Pesquisador até 'fala' com onça

Paulista, Perer Crawshaw pensava em ser caçador, mas virou um dos maiores especialistas nos felinos

Giovana Girardi, de O Estado de S. Paulo,

01 Outubro 2008 | 20h28

Dizem que ele até se parece com onça, tamanha a familiaridade que tem com o animal, mas Peter Crawshaw só dá risada e desconversa, meio tímido, quando alguém faz a comparação. Na verdade ele até "fala" com as onças-pintadas, imitando a vocalização do animal tão bem que é capaz de assustar jacaré, uma de suas presas naturais.    Ouça trecho da entrevista   Provavelmente o especialista brasileiro que mais entende do animal, Crawshaw começou a se interessar pelo maior felino das Américas com um desejo meio avesso ao de conservacionista. "Quando eu era guri, no Rio Grande do Sul, adorava livros de caça, principalmente aqueles de Francisco de Barros Junior, como a série Caçando e Pescando por todo o Brasil. Eu sonhava com o dia em que caçaria a ‘minha’ onça", conta. Mas ele só pegava mesmo algumas aves e ratões do banhado - com a idéia de fazer um casaco para a mãe.   O salto de caçador para pesquisador pioneiro sobre o animal veio com a faculdade, quando ele foi estudar História Natural, que logo depois se tornaria Biologia, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).   No fim do curso, tomou conhecimento de que o biólogo alemão George Schaller, inventor da observação de feras na natureza, estava no Brasil procurando um lugar no Pantanal para estudar as onças. Crawshaw escreveu para Schaller se oferecendo como ajudante, mesmo achando que nem teria sua carta lida. Para sua surpresa, no entanto, foi convidado para participar dos estudos, fato que daria início a uma carreira de mais de 30 anos pesquisando onça.   A situação do animal na planície pantaneira um pouco antes de eles chegarem, no fim da década de 70, era dramática. Até 1974, as populações haviam diminuído muito, principalmente por causa de um longo ciclo de secas que permitiu a expansão do gado por toda parte. As onças passaram a atacar mais o gado - sendo, por conseqüência, muito mais caçadas. A extinção estava em progresso. Somente três regiões ainda tinham grandes populações.   Em 1977, quando Schaller e Crawshaw desembarcaram na fazenda onde iriam estudar os animais, a situação começava a mudar de novo por força da natureza. Uma cheia excepcional em 1974 havia alagado boa parte da região mais baixa, devastando as fazendas. Em um só município, Poconé (MT), dois terços do rebanho morreu afogado.   "Com o despovoamento de toda essa área central do Pantanal, e a ausência da caça, as onças puderam se recuperar, predando principalmente as capivaras e jacarés, que também aumentaram. Elas puderam voltar a ocupar áreas onde tinham sido localmente extintas, de modo que a recuperação das populações se deveu muito mais a isso e à lei de proibição à caça e à venda de pele que a projetos de conservação", explica.   Por conta disso, ele teme que, na próxima seca, a situação possa retroceder. "O risco não foi afastado. Apesar de a população ter aumentado, ainda hoje se mata muita onça, sim", diz. Seus estudos, no entanto, ajudaram a mudar um pouco a mentalidade dos fazendeiros. "Há 30 anos, quando cheguei lá, a regra era matar qualquer onça que passasse pela frente. Agora eles já dizem: não me incomodo com a onça desde que ela não me dê prejuízo."   Outra mudança é que muitos fazendeiros diversificaram, abrindo pousadas nas suas fazendas. "E muito turista vem ao Pantanal para ver onça-pintada, então os proprietários notaram que o dinheiro que ganham com o turismo compensa um eventual prejuízo pela predação."   Mas, há 30 anos, falar em proteger onça era assunto que causava olhares tortos de fazendeiros e empregados. Crawshaw conta que, na primeira fazenda onde eles se instalaram, os animais foram abatidos para forçar a saída deles do local. "O dono autorizou nossa estada, mas o administrador, que tinha interesse nas terras, não nos queria lá. Incitou todo mundo contra a gente. Quando vimos o que estava acontecendo, dois animais já tinham morrido."   Diante dos contratempos, Schaller decidiu trocar o campo de pesquisa e se mudou para a China, onde foi estudar pandas, deixando Crawshaw, então com 26 anos, sozinho para lidar com as onças. O animal, no entanto, era o menor dos problemas. Difícil foi trabalhar com o preconceito dos que duvidavam de sua capacidade de pegar a fera.   Mas o biólogo não só pegou como ajudou a desmitificar essa aura de ferocidade. "Descobrimos que, depois da primeira captura, muitas das nossas onças se tornaram até mais fáceis de capturar, dando a impressão de que elas já sabiam que não seriam machucadas." Seu trabalho também desvendou a personalidade oportunista do bicho. Ele notou que os felinos com acesso a presas naturais não matam o gado, mesmo convivendo diariamente com ele. Mas, uma vez que vêem como é fácil, aí se habituam a predar. A descoberta serve para pensar em formas de proteção que dificultem esse primeiro acesso. Com o gado protegido, a onça também estará.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.