para falar, tem a falta de plantio, a falta de manutenção, a falta de fiscalização de árvores com colo cimentado, tem umas série de coisas”, lamenta o advogado Danilo Bifone, que já plantou mais de 20 mil árvores pelo Muda Mooca.

Outro projeto que já mostrou resultado é o das florestas de bolso, idealizado pelo botânico Ricardo Cardim e com apoio da iniciativa privada, que busca criar áreas verdes com espécies de Mata Atlântica em meio ao ambiente urbano. Ele garante que, se bem feito, a necessidade de manutenção é quase nula.

Para Cardim é preciso fazer uma lista de espécies prioritárias, que tenham valor histórico, cultural, biológico e adequadas para a infraestrutura urbana. “Se tiver muda de boa qualidade e o plantio for em época correta, elas crescem sozinhas”, diz. “Percebo baixa qualidade das mudas, mudas que parecem mais um graveto seco do que uma árvore. Se houvesse rigor na qualidade, teria muito mais sucesso na arborização.”

Ele ainda destaca a necessidade de treinamento das equipes que atuam em áreas públicas. Um dos problemas decorrentes dessa falta de orientação é o uso de roçadeiras a gasolina para cortar grama, que acabam arrancando a casca da base da árvore, o que pode levar à perda da circulação da seiva e morte. “Eu já perdi muita árvore plantada (em projetos em áreas públicas) por causa disso.”

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Levantamento da Prefeitura de São Paulo mostra falhas em manejo de árvores

Diagnóstico elaborado por técnicos aponta cortes desnecessários e baixa qualidade das mudas plantadas; especialistas dizem que situação precisa de resolução urgente

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2020 | 05h00

Um diagnóstico elaborado por técnicos da Prefeitura de São Paulo apontou cerca de 300 problemas na produção, no plantio e no manejo de árvores na cidade. Entre eles, estão a falta de padronização dos procedimentos para apuração de denúncias, os cortes desnecessários durante obras públicas, o baixo retorno das mudas plantadas, a ausência de manejo de espécies invasoras e a falta de conhecimento sobre o comportamento de espécies nativas.

O material reúne outras questões graves. Ele chama, por exemplo, a atuação da fiscalização de "morosa", diz que o conhecimento técnico das equipes contratadas é baixo, aponta que o plantio de substituição após o corte não é realizado e destaca que há interferência política na determinação e destinação dos plantios. 

O levantamento mostra que o manejo de árvores é tecnicamente ultrapassado, ineficiente e desigual. Isso tudo se soma a décadas sem um planejamento urbano que inclua a arborização. Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, esse passivo precisa ser resolvido com urgência, como uma das principais medidas para melhorar a qualidade ambiental paulistana.

Biólogo e pesquisador do Laboratório de Árvores, Madeiras e Móveis do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Sérgio Brazolin lamenta que a arborização urbana seja normalmente “relegada ao segundo plano”. “Foi pouco planejada, como na maioria das cidades no Brasil, com poucas exceções, como Curitiba, ou cidades menores, como Maringá”, diz. “Hoje temos essa situação difícil. Temos então de ter coragem de criar espaços para plantio de árvores.” 

Brazolin explica que a arborização da cidade tem uma ligação forte com loteamentos urbanos, como os dos bairros dos Jardins, Pacaembu e Sumaré. “São Paulo não teve esse planejamento, praticamente não teve de cidade, que dirá de arborização urbana”, comenta. “As regras começaram nos anos 2000. Esses critérios até hoje são adotados, induzidos, cumpridos nem sempre.”

Além disso, conforme aponta o pesquisador, também é preciso um trabalho de educação ambiental, especialmente com a população adulta. “A árvore é vista como um estorvo, uma interferência, como aquilo que cai, que mata gente.”

Ele destaca a necessidade do plantio de árvores de médio e grande porte, com altura acima de 5 metros. “São essas que trazem conforto térmico, diminuem desgaste do asfalto, dão sombra. A árvore é a solução ambiental para a cidade”, destaca. “É muito sério. A expectativa é de a temperatura subir. Isso, na microescala da cidade, é um dano sério, de desconforto.” 

Além dos benefícios listados, a presença de árvores ainda eleva a permeabilidade do solo (reduzindo alagamentos), controla a umidade do ar, serve de corredor ecológico (ao trânsito de espécies da fauna), funciona como barreira contra ventos e ruídos, diminui a poluição, retém carbono e contribui para o bem-estar da população.

Estima-se que a capital paulista tenha cerca de 650 mil árvores. De acordo com a gestão Bruno Covas (PSDB), foram plantadas 58.653 mudas arbóreas de janeiro de 2019 a julho deste ano. Quase no mesmo período, entre janeiro do ano passado e agosto de 2020, a Defesa Civil registrou 7.227 quedas de árvores na cidade.

Parte significativa dessas quedas é de árvores doentes, conforme destaca Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da USP e coordenador do programa USP Cidades Globais. Ele coordena um estudo sobre as tipuanas, uma das espécies predominantes na capital.

“As árvores são seres vivos como nós. Se não cuidar, entre 50 e 60 anos, começarão a morrer. Caem porque se forma um buraco debaixo para cima, começa com o ataque de um fungo ou outro microrganismo, insetos vão morar ali dentro, criando inconsistência debaixo das árvores. Aí, nas tempestades fortes, não aguentam e caem. Se o vento for forte, acima de 80 quilômetros por hora, pode até ser arrancada pela raiz”, explica. “Isso está acontecendo cada vez mais, pelas mudanças climáticas.”

Ele pontua, contudo, que um tratamento adequado poderia estender o tempo de vida para até mais de 100 anos, reduzindo o custo com reposição. “A gente vê árvores, às vezes, com 15 ou 20 anos que já têm problemas sérios. A poluição é um deles. O outro é a questão da poda, precisa saber podar. As podas, às vezes, são muitos drásticas, pela questão dos fios de energia da cidade.”

Segundo o Mapeamento da Cobertura Vegetal 2017, 53,3% do território paulistano não têm nenhum tipo de vegetação, número que seria ainda maior se incluísse apenas cobertura arbórea. Levantamento de Buckeridge, a partir de dados públicos, aponta as subprefeituras que precisam de arborização prioritária: , no centro, Jabaquara, na zona sul, Vila Maria, na zona norte, além de Penha, Aricanduva, Vila Prudente, Itaim Paulista, Guaianazes, São Miguel Paulista e Ermelino Matarazzo, todos na zona leste.

No caso de uma nova arborização, o professor destaca a necessidade de um planejamento que considere espécies que se adaptem às características dos passeios públicos, isto é, não tenham frutos grandes (que podem atingir pessoas), folhas ou flores que escorregam ou raízes pouco profundas, por exemplo. 

Para ele, uma maior diversidade é mais necessária em parques, praças e outras áreas com menor circulação de pessoas. “Existem árvores muito boas para certos lugares, as tipuanas, os plátanos funcionam muito bem, os ipês, o pau-brasil, a sibipiruna, o pau-ferro, todas essas já estão testadas. Se colocar um monte de espécies que não conhecem, o custo vai ser enorme e vai ter de aprender a podar cada uma delas”, pondera.

“Agora, para arborização urbana, vejo que é muito importante pensar os serviços ambientais, o tamanho das árvores, a produção de vapor de água, a sombra, a interferência. A área urbana, o meio urbano, não faz parte de uma floresta. Podemos fazer corredores de parques lineares com diversidade maior.” 

Embora nem todas sejam adequadas para calçadas, o botânico e paisagista Ricardo Cardim defende a necessidade de ampliar a diversidade de espécies nativas. “São Paulo era no passado um local de extraordinária biodiversidade, originalmente tinha mata atlântica, cerrado, bosque de araucária. Hoje, calculo que 90% da vegetação urbana é estrangeira, de plantas que não estavam aqui antes da chegada dos europeus. Não se vê sendo plantado cambuci e copaíba, que são emblemáticas de São Paulo.”

Além disso, o Manual Técnico de Arborização Urbana, cuja terceira edição saiu neste ano, não recomenda plantar árvores em calçadas com menos de 1,9 metro de largura. Na prática, isso significa que 72% dos passeios públicos da cidade não têm capacidade de serem arborizados, de acordo dados do mapeamento Largura do Passeio, realizado a partir do sistema municipal Geosampa.

Outro problema reiterado por Cardim é a falta de espaço permeável no entorno da planta. “A árvore fica enforcada por cimento, como se a terra fosse sujeira, daí a água não entra, falta oxigênio e a árvore apodrece”, comenta. “Árvores não são mais apenas elementos decorativos, como muita gente pensa. Isso é só um elemento. Árvores são máquinas de qualidade de vida, de saúde pública."

Viveiro Manequinho Lopes tem plantio de baixa qualidade, diz diagnóstico

O diagnóstico da arborização também aponta problemas e ineficiências nos viveiros. Hoje, são três ao todo: Manequinho Lopes, no Parque do Ibirapuera; Harry Blossfeld, no Parque Cemucam; e Artur Etzel, no Parque do Carmo (que não é citado no levantamento).

A situação é preocupante especialmente no Manequinho Lopes, o mais antigo, com mais de 90 anos. Segundo o diagnóstico, o abastecimento do espaço é dependente do corte de árvores e de mudas procedentes de termos de compensação ambiental e não há “estrutura adequada” para receber e fornecer mudas. 

Além disso, as mudas produzidas no local são de baixa qualidade e diversidade, o que decorreria da dificuldade dos produtores em encontrar sementes. A reportagem do Estadão, ao visitar o local, verificou uma série de mudas arbóreas secas e de má qualidade.

O levantamento, ainda, aponta duas questões envolvendo o Harry Blossfeld. A primeira é que produz mais mudas do que a demanda. A outra é a questão do acesso, pois fica fora da capital, em Cotia, na região metropolitana. 

Em termos gerais, ainda há a ausência de um sistema de informação atualizado sobre o estoque, o que faz com que se descubra a indisponibilidade de espécies apenas no momento da retirada. Além disso, por vezes, as mudas de compensação são convertidas em valor monetário ao Fundo Especial do Meio Ambiental (Fema) e, portanto, “nem sempre é aplicado diretamente em projetos de arborização”, segundo informa o diagnóstico./COLABOROU TIAGO QUEIROZ

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