Planalto acompanhou negociações de perto para evitar impasse na Rio+20

Preocupados em não repetir o fiasco da conferência sobre o clima em Copenhague, negociadores brasileiros preferiram entregar documento pronto antes do primeiro dia da cúpula internacional

Lourival Sant’Anna, enviado especial de O Estado de S.Paulo

19 Junho 2012 | 21h33

RIO - A presidente Dilma Rousseff acompanhou passo a passo as negociações, falando diretamente com os diplomatas brasileiros que as conduziam, e foi a primeira a ser informada da aprovação do comunicado final, ainda do plenário da conferência, pelo telefone. Mas a pressão pela conclusão das negociações antes da cúpula de chefes de Estado e de governo não partiu dela, apesar de combinar com seu estilo. Foram os próprios negociadores brasileiros que propuseram entregar o documento pronto, com receio de que se repetisse o fiasco da conferência sobre o clima em Copenhague, em 2009.

 

Os negociadores brasileiros disseram à presidente Dilma que era necessário deixar o comunicado final sem colchetes, como são marcados os trechos sobre os quais ainda não há concordância, antes da cúpula, que se estende de hoje até sexta. "Os países ricos gostam de deixar para os chefes de Estado e de governo, para não decidir nada", disse ao Estado uma fonte brasileira, que pediu para não ser identificada para não ferir suscetibilidades. "Veja Copenhague: não decidiram nada."

 

A presidente tem falado todos os dias diretamente com os embaixadores Luiz Alberto Figueiredo Machado e André Correa do Lago, além da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Os três e o chanceler Antonio Patriota mencionaram, em entrevista coletiva na terça-feira, 19, o risco de que a Rio+20 terminasse sem se chegar a um consenso sobre a declaração final.

 

"Acho que a presidente do Brasil estava com muito medo de resvalar para a mesma situação que Copenhague", declarou ao Estado o finlandês Timo Makela, diretor de Assuntos Internacionais da Direção Geral para o Meio Ambiente da Comissão Europeia. "Acredito que o Brasil quis evitar deixar muitas questões em aberto, o que realmente seria muito arriscado. Há muita coisa em jogo, e alguns chefes de Estado se sentem desconfortáveis quando têm de tomar decisões de última hora", continuou o representante europeu. "Isso gera ansiedade."

 

Makela contou que a pressa brasileira criou "uma situação muito difícil" para os europeus. Isso porque os ministros do Meio Ambiente e do Desenvolvimento de cerca de dez países da União Europeia chegaram ao Rio na segunda-feira e depararam com a pressão para aprovar o documento final. Mas não só precisavam de tempo para ler o comunicado como não tinham interlocutores em nível ministerial para conversar - já que os ministros dos outros países não tinham chegado ainda, e ministros não debatem com diplomatas.

 

"Os ministros perguntaram: ‘Por que a pressa? Ainda temos a terça-feira’", relatou Makela. "Mas acho que o governo brasileiro queria um dia de margem (entre o fim das negociações e o começo da reunião de cúpula)." Segundo o representante europeu, a decisão dos brasileiros de adiar a aprovação do comunicado para terça-feira foi "sábia". Se insistissem em aprovar na noite de segunda-feira, disse ele, "teriam aberto uma crise".

 

Makela considera que a ONU cometeu um erro ao separar os grupos para discutir os temas só na última semana de maio. "Entre dezembro e março, as reuniões foram só repetição. Não houve progresso", recordou ele. "A discussão de verdade só começou depois da separação dos grupos. Tivemos poucos dias. Isso criou alguma tensão. Mas não foi culpa do Brasil."

 

De acordo com a fonte brasileira, a "estrutura" original dessas reuniões da ONU é essa: os diplomatas chegam a um acordo sobre os objetivos a serem alcançados, para que os chefes de Estado e de governo possam avançar no sentido de definir os meios de implementação desses compromissos. Segundo ela, o representante da Nigéria disse na plenária que "o Brasil devolveu a estrutura a essas reuniões da ONU".

 

Uma outra fonte próxima à presidente também negou ter conhecimento de que Dilma tivesse ordenado um documento sem colchetes para os chefes de Estado e de governo, mas reconheceu: "Claro que isso era desejável. É muito bom para nós."

 

A expectativa dos negociadores brasileiros é a de que o comunicado não seja modificado pelos chefes de Estado e de governo. Mas essa não é a visão da União Europeia. "Algumas coisas que sejam muito importantes para alguns países ainda poderão ser alteradas", prevê Makela.

 

As fontes brasileiras garantem que o comunicado final não teve de ser enfraquecido para se chegar ao consenso. Na sua visão, os objetivos dos países em desenvolvimento foram alcançados, ao reiterar no texto referências aos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio. Estabelecidos no ano 2000, eles se concentram na solução dos problemas dos países pobres, até 2015. São mencionados 22 vezes no documento final. O temor dos países em desenvolvimento era de que essas metas - e o dinheiro dos países ricos a elas destinado - fossem deixadas de lado, com o estabelecimento dos novos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

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