Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Pesquisadora diz que recusar ajuda à Amazônia é ‘tapa’ de Bolsonaro

Desde 2018, a pesquisadora, que é transexual, apresenta uma visão transgressora e progressista da natureza, a Ecologia Queer

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2019 | 01h34

BOGOTÁ - A pesquisora colombiana Brigitte Baptiste, diretora do Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Alexander von Humboldt (IAVH), criticou a postura do presidente Jair Bolsonaro diante das queimadas na Amazônia, principalmente por recusar ajuda internacional para o combate ao fogo e para a preservação da região.

Em entrevista à Agência EFE, a bióloga comentou as ações de políticos internacionais em relação ao meio ambiente e afirmou ter sido um "tapa" de Bolsonaro ter negado os US$ 20 milhões oferecidos pelo G7 no começo desta semana para tentar conter as chamas.

Desde 2018, a pesquisadora, que é transexual, apresenta uma visão transgressora e progressista da natureza, a Ecologia Queer, entendida como a manifestação permanente da diversidade e do cenário idôneo para a aparição do não convencional, aspectos que passam despercebidos pela visão homogênea da humanidade quanto à identidade orgânica da flora e da fauna.

Brigitte, que no próximo domingo assumirá o cargo de reitora da Universidad EAN, uma das instituições de ensino particulares mais prestigiadas da Colômbia, também criticou Bolsonaro por se voltar contra as ONGs que trabalham pela preservação da Amazônia.

"Alguns líderes como Bolsonaro culpam as ONGs, diante da sociedade civil, de alarmismo e de manipulações dos dados. Ou, inclusive, acabam com os povos indígenas, porque não são parte das suas lógicas econômicas. Esses governantes fazem vista grossa ou não reagem, porque é funcional para seus acordos com certos atores privados, especialmente no Brasil", opinou.

Entretanto, na visão da pesquisadora, os incêndios na Amazônia não são um problema apenas brasileiro, já que afetam todo o planeta. "(O incêndio) está transformando um bem comum e um bem público como a atmosfera", destacou.

Brigitte também queixou-se pelo fato de países desenvolvidos - citou França e Alemanha - continuarem a depender de indústrias fósseis como as de carvão, petróleo e gás.

"Emmanuel Macron (presidente da França), Angela Merkel (chanceler da Alemanha) e os demais líderes europeus ficaram com a responsabilidade de assumir uma dívida ambiental quando as suas nações escolheram ou se viram obrigadas a utilizar o carvão e o petróleo como fonte central de energia", disse a bióloga, que acusou os países desenvolvidos de provocarem uma crise climática que acelerou a condição atual do planeta.

"É muito lamentável que, com essa visão de lucro a dois ou três anos, estejamos dispostos a sacrificar o futuro de toda a humanidade. Há uma busca pelo crescimento financeiro e a rentabilidade a curto prazo, sem se importar em dez anos com o efeito climático. É um desastre que estes líderes estejam negando as evidências científicas", lamentou.

Como exemplo, a diretora do IAVH citou Porto Rico, cujas florestas foram destruídas a partir dos anos 50. "Foi demonstrado que não se parecem nem se recuperaram na complexidade, na diversidade, nem no carbono de uma floresta primária que tinham", explicou.

Na Colômbia, houve um aumento da taxa de desmatamento, o que exterminou partes significativas da Amazônia local e faz com que qualquer hectare queimado forneça carbono à atmosfera, destruindo biodiversidade e patrimônio.

"Se, por exemplo, destruirmos as florestas amazônicas do pé de monte, as que ficam contra a cordilheira andina, vamos destruir o acervo genético do cacau, da pupunha, de muitas frutas que estamos produzindo e consumindo. Quando formos buscá-las e elas estiverem queimadas, vamos ver que, economicamente falando, cometemos erros mortais", disse.

Sobre as causas desse desmatamento, Brigitte citou o crescimento da injustiça social, a apropriação indevida de terras e a produção de coca para o narcotráfico.

"O desmatamento na Colômbia, no Brasil, na Bolívia, no Peru, no Equador é criminoso, é feito com base na inequidade, na apropriação de terras e na corrupção", alertou. EFE

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