Pecuária emite 50% do carbono do País

Elevar a produtividade, reduzindo a área ocupada e diminuindo o período de abate, pode minimizar emissões

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

14 Dezembro 2009 | 17h34

A pecuária é responsável por metade das emissões de gases do efeito estufa no Brasil, segundo um estudo divulgado ontem por pesquisadores brasileiros. Os resultados destacam o setor como o que mais contribui para o aquecimento global na economia do País e, consequentemente, como a peça mais importante em uma estratégia nacional de redução de emissões.

 

“Mais do que apontar um grande vilão, o estudo apresenta uma grande oportunidade”, disse ao uma das coordenadoras do trabalho, Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília.“É um prato cheio para reduzir emissões”, afirmou o diretor da organização Amigos da Terra, Roberto Smeraldi, também responsável pela pesquisa, que será apresentada amanhã na Conferência do Clima de Copenhague.

 

Segundo os cientistas, a pecuária emitiu cerca de 1 bilhão de toneladas de gases do efeito estufa (GEEs) em 2005. Isso equivale a metade das emissões totais do País naquele ano (2 bilhões de toneladas), segundo estimativas do pesquisador Carlos Cerri, da Universidade de São Paulo, ou um pouco menos da metade (2,2 bilhões de toneladas) segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia. A outra metade refere-se a emissões do setor energético, industrial, e de outras atividades do setor agropecuário.

 

O estudo leva em conta três grandes fontes de emissão relacionadas diretamente à pecuária: o desmatamento para abertura de pastagens (tanto no Cerrado quanto na Amazônia), as queimadas para manejo de pastagens e o metano exalado pela fermentação de biomassa no estômago dos animais. O fator que mais pesa no bolo é o desmatamento da Amazônia, responsável por 65% das emissões do setor em 2005.

 

A pesquisa também confirma a percepção de que a pecuária é responsável pela maior parte (75%) da área derrubada de floresta no bioma. “É algo que já se sabia qualitativamente, mas que agora temos os números para provar quantitativamente”, disse Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), terceiro coordenador do estudo. Outros sete cientistas ligados ao Inpe, Embrapa, Amigos da Terra e Universidade Federal de Goiás assinam o trabalho.

 

No caso do Cerrado, a abertura de pastagens foi responsável por 56% do desmatamento do bioma e 13% das emissões do setor em 2005. O cálculo considera apenas o carbono emitido imediatamente pela queima da vegetação superficial e das respectivas raízes. Não inclui outra grande fonte de emissão, que é a decomposição da matéria orgânica misturada ao solo – uma emissão lenta e gradual, mas que, com o tempo, pode chegar ao dobro do que é emitido pelo desmatamento. “No Cerrado, o maior estoque de carbono está no solo, não na vegetação”, explica Mercedes.

 

Os cálculos de emissão do solo, segundo ela, serão incluídos numa próxima versão do estudo. Também não foi contabilizado o carbono emitido pelo transporte de animais e por atividades industriais ligadas ao setor. A prioridade era divulgar os números principais em tempo para Copenhague.

 

O período total avaliado no estudo foi de 2003 a 2008. O pico de emissões da pecuária foi registrado nos três primeiros anos, quando o desmatamento da Amazônia estava em alta. De lá para cá, com a queda nas taxas anuais de desmate, as emissões do setor também caíram, chegando a 813 milhões de toneladas de GEEs em 2008.

 

O dado mais atual sobre as emissões totais do País é de 2005, por isso não é possível fazer uma comparação direta com os números do setor em 2008. “Seja como for, a pecuária certamente continua a ser uma fonte de emissão importante”, avalia Mercedes.

 

SOLUÇÕES

 

Os pesquisadores concluem o estudo com uma lista de recomendações para reduzir as emissões do setor sem prejudicar a produção de carne e leite do País. Ela inclui a melhoria da qualidade das pastagens, da genética e da alimentação animal, como formas de aumentar o número de cabeças por hectare, reduzir a área ocupada, elevar a produtividade e encurtar o período de abate. Todas as tecnologias para isso já existem, segundo os cientistas. Só falta colocá-las em prática.

 

"É uma situação de ganha-ganha”, diz Smeraldi. “A produtividade aumenta e as emissões, diminuem.” Da maneira como está, segundo ele, a média de emissão por quilo de carne produzida é de 300 quilos de carbono. A um preço médio de US$ 20 por tonelada de carbono, o “custo climático” de um bife pode ser o triplo do custo pago pelo consumidor no balcão do açougue. “Teoricamente, o pecuarista poderia ganhar mais com carbono do que carne.”

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