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Para Sachs, construção de Copenhague foi mal conduzida

"Ecosocioeconomista" diz que há uma porta de saída para crise climátia, mas ela está se fechando

Entrevista com

José Guilherme Pereira Leite, Especial para o Estado

09 Dezembro 2009 | 16h01

Se as negociações da COP15 fracassarem no estabelecimento de metas concretas para as reduções dos GEE (Gases do Efeito Estufa), Copenhague terá servido para melhor consolidar a formação de uma opinião pública sobre os temas do meio ambiente, do desenvolvimento e do desafio climático. Essa é a opinião de Ignacy Sachs, 82, "ecosocioeconomista" pioneiro no cenário das reflexões sobre meio ambiente, economia e sociedade.

 

O eventual fracasso da conferência, na definição de "metas concretas e exequíveis" para todos os países, não deixa porém de preocupar o franco-polonês, que, em quatro décadas de envolvimento com a Nações Unidas, participou de todas as grandes conferências sobre o desafio socioambiental global, desde a célebre Conferência de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano, em 1972. "Não concordo com a ideia de que estamos perdidos se não acertarmos essas metas em dois meses", diz ele. "Mas temos que acertar essas metas, sim, com rapidez, porque a porta de saída para a crise climática existe, mas é estreita e está se fechando". 

 

O que esperar de Copenhague?

Não tenho elementos para grandes otimismos. Vivemos o perigo de repetir Kyoto e o que vem acontecendo com as reuniões de desarmamento, isto é, partirmos não de uma definição do que é preciso fazer, mas sim de uma sondagem sobre o quão longe cada país está disposto a ir. Isso é uma inversão.

 

De onde nasce essa inversão?

Não há dúvida de que, na medida em que ações corretivas para o clima e o meioambiente envolvem um ônus de investimentos pesados, envolvem pelo menos um avanço de capitais, que depois vão ser reembolsados, esse ônus deve repousar sobre os países mais industrializados. Porque a crise ambiental que estamos vivendo hoje não nasceu ontem. Ela é o resultado de um processo histórico que conhecemos. Daí tampouco resulta, entretanto, a idéia de que aqueles que não foram os protagonistas ganhadores nessa etapa anterior podem agora se omitir de tudo, como por exemplo a China às vezes tenta argumentar. A bela fórmula diplomática da "responsabilidade compartilhada porém diferenciada" é justa. Mas a discussão tem que ser feita em torno de objetivos mínimos, que devem ser atingidos num prazo de tempo acordado. Falta um documento-base. Para mim seria quase melhor postergar o encontro, sob a condição de chegarmos a um processo melhor construído.

 

Um adiamento, a essa altura, não seria impensável?

Sim. A questão é que pressa e pressão, nesse caso, não ajudam. Não concordo com a idéia de que estamos perdidos se não acertarmos essas metas em dois meses.

 

Por que não existe esse documento-base?

Muitas coisas. Muitas crises mundiais simultâneas. Temos uma crise financeira de grandes proporções. Temos uma crise ambiental. Temos uma crise social. Além disso, também temos uma crise do modelo sobre o qual está montada a nossa globalização, isto é, um modelo de relações assimétricas e de circulação mercantil indiscriminada. Por fim, temos o tema complexo da necessidade de uma reforma, um aggiornamento das Nações Unidas. Sou um partidário da ONU como instituição macro-reguladora, com todas as suas debilidades. E acho que não viveríamos sem ela. A ONU precisa porém de uma boa repensada.

 

Em seu mais recente livro, o senhor mostra bem como a ONU orientou durante décadas a internacionalização de uma agenda global para o desenvolvimento e o meioambiente. Esse protagonismo está se perdendo?

Assistimos à proliferação dos "G". Temos um "G20", um "G18". Teremos um "G2"? A ONU, ela mesma, é também um "G", um G192. A legimitidade internacional desses grupos se confunde demais, não temos clareza sobre isso.

 

O senhor participou da conferência de Estocolmo, a primeira conferência da ONU sobre meio-ambiente...

Estocolmo inscreveu a nova problemática do meioambiente na agenda das Nações Unidas, de forma clara e definitiva. Outra coisa importante é que essa inscrição deu-se em co-relação direta com o pensamento sobre o desenvolvimento sócio-econômico, e não como algo que corresse numa raia independente. Nós chegamos a Estocolmo com uma maneira de pensar trabalhada inclusive num encontro anterior, um seminário no Japão, em 1970, junto com a Exposição Universal de Osaka. Estocolmo também trouxe importantes inovações de organização.

 

Quais inovações foram essas? São inovações que nos faltam agora?

O processo de preparação para Estocolmo foi extremamente pluralista, conduzido por pessoas muito comprometidas e competentes. O processo foi amplo, e isso refletiu-se também na conferência. Algumas das grandes novidades, ali, estavam na maneira como ela foi organizada. No parlamento sueco estavam as delegações, com uma agenda típica de grande reunião das Nações Unidas. Fora, simultaneamente, houve porém uma série de eventos paralelos, de grande impacto. Estocolmo talvez tenha sido a primeira conferência internacional pensada em círculos concêntricos: o miolo foi dado aos diplomatas, houve ao redor disso uma grande abertura ao público e, num terceiro círculo, escapava o que não era controlado pelos organizadores. Foi talvez a primeira conferência da ONU pensada ou deliberadamente inserida num grande happening.

 

Esse modelo não foi também o da Rio 92?

A idéia dos círculos concêntricos foi ampliada e enriquecida no Rio. Se dependesse de mim, entretanto, muitas reuniões mais abertas, populares, deveriam ter acontecido pelo menos um ano antes, para que pudessem de fato influenciar as decisões efetivamente tomadas no recinto decisório. O problema, repito, é que, por um lado, avançamos entre 1972 e 1992, na aceitação de uma nova agenda, uma agenda ambiental que tem pontes importantes com a agenda social e que visa o crescimento. Por outro lado, para que pudéssemos e possamos transformar esse primeiro avanço numa série de políticas, seria necessário reforçar a capacidade dos Estados de intervir. Historicamente, entre 1992 e 2002, tivemos um retrocesso.

 

Retrocesso de que tipo?

Se você considera o contexto de Estocolmo, atravessávamos então um período de relativa prosperidade, de crescimento rápido, mas marcado por enormes estragos ambientais. A percepção dessa degradação se cristalizou com relativa rapidez e a ONU soube canalizar tudo isso, na conferência e com a criação do Pnuma. A Rio 92 já ocorreu na contramão da história. Estávamos, no auge da contra-reforma neoliberal, imersos num período de grande desprestígio da idéia de planejamento. Não se pode imaginar uma política ambiental, muito menos uma política ecosocioambiental, sem um Estado atuante. A regulação ambiental não bate com a idéia de um Estado mínimo.

 

E quanto aos interesses divergentes dos países? Não trazem dificuldades ainda maiores?

Isso é normal, é da política, é típico de todas as sociedades democráticas e plurais. A questão é reconhecer que, nesse caso, a somatória de todos os interesses particulares pode resultar numa tragédia coletiva. Considero importante, nesse sentido, a mudança de atitude brasileira e o fato de que o Brasil queira agora voluntariamente apresentar algumas metas e objetivos. Essa posição, além do mais, lhe dá maior cacife para criticar os que ficam com o "pé atrás".

 

O país tem a ganhar na transição mundial para outra matriz energética...

Sem dúvida. Se formos mesmo rumo à era das biocivilizações modernas, o trópico mudará de status. Estar nos trópicos, o que sempre foi visto como desvantagem, passará a ser uma vantagem comparativa para o desenvolvimento, desde que potencializada pela pesquisa e por uma apropriação socialmente adequada da produção. Essa transição, entretanto, pode ser benéfica para todos e todos os países, dependendo de como ela for feita. O período dominado pela matriz energética dos combustíveis fósseis pode ter sido apenas um curto intervalo na história humana.

 

Seu pessimismo em relação a Copenhague não se aplica ao quadro geral do problema. Por quê?

Estou muito longe do catastrofismo. A porta de saída para essas crises e dificuldades existe, está se fechando, é estreita, mas existe. Temos que botar o pé na porta, impedir que ela se feche e, depois, reabrí-la. Se a reunião fracassar, terá sido no mínimo útil para a consolidação maior de uma opinião pública internacional, em vários níveis. O que é preciso é ter em mente o desafio diante do qual estamos. Eu reuní uma série de artigos que escrevi para o Estado num livro que chamei de "O gato de Alice". Na novela de Carroll, Alice e seu gato caem no buraco e ela pergunta a ele: "por onde é a saída?". "Depende de para onde se quer ir", ele responde.

 

Por onde devemos ir, então?

Precisamos entender que o desafio é tríplice e complexo. Trata-se de definir como faremos a nossa saída ordenada da era do petróleo, chegando ao mesmo tempo a um modelo de desenvolvimento socialmente includente, ambientalmente sustentável e economicamente viável. Sem isso não se pode falar em desenvolvimento. O perigo do momento é, aliás, esquecer-se o social. Essa complexidade faz, paradoxalmente a beleza do presente. As novas gerações estão condenadas a continuar inventando.

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