ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Pegue uma flor na bike, na base da confiança

Cearense inova na venda de cactos e outras plantas em uma das esquinas da Oscar Freire

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Na esquina das Ruas Oscar Freire e a Padre João Manuel, tinha uma bike na calçada. Uma bike-floricultura, com vasinhos de cimento queimado servindo de casa para cactos e suculentas. Uma bike-floricultura ornada com cordéis de J. Borges. E, sem vendedor à vista, não era só bike-floricultura. Era também um convite à honestidade.

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Por uma plaquinha em meio às plantas, o interessado é instruído a ficar bem à vontade: escolha seu produto, faça o pagamento no local indicado (uma caixinha de dinheiro ou uma máquina de cartão) e siga o @matosurbanos no Instagram.

Israel Joaquim de Santana, cearense de 29 anos, acompanha tudo de longe, mas nem sempre. Inventou o projeto para complementar a renda que faz como manobrista de um escritório de arquitetura e uma galeria de arte na Rua Estados Unidos, nos Jardins, zona sul de São Paulo. Por isso, às vezes deixa a bike e as plantinhas sozinhas por horas.

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“Nunca ninguém me roubou”, conta aliviado, sem esconder que a hora de retorno é sempre um misto de tensão com confiança. “É um risco. Mas também a é um jeito de resgatar a confiança no povo brasileiro, que anda meio esquecida”, defende.

Medo maior, mesmo, ele tem de algum fiscal da Prefeitura passar e levar a bike embora, enquanto ele está de olho no carro dos outros ou longe da barraquinha. É que ele ainda não tem o Termo de Permissão de Uso.

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“Mas o que eu queria mesmo não é ter a autorização para ficar em um só lugar. Queria poder colocar a bike em qualquer lugar, deixá-la com acesso livre para todo mundo. Imagina que legal todo mundo conhecer? E até correr o risco de ser roubado também”, diz ele, sonhador.

“O legal é deixar assim. Nem quero ficar por perto para não cortar o barato do pessoal. A bike fica aí parada e as pessoas vão chegando, sem se intimidar”, complementa.

Tanta confiança vem também da necessidade. Ele trabalha o dia inteiro, não tem como dar atenção para a bike. “Não tenho como conciliar, como cuidar dos carros e do meu negócio, então deixei por si.”

‘Severino’

O Matos Urbanos é um projeto que nasceu aos poucos e ganhou o formato atual há cerca de três meses. “Sou um Severino da vida, né? Já fui pintor, eletricista, encanador, pedreiro. Fiz de tudo. Vi um vídeo no YouTube sobre vasinhos de cimento, aprendi um pouco sobre plantas e resolvi fazer isso.”

Quando dominou a técnica, sugeriu ao arquiteto Gui Mattos colocar os vasinhos em um espaço da casa onde é manobrista. Depois, eles passaram a ocupar uma goiabeira que fica na frente do local.

“Mas a situação estava difícil. Ganho R$ 1,4 mil, tenho 4 filhos. Mal dava para sustentá-los”, lembra. Ele então tomou coragem e pediu uma ajuda aos chefes para comprar o que ele planejava ser um “food bike”.

A ideia era que a mulher dele, Viviane, vendesse tapioca, mas não deu certo. “Ela vendeu por dois meses, mas sem a licença não dava para trabalhar. Resolvi então tirar os vasinhos da goiabeira, colocar na bike e comecei a circular à noite, ao sair do trabalho, pelas ruas dos Jardins.” Virou garden bike.

No Dia dos Namorados, deixou a bike na Oscar Freire. O público aprovou. Acabou chamando a atenção até do chef Alex Atala, que o convidou a deixar a bike no restaurante Dalva e Dito nos fins de semana. Durante o dia, deixa o negócio na frente do escritório. Mas, como está de férias este mês, tem a cada dia posto a barraquinha em um lugar diferente do bairro.

De vez em quando recebe umas propostas para levá-la para eventos em outros lugares. “Já me chamaram para ir para São Bernardo, Itaim. Mas como eu levo? Ainda não dá. O frete sai muito caro.”

Hoje ele deixa a bike com as plantinhas estacionada perto do trabalho à noite, mas sonha em crescer o negócio para ter mais bikes e um carreto para levá-las mais para longe. A produção vem crescendo com a ajuda da mulher, que virou artista e aprendeu a fazer as peças. “Faturando mesmo eu ainda não estou não. Mas a divulgação está excelente”, conta se divertindo. Já as tapiocas, por enquanto, ficaram reservadas para o café da manhã.

Nos rolos da vida, Israel também atende por Renato. A confusão vem da época em que ele, ainda adolescente e muito namorador, dizia um nome diferente para cada namorada. Um dia, uma das moças, que viria a se tornar mulher dele, apareceu grávida. “Aí não dava mais, né? E contei a verdade. Mas todo mundo já me chamava de Renato. Até eu já tinha me acostumado com o nome.”

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