WASHINGTON ALVES-ESTADAO
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‘Pandemia não acontece só com a gente. E isso é gerado, em parte, por ação humana’, diz pesquisador

Paulo Garcia, que estuda anfíbios no Parque Nacional de Itatiaia, explica que 'sumiço' de espécies pode estar relacionado à fragmentação ambiental, entre outros fatores

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2021 | 05h00

A localização de animais que ficaram muito tempo desaparecidos é mais comum do que pode parecer. A opinião é do pesquisador Paulo Garcia, que estuda anfíbios no Parque Nacional de Itatiaia, onde encontrou um exemplar da rãzinha-verrugosa-da-serra, que não era vista naquela área desde 1957. 

O sr. acaba de coordenar um estudo que localizou uma pequena rã que não era vista no Parque Nacional de Itatiaia desde 1957. Outros pesquisadores também anunciaram descobertas semelhantes. O que está acontecendo?

Olha, o que está ocorrendo, aqui no Brasil, com anfíbios, que a gente tem redescoberto algumas espécies, é basicamente duas coisas: primeiro, o que a gente chama de viés de pesquisa. Mesmo os pesquisadores mais experientes, sempre que a gente vai buscar informação, a gente vai no local onde a espécie foi encontrada. E o que acontece, em muitos casos, é que no local, por alguma razão, a espécie desapareceu. Mas isso não quer dizer que ela esteja desaparecida totalmente. Ela pode ter tido um declínio no local. O que falta, às vezes, é aumentar o viés de procura. Examinar áreas próximas, mas que não sejam aquelas originais. Então, o que ocorre, às vezes, é um erro amostral, do próprio pesquisador, que tende a buscar sempre no local da última vez que localizou o animal e não expande a área.

E o outro motivo?

A outra coisa é que eventualmente você conhece populações abundantes, mas acontece alguma coisa com eles, que entram em declínio, com redução de indivíduos. E não se encontra mais os animais. Mas essas populações podem retomar o crescimento e reaparecer. É o que chamamos de flutuação populacional. Isso é comum em várias espécies. Um ano mais seco, alterações do ambiente. Isso varia também no tempo, pode ser cinco anos, dez anos, 20 anos. E, de repente, a população começa a se recuperar e eles voltam. Isso é comum e natural acontecer.

O sr. está acompanhando algum projeto por agora?

Sim. É para essa espécie mesmo. A gente está com um projeto sendo construído para várias áreas. Estamos mapeando, com programas para áreas propícias, que terão planos para colocar equipamentos, como gravadores, câmeras, para monitorar. Porque também há o caso de você ir naquele período e o bicho não está ativo ali. Na natureza, é difícil ter precisão sobre quando vai encontrar.

É fundamental manter os hábitats, então?

Com certeza. E esse é o grande problema. Muitos desses declínios têm sido gerados por fragmentação ambiental, acesso de pessoas, aumento de caça, de doenças. Esta, inclusive, é uma das hipóteses do sumiço no Itatiaia. Um fungo que atacou anfíbios em todo o mundo é uma das hipóteses que estamos verificando para explicar o declínio ou extinção de espécies daquela área. São hipóteses. As pandemias não acontecem somente com a gente. E isso é gerado, em parte, por ação humana. Fazer ciência não é fácil. Há ainda problemas de falta de recursos para trabalho de campo. Muitas vezes as agências de fomento querem respostas mais rápidas. E não permitem monitoramento de longa duração.

O que está sendo feito agora?

Estamos entrando em contato com equipes que trabalham no parque, pessoal que trabalha com turismo de montanhas, das trilhas, para dar cursos e palestras mostrando a importância disso. Para que eles nos ajudem a monitorar e localizar. É uma forma de atrair a comunidade a participar também.

Isso funciona, é novidade, professor?

Na realidade, mais recentemente, o turismo de montanha, de trilhas, tem explodido no parque. Com ajuda dos parques, esse pessoal também nos ajuda. E a gente começou a juntar essas coisas. Eu mesmo vou para lá daqui duas semanas. E vamos conversar com donos dos sítios e fazendeiros da região. Eles já estão lá e podem nos ajudar a colocar os equipamentos, proteger os equipamentos, eventualmente trocar as baterias dos equipamentos. E eles vão participando. É importante a política de parques e também a comunidade local.

Quanto custa um estudo desses?

O custo é alto. Mas depende do que você quer exatamente. E do tempo do estudo. Tem alimentação, deslocamento, permanência do pesquisador no local, equipamentos. E os custos de análise, de laboratório. Hoje, com análise molecular, você consegue precisar a origem de cada indivíduo. Se pertence à mesma espécie de indivíduos de outra região, da Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais. Se existe ligação gênica entre os indivíduos de São Paulo com os de Itatiaia. Para saber se são da mesma espécie, se podemos colocar juntos para se reproduzir, para uma eventual repovoação da espécie. Então, o custo pode ir de R$ 10 mil a R$ 100 mil por ano. Mas o primeiro passo é identificar as áreas e tentar proteger esses ambientes. Para depois fazer os estudos.

Há recursos para esse tipo de pesquisa?

Sim. Há recursos. O meu primeiro projeto foi mantido por uma instituição estrangeira. Isso despertou interesses aqui no Estado. Agora temos um projeto submetido à Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) em avaliação. Se aprovado, teremos recursos para outra etapa da pesquisa. Há fundações que estão sendo criadas no País. Mas ainda é pouco para a iniciativa privada. Quase tudo é recurso de governo. O País precisaria ter mais participação das empresas, da iniciativa privada.

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