Pioneiro do cerrado cria nova forma de proteção

Leopoldo Coutinho descobriu impacto positivo de incêndios sobre a vegetação

Giovana Girardi, de O Estado de S. Paulo,

01 Outubro 2008 | 21h07

Para conservar os remanescentes do cerrado, é preciso colocar fogo na vegetação. A idéia pode até parecer absurda para quem não conhece as peculiaridades do bioma, mas tem a chancela de um dos maiores especialistas brasileiros no assunto, o pesquisador paulista Leopoldo Magno Coutinho.   Hoje aposentado do Departamento de Ecologia da Universidade de São Paulo (USP), Coutinho foi do primeiro grupo de pesquisadores que se lançou em direção ao cerrado. É também pioneiro nos estudos sobre o papel do fogo sobre aquele ambiente. Ele descobriu que das cinzas várias espécies de plantas ressurgem revigoradas, oferecendo uma nova visão sobre um evento que parecia ser só destrutivo.   Esse foi seu primeiro grande feito. O segundo foi criar uma nova geração de cientistas que pegou do professor o gosto pelo cerrado nas tradicionais excursões com alunos que Coutinho fazia ao campo. Com o passar dos anos, já como colegas de seu mentor, participaram de uma série de trabalhos que hoje auxilia a desenvolver formas de conservação para este que é um dos biomas mais ameaçados do Brasil.   OBRA DA SORTE   Coutinho credita à sorte boa parte dos acontecimentos que o levaram a entrar nessa área e a fazer algumas de suas mais importantes descobertas. "Por sorte surgiu uma vaga de auxiliar de técnico de laboratório quando eu estava no segundo ano da faculdade (do então curso de História Natural, na USP, em meados dos anos 50). Depois, assim que me formei, também por sorte, abriu uma vaga de terceiro assistente do professor Mario Guimarães Ferri", conta.   Foi Ferri quem, durante a graduação, o levou para Pirassununga (no interior de São Paulo) para estudar a vegetação típica do cerrado - seu primeiro contato com o bioma. Já como assistente, ele continuou trabalhando nessa área no interior de São Paulo e em vários outros trechos de cerrado, em especial no Brasil central. No entanto, levaria ainda mais de uma década para ele se deparar com seu principal objeto de estudo, o fogo. E de novo, por "sorte".   Coutinho já era professor de Ecologia Vegetal na USP quando, em 1969, em uma excursão com alunos para Pirassununga, viu que uma área do Ibama usada para estudo havia sido tomada por um incêndio. "No meio daquele cenário todo carbonizado, encontrei algumas flores brotando das cinzas. Era uma imagem muito bonita, ocorrendo pouco tempo depois de um evento tão drástico. Resolvi investigar."   A idéia foi fazer o que ele chama de "queimadas experimentais" para avaliar em diferentes circunstâncias o impacto das chamas na floração de plantas herbáceas. O modo de fazer isso, no entanto, não foi lá muito ortodoxo, como admite o próprio pesquisador - ele literalmente pôs fogo na vegetação. "Era uma área do Ibama. Pensando bem eu podia até estar em ‘cana’ por isso, mas, se fosse esperar autorização, não teria conseguido estudar", brinca.   Para se redimir, ele encontrou depois uma camada de carvão de 8.600 anos de idade a 2,5 metros de profundidade. "Comprovei que não fui o primeiro a botar fogo ali. Isso é uma coisa natural e antiga no cerrado."   O pesquisador descobriu que o fogo estimula o rebrotamento de muitas espécies herbáceas. "O chão racha com o calor e, uma semana depois, já surgem os botões. Identifiquei cerca de 150 espécies com essa resposta." Ele notou ainda que o fogo favorece a dispersão de sementes e sincroniza a reprodução, fazendo com que todos os indivíduos floresçam ao mesmo tempo. Segundo Coutinho, isso é possível porque o solo do cerrado funciona como isolante. Apesar de a superfície ficar quente, no interior a temperatura é tolerável, o que permite que as partes abrigadas consigam depois se recuperar.   Conservacionista, Coutinho, aos 74 anos, defende que, desde que feito com manejo, o fogo controlado em pequenas áreas, no intervalo de alguns anos, é uma das maneiras de evitar um mal maior, como os incêndios devastadores que acontecem nas reservas na região - como o Parque Nacional das Emas (GO) -, tomam tudo de uma só vez e não deixam chance para os animais fugirem. "Mas ninguém quer ouvir falar, porque parece que fogo é só destruição. Claro que é em floresta, mas no cerrado, com controle, é um instrumento de manutenção."

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