Bernardo Oliveira / Instituto Mamirauá
Bernardo Oliveira / Instituto Mamirauá

Pirarucu se consolida como um dos pilares da bioeconomia amazônica

Nos últimos anos, milhares de pessoas passaram a preservar os peixes e a depender dele em grande parte da região

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

20 de março de 2022 | 05h00

Na ponta da cadeia, quando um paulistano ou um carioca come um lombo ou filé de pirarucu em sua cidade, muito provavelmente não está pensando em todos os processos que fizeram com que aquele pescado saísse de um lago do interior da Amazônia e chegasse ao seu prato. É uma história, além de complexa do ponto de vista logístico, que envolve desde vigílias contra a pesca ilegal até muito conhecimento científico e empírico somados. A iniciativa, hoje, é considerada um dos pilares do desenvolvimento amazônico, pois envolve preservação ambiental e o desenvolvimento socioeconômico das pessoas envolvidas com o trabalho. 

“Gostaria muito que as pessoas tivessem noção de que o manejo do pirarucu é algo muito coletivo. Também por ser totalmente sustentável, em comparação com outros tipos de pesca que não pregam por isso, é que o nosso produto sai um pouco mais caro para o consumidor”, afirma Adevaldo Dias, atualmente presidente do Memorial Chico Mendes, em Manaus, mas consultor de comunidades tradicionais quando o assunto é o manejo do pirarucu. 

Uma das iniciativas que ele está envolvido é o Gosto da Amazônia, projeto que visa distribuir o pirarucu para os principais centros brasileiros e remunerar, de forma justa, o pescador amazônico. “O desafio de comunicar a importância de se prestigiar uma cadeia totalmente sustentável é grande. Estamos longe de outros processos que existem no mercado que são quase trabalhos análogos à escravidão, explica Dias. O projeto, hoje, tem uma ligação direta com restaurantes em algumas das principais capitais do país. 

A vitória mais recente da Associação de Produtores Rurais de Carauari (Asproc) é a abertura de um frigorífico na cidade, em funcionamento desde o ano passado. A ideia dos associados, que estruturam a cadeia de produção há mais de uma década, sempre foi driblar os atravessadores. Por isso, todo o peixe pescado hoje é processado por parceiros, mas as receitas das vendas vão diretamente para os associados, que fazem a divisão dos valores de acordo com as regras de cada comunidade. Se a possibilidade de aumento de renda tem feito com que milhares de pessoas – mais de 2 mil segundo números oficiais da associação – aderissem ao manejo, isso não significa que o estoque pesqueiro do médio Juruá esteja em queda, muito pelo contrário. O número de famílias envolvidas com a pesca têm aumentado a uma taxa de 50% por ano.

“Muitos pensam que a solução para a Amazônia tem que ser buscada fora. Mas, na verdade, a saída está com a própria comunidade tradicional. O manejo do pirarucu, hoje, pode ser considerado como uma das grandes universidades da Amazônia”, explica o biólogo João Campos-Silva. Apesar de ter nascido em Piedade, no interior paulista em 1983, o pesquisador desenvolve há mais de dez anos projetos com as comunidades locais do rio Juruá. Tanto que já se sente como um amazônida. “É uma universidade porque gera renda para as populações e também ajuda na preservação da biodiversidade. Além de ser fruto da fusão do conhecimento tradicional com o científico”, explica.

Existe uma relação cultural entre os gigantescos pirarucus – peixes que podem ultrapassar os 200 quilos – e os povos da floresta. Mas, nos anos 1990, os cientistas que estudavam a espécie começaram a se preparar para a extinção absoluta dela, principalmente por causa da pesca irrestrita. Foi quando projetos de pesquisa em curso na região de Mamirauá, no interior do Amazonas, começaram a virar o jogo. 

Existe um dado biológico importante sobre a vida dos pirarucus, que vivem em lagos da região e não nos cursos dos rios. Apesar de ter brânquias, por ser um peixe, a espécie apresenta também uma bexiga natatória modificada, o que faz com que os peixes precisem subir à superfície em intervalos de minutos para respirar com a cabeça fora d’água. Este comportamento, aliado ao olhar clínico dos povos da floresta, acabou sendo importante para o estudo dos peixes, entre outros motivos, porque permitiu aos pesquisadores saberem quantos animais havia em cada um dos lagos analisados. Assim, surgiu uma metodologia que se mostrou bastante eficiente para sobrevivência tanto do pirarucu quanto de toda a comunidade aquática dos lagos da Amazônia.

Com ajuda dos órgãos ambientais, o protocolo que começou a se desenvolver há mais de 20 anos e hoje está consolidado envolve um rodízio de permissão de pesca. Lagos explorados em um determinado ano, que apresentam muitos peixes a partir da contagem feita no olho, não podem ser usados no ano seguinte, e assim sucessivamente. Em determinados ambientes, o crescimento da produção bateu os 400%.

“O manejo envolve inclusive a vigilância dos lagos, para que a pesca ilegal não ocorra. Cada comunidade faz o seu esquema. As famílias ficam monitorando os lagos a cada dia ou então por uma semana, com a ajuda de outras pessoas”, afirma Manoel Cruz, presidente da Asproc. Segundo o dirigente comunitário, a rotina não envolve apenas a repressão aos pescadores que vem de fora da comunidade para tentar capturar o pirarucu de forma ilegal. "Existe todo um trabalho de conscientização. Muitos hoje já entendem que as regras fazem com que o pirarucu se multiplique e não acabe. Além de renda, esse sistema também permite que o peixe seja uma fonte de alimentação para as comunidades”, explica Cruz. Segundo ele, todo o projeto tem trazido resultados ambientais, sociais e econômicos para as milhares de famílias envolvidas.

“Não que hoje ainda não existam desafios, ainda mais do ponto de vista logístico para o escoamento da produção, mas este tipo de manejo tem se mostrado como uma das grandes soluções para a Amazônia. E isso precisa inclusive ser melhor apresentado à sociedade”, afirma Campos-Silva.

Para o biólogo que chegou à floresta com o intuito de estudar pássaros, um dos pontos centrais do manejo sustentável na região é que ele fez com que a população entendesse que a melhoria da qualidade de vida de todos não anda separado da conservação ambiental. “É uma atividade que também exige organização e trabalho em conjunto nas comunidades. Esse empoderamento é essencial na transformação de vidas.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.