Philippe Wojazer/Reuters
Philippe Wojazer/Reuters

A Conferência de Paris e o destino da Terra

'Para se ter pelo menos uma chance de 50% de manter o limite de 2ºC, as emissões anuais de carbono precisam cair para 36 bi de t'

Peter Singer, Project Syndicate

12 Novembro 2015 | 09h48

PRINCETON - As vidas de bilhões de pessoas, nos próximos séculos, dependerão da reunião dos líderes mundiais e dos negociadores dos governos na Conferência sobre a Mudança Climática da Organização das Nações Unidas (ONU), a realizar-se em Paris no fim deste mês. Também estará na balança o destino de um número desconhecido de espécies vegetais e animais.

Na Cúpula da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992, 189 países, entre eles Estados Unidos, China, Índia e todos os países europeus, assinaram a Convenção Quadro da ONU sobre a Mudança Climática (UNFCCC, na sigla em inglês), concordando em estabilizar as emissões de gases que contribuem para a formação do efeito estufa "a um patamar suficientemente baixo de maneira a impedir perigosas interferências antropogênicas com o sistema climático".

No entanto, até o momento, não houve tal estabilização, e sem ela, os ciclos de feedback climáticos poderão intensificar ainda mais a elevação das temperaturas. Como há menos gelo no Ártico para refletir a luz solar, o oceano absorve mais calor. O degelo do permafrost siberiano liberará enormes quantidades de metano. Consequentemente, vastas áreas do nosso planeta, onde atualmente habitam bilhões de pessoas, poderão tornar-se inabitáveis.

As conferências anteriores dos signatários da UNFCCC buscavam chegar a um acordo legalmente vinculante a respeito dos gases do efeito estufa que hoje estão na atmosfera. A estratégia fracassou - em parte por causa da intransigência dos EUA, governados na época por George W. Bush - e foi abandonada quando a conferência de Copenhague de 2009 não produziu um tratado que substituísse o Protocolo de Kyoto (que os EUA jamais assinaram). Em vez disso, o Acordo de Copenhague simplesmente pediu promessas voluntárias de redução de quantidades específicas de emissões.

Tais promessas agora deveriam ter sido cumpridas por 154 países, entre eles os maiores do mundo, e não chegam ao que foi exigido na época. Para avaliar o fosso existente entre o que as promessas teriam de realizar e o que é exigido, precisamos voltar aos termos aceitos por todos no Rio.

A linguagem foi vaga em dois aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, o que significaria uma "perigosa interferência antropogênica no sistema climático"? E, em segundo lugar, que grau de segurança pressupõe o termo "prevenir"?

A primeira ambiguidade foi resolvida pela decisão de visar um nível de emissões que proibiria o aumento médio da temperatura na superfície de 2º Celsius acima do nível pré-industrial. Muitos cientistas consideram inclusive perigoso um aumento menor. Basta considerar que até com um aumento de apenas 0,8ºC, até o momento, o planeta experimentou altas temperaturas recordes, eventos meteorológicos mais extremos, e o derretimento substancial da calota de gelo da Groenlândia, que contém água suficiente para provocar um aumento do nível do mar de até sete metros. Em Copenhague, as promessas dos representantes de pequenos Estados-ilhas (algumas das quais cessarão de existir se os níveis do mar continuarem subindo) de que atingiriam uma meta de 1,5ºC passaram despercebidas, essencialmente porque os líderes mundiais acharam que as medidas exigidas para atingir esta meta eram politicamente irrealistas.

A segunda ambiguidade persiste. O Instituto de Pesquisa Grantham da London School of Economics analisou as propostas apresentadas por todos os 154 países e concluiu que mesmo que todas elas fossem implementadas, as emissões globais de carbono aumentariam do seu patamar atual de 50 bilhões de toneladas ao ano para 55-60 bilhões de toneladas até 2030. 

Mas, para se ter pelo menos uma chance de 50% de manter o limite de 2ºC, as emissões anuais de carbono precisam cair para 36 bilhões de toneladas.

Um relatório elaborado pelo Centro Nacional para a Restauração do Clima, da Austrália, não é menos alarmante. O patamar das emissões na atmosfera hoje já implica que temos 10% de chance de exceder os 2ºC, mesmo que parássemos de fazer novas emissões neste exato momento (o que não vai acontecer).

Imagine-se se uma empresa aérea cortasse consideravelmente seus gastos com manutenção a um patamar no qual houvesse 10% de chance de que seus aviões não concluíssem seus voos em segurança. A companhia não poderia alegar que tinha impedido as aeronaves perigosas de voar, e encontraria poucos clientes, mesmo que seus voos fossem muito mais baratos do que os de qualquer outra. Do mesmo modo, dada a escala das catástrofes que poderiam resultar de uma "perigosa interferência antropogênica com o sistema climático", não deveríamos aceitar 10% de possibilidades - se não possibilidades muito maiores - de exceder os 2ªC.

Qual seria a alternativa? Os países em desenvolvimento afirmarão que sua necessidade de energia barata a fim de tirar sua população da pobreza é maior do que a dos países ricos de manterem frequentemente seus níveis de desperdício em seu consumo de energia - e estarão certos. É por isso que os países ricos deveriam se preocupar em reduzir ao máximo seus níveis de emissão de carbono em suas economias o mais rapidamente possível, e até 2050 ao mais tardar. Poderiam começar fechando a forma mais poluente de produção de energia, as centrais movidas a carvão, e recusar a concessão de licenças para o funcionamento de novas minas de carvão.

Outra conquista rápida seria possível estimulando as pessoas a comer mais vegetais, talvez tributando a carne e usando os recursos para subsidiar alternativas mais sustentáveis. Segundo um relatório da Organização para a Alimentação e a Agricultura da ONU (FAO, na sigla em inglês), uma redução do consumo de carne vermelha e processada teria o benefício adicional a redução das mortes por câncer.

Estas propostas podem soar pouco realistas. Entretanto, tudo o que não chegue a isto constituirá um crime contra bilhões de pessoas, as que vivem atualmente e as que ainda nascerão, e contra todo o ambiente natural do nosso planeta. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

PETER SINGER É PROFESSOR DE BIOÉTICA DA PRINCETON UNIVERSITY E PROFESSOR LAUREADO DA UNIVERSIDADE DE MELBOURNE

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