Pecuária sustentável é mais lucrativa e presta serviços ambientais

Pecuária sustentável é mais lucrativa e presta serviços ambientais

Criação de gado para produção de carne e leite pode deixar de ser um vilão da natureza e ainda gerar mais dinheiro para produtor

Juliana Tiraboschi, Especial para o Estado

20 Setembro 2017 | 20h47

A pecuária é vista como um vilão do meio ambiente. Isso se deve ao desmatamento de florestas nativas para abertura de pastagens, às extensas áreas de plantação de grãos como a soja, que servem de alimento para o gado, e também às outras pegadas ecológicas da produção de carne e leite, como a emissão de metano produzido pelo processo digestivo do boi, que aumenta a emissão de gases de efeito estufa. Mas o processo pode e deve ser diferente, segundo Leonardo Rezende, produtor rural, pesquisador e sócio do projeto Pecuária Neutra.

Hoje 70% da área de pastagem no Brasil está em algum estágio de degradação. Em alguns casos, essas áreas já estão até em um processo inicial de desertificação. Essa degradação significa baixa produtividade para a propriedade. Segundo Rezende, esse é um dos motivos pelos quais a demanda ecológica pra produzir carne e leite no Brasil é elevada. “Em uma área onde poderiam caber 10 animais, hoje temos apenas um ou dois, diminuindo a eficiência da fazenda e aumentando sua pegada ecológica”, diz. De acordo com o produtor, a taxa de lotação média no Brasil é de 0,7 animais por hectare, apenas 30% da capacidade instalada. “Deveria estar em pelo menos 2 a 2,2 animais”, diz. 

Confira a entrevista:

“A forma como fizemos pecuária desde o período colonial foi apenas extrativista. Só retiramos recursos do meio ambiente e não devolvemos”, diz Rezende. Um dos problemas mais comuns é deixar o gado pastar livremente e não permitir que o capim se recupere. “Estamos sugando da terra mais do que deveríamos”, afirma o produtor rural. Uma pastagem mal manejada tem baixo metabolismo e vitalidade, o que permite a entrada de espécies invasoras, por exemplo. “É como um paciente com uma doença crônica que só vai piorando”, diz Rezende. 

Esse problema pode ser resolvido com técnicas simples. “Toda pastagem precisa de um intervalo mínimo de descanso, de 30 a 60 dias”, afirma o pesquisador. Assim, o produtor pode praticar o pastejo rotacionado, dividindo a área em blocos e liberando o gado para pastar em uma parte por vez, permitindo um período de descanso para o restante do capim e aplicando uma taxa de lotação de animais adequada. 

Em alguns casos é necessário partir para um processo mais elaborado, como a recuperação da pastagem, que demanda revolvimento do solo, incorporação de adubo e novo plantio de sementes. “Mas só vale a pena fazer a recuperação se o pecuarista já souber fazer manejo do pasto, senão pode voltar à situação anterior”, diz Rezende. Segundo o produtor, em uma pastagem sadia o boi atinge peso ideal para abate aos 24 meses; já em uma pastagem degradada, o processo leva o dobro do tempo. “Economicamente é muito ruim”, diz. 

Para o ecossistema, a degradação também é ruim. Quando a pastagem começa a perder cobertura de forragem o solo perde capacidade de reter água, iniciando um processo de erosão, além de diminuir a capacidade de conservar a microbiologia da terra. Além disso, uma área devastada retém menos carbono.

No processo de fotossíntese as plantas absorvem o gás carbônico (CO2) e liberam o oxigênio (O2), retendo o carbono (C). Esse carbono serve como nutrição para os vegetais, além de outras funções. Tanto a planta em si como a raiz abaixo do solo são biomassa, ou seja, carbono estocado. “Com um sistema radicular mais desenvolvido, mais carbono é estocado a cada ano”, diz Rezende. Quando a pastagem é degradada, o carbono é liberado pelas plantas, aumentando a emissão desse gás de efeito estufa.

Agricultura sintrópica. Um sistema de manejo de pastagem saudável, que permita que o capim se regenere e que a propriedade não perca sua cobertura vegetal, é uma forma mais sustentável de praticar a pecuária. 

Uma evolução disso seria a integração pecuária-floresta, ou sistema agroflorestal, que mescla a produção de animais com o plantio de árvores na propriedade, sistema que presta diversos serviços ambientais importantes e aumenta a lucratividade, já que a fazenda passa a ter mais um produto para comercializar, a madeira. Segundo o produtor rural Leonardo Rezende, a receita líquida média da pecuária tradicional no Brasil é de R$ 300 por hectare, da pecuária regenerativa é de R$ 700 e de sistemas mistos com pecuária e madeira é de R$ 1300. “Essa lucratividade é próxima do que alcançam as estrelas do agronegócio, como milho, soja e cana-de-açúcar” diz Rezende. 

Ou seja, a pecuária, “primo pobre” do agronegócio pela baixa lucratividade e pela degradação da terra, pode evoluir e mudar seu status econômico e também social. Afinal, um sistema que gera mais lucro oferece mais emprego e de melhor qualidade. 

Essa integração com a floresta também pode ser conhecida por outros nomes, como manejo holístico da pecuária, pecuária biodinâmica ou agricultura sintrópica, conceito desenvolvido pelo agricultor e pesquisador suíço Ernst Götsch, que vive no Brasil desde os anos 1980. 

“A monocultura chegou ao fim”, diz Rezende. Quer dizer, ela continua sendo praticada. Mas, para o pesquisador, quem pensa em produzir alimento de uma forma estratégica precisa perceber que, quanto mais monocultura, menor a biodiversidade. A integração entre árvores e pasto melhora o bem-estar animal, já que fornece sombra para o gado durante o período de pastagem, e também melhora o microclima. “Estamos vivendo uma época de aquecimento da temperatura e de extremos climáticos. As chuvas não são mais tão regulares, então é estratégico que se diminua a temperatura para termos menos evaporação de água do solo”, diz Rezende. Diminuir a evaporação significa recarregar o lençol freático, retendo mais água para abastecer as plantas.

Além disso, ter uma cobertura vegetal com diversas alturas – capim para pastagem, arbustos e árvores – imita uma paisagem natural, com bosque, sub-bosque e copa das árvores. “Óbvio que é um sistema mais pobre do que a floresta, mas é imensamente mais rico que apenas a pastagem”, diz Rezende. Nesse sistema, a matéria orgânica do solo é muito mais nutritiva, diminuindo a necessidade de uso de adubos, herbicidas e agrotóxicos na agricultura. 

Para o produtor rural, a produção de alimentos não é mais sustentável e vai ter que passar por uma transição obrigatória. “Metade do fósforo que usamos como adubo vai parar nos oceanos, contribuindo para a acidificação dele”, diz. O nitrogênio, aplicado como fertilizante, evapora em parte e contribui para a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. Tudo isso eleva a pegada ecológica da agricultura. 

Além disso, o sistema agroflorestal incrementa a microbiologia do solo. “Temos o dobro de vida abaixo do solo do que acima dele. Fungos, bactérias, organismos decompositores, quanto mais viva a terra, maior vai ser recarga de todo o sistema”, diz o produtor. A mata nativa, ou uma imitação dela, traz uma diversidade de fauna e flora. “Cada um desses componentes tem uma importância para o equilíbrio ambiental”, afirma Rezende.

O produtor rural é sócio da fazenda Triqueda, que pratica a integração pecuária-floresta e do projeto Pecuária Neutra, que desenvolveu uma plataforma capaz de aumentar a produtividade e o lucro líquido da fazenda e gerar mais de 20 serviços ambientais para a pecuária de corte e de leite, como a fixação de carbono no solo. O projeto também fornece os selos “Carne Neutra” e “Leite Neutro”, que atestam que o produtor neutralizou todo o metano produzido pelos animais.

Na Triqueda, as árvores são fonte de renda pela venda da madeira e ajudam a fixar carbono, neutralizando as emissões de metano dos animais. “Resgatamos três toneladas de CO2 por hectare, enquanto no mesmo espaço os animais emitem 2,6 toneladas, ou seja, estamos com superávit de compensação”, diz Rezende. 

Segundo o produtor, o consumidor tem um papel importante na cadeia, que é o de ler rótulos e investigar a origem do que compra. “O gado emite tanto gás de efeito estufa quanto todo o sistema de transporte no Brasil”, afirma o produtor. Essa realidade pode ser mudada melhorando a eficiência do processo, ou seja, produzindo mais por unidade de terra, e garantindo a fixação de carbono. “O consumidor tem que fomentar esse tipo de iniciativa, privilegiando os produtores sustentáveis e estimular os que ainda não chegaram lá a melhorarem seu produto e prestarem serviços ambientais”, diz.

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