Felipe Rau/ Estadão
Maria Heloíza Saraiva, estudante de Eventos, começou a reciclar os resíduos de sua casa e influenciou diretamente outras seis pessoas a reduzir a produção de lixo. Felipe Rau/ Estadão

Pandemia muda hábitos de consumo e descarte do lixo

Prática do ambientalismo ganha fôlego novo e adeptos passam a reciclar mais os resíduos

Erika Motoda e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

Na quarentena, estamos repensando a vida. Refletimos sobre trabalho, relacionamentos e o consumo. Para muitas pessoas, essa reflexão está motivando hábitos mais positivos (ou menos negativos) nas outras pessoas, na economia e no planeta. A retomada verde não é um movimento apenas macroeconômico, mas também particular e individual, da soleira da porta de casa para dentro. 

Crises têm esse poder de mudança. Foi assim, por exemplo, na crise hídrica de São Paulo entre 2014 e 2016, que levou a uma mudança de comportamentos no consumo de água. Alguns viraram hábitos praticados até hoje. Chacoalhão. Esse foi o termo utilizado pela psicóloga e empreendedora Flavia Cunha, idealizadora do movimento Casa Causa e Lixo Zero, para resumir o efeito que ela espera dessa quarentena sobre as pessoas.  

Nesse contexto, o Estadão lançou a pergunta “O que você tem feito para ajudar o planeta?” em forma de desafio para os leitores no Tik Tok e Instagram. No #DesafioVerde, os seguidores do Estadão podem mandar vídeos com a hashtag da campanha mostrando boas ações pelo meio ambiente. Também é possível usar o áudio oficial da campanha e responder as 10 etapas do desafio marcando nos dedos aquilo que você já faz, como apagar as luzes dos cômodos vazios, preferir o transporte público ou bicicleta para me locomover, entre outros hábitos.

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Todo mundo parou para olhar como vive e como produz lixo nesses cinco meses. Isso pode gerar uma mudança positiva
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Flavia Cunha, Idealizadora do movimento Casa Causa e Lixo Zero

Esse chacoalhão é necessário. Passados dez anos da promulgação da lei que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em agosto de 2010, o Brasil avançou pouco nas ações previstas, principalmente quanto à geração de lixo. Em uma década, a produção de resíduos sólidos urbanos cresceu 11%, de 71,2 milhões de toneladas por ano em 2010 para 79 milhões de toneladas agora. Cada cidadão gera 380 quilos de lixo por ano, esse número também aumentou.  Os dados são da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), responsável pelo estudo Panorama dos Resíduos Sólidos, produzido há 15 anos.

Essa mudança é para ontem. Dados da ONU estimam que nosso modo linear de compra, consumo e descarte levará o mundo a um colapso até 2050. No Brasil, 6,3 milhões de toneladas de lixo continuam abandonadas no meio ambiente a cada ano. O foco não é apenas reciclagem dos resíduos. É mudar o nosso modo de consumir, reduzindo, reutilizando e reciclando.

A estudante de Eventos Maria Heloiza Saraiva, de 21 anos, traz essa discussão para nossa vida real. Em alguns meses, ela começou a reciclar os resíduos de sua casa e influenciou diretamente outras seis pessoas a reduzir a produção de lixo. O segredo são pequenas mudanças de hábito, que vão desde produzir a própria maionese em casa até trocar o absorvente descartável por um coletor menstrual. “Tento levar esse assunto para outros lugares, porque a gente aprende que o plástico é prejudicial ao meio ambiente, mas a gente não aprende a maneira de substituir. Não temos ideia de como gerar menos lixo.”

Tudo começou em janeiro, com a descoberta de um ponto de coleta do projeto Ecoenel a 10 minutos de distância a pé. “Achei que seria difícil reciclar porque moro com outras três pessoas,  mas todo mundo já estava engajado depois de dois meses. Comecei a comprar frutas e verduras em sacolão porque vinham sem isopor nem plástico. Fui optando por fazer maionese em casa ou dou preferência para produtos em pote de vidro.”

Com a pandemia do novo coronavírus, as atividades da Ecoenel foram suspensas. Para não parar seu projeto, ela conta com a colaboração do namorado, que busca os materiais para o recolhimento da Prefeitura. 

Quem já pratica o ambientalismo ganhou um fôlego novo. A engenheira civil Luana Garcia comprou uma composteira de madeira – normalmente elas são feitas de plástico – que vai ficar na sala de estar. O lugar mais comum é um cantinho da casa. Agora, o modelo em madeira com torneira de inox fica ao lado da TV, decorando o ambiente que já tem um rack feito com pallet e uma mesa de centro também de material reciclado. “A composteira não precisa ficar apenas no jardim, na varanda ou lavandeira. Ela vai também se encaixa em apartamentos pequenos. Ela pode ser um móvel na sala”, diz a empresária.

Composteira é uma caixa para reciclagem dos resíduos orgânicos. Ali, minhocas e microorganismos transformam restos de alimentos em adubo. Ela resolve o destino de uma parte expressiva do lixo que geramos. Apesar de ser um passo um pouquinho mais avançado, ele é simples, que não gera bichinhos (quando bem cuidada), precisa de um investimento só e dura bastante. As composteiras custam por volta de R$ 400

O professor Erick Schulz foi ainda mais longe. Literalmente. Ele se mudou para uma ecovila localizada em Piracaia, distante 92 km de São Paulo. A ideia é viver em comunidade, valorizando o comércio local e intensificando o que já fazia. “A pandemia acelerou nosso processo de vinda para cá. Tudo está mais próximo e é mais saudável. Sustentabilidade também é buscar o equilíbrio mental. O equilíbrio exterior começa com o interior, de dentro para fora também”, diz o especialista em medicina hindu.

Envolvimento dos catadores

Além de contribuir com a redução de resíduos, a mobilização em torno da reciclagem tem um efeito prático na sociedade: a possibilidade de emprego e renda para cerca de 2,1 mil catadores que atuam hoje em toda cidade de São Paulo, de acordo com a prefeitura.

Uma delas é a pensionista Ana Lucia Martins, de 69 anos. Hoje, a viúva mora em uma casa própria no Jardim Carolina, zona leste da capital paulista. Nos últimos 15 anos, ela coleta materiais recicláveis. “Eu ganhei uma camiseta com a frase 'eu tenho orgulho de ser catadora'. É isso o que eu sinto. Tudo o que eu consegui foi recolhendo materiais”, diz Ana Lucia.

Antes da pandemia, ela costumava arrecadar R$ 900 por mês recolhendo todo o tipo de material pelas ruas. Embora a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) estime que as medidas de quarentena e isolamento social tenham gerado aumento de 15% a 25% na quantidade lixo residencial, os catadores praticamente não têm para onde vender o que recolhem.

As cooperativas de reciclagem e as unidades de triagem estão fechadas pela pandemia. Com isso, Ana Lúcia passou a vender para uma empresa de reciclagem no Parque Jaraguá, também na zona leste. A renda caiu pela metade, mas ela acredita que as coisas vão melhorar. “Essa situação vai passar e tenho fé que as pessoas vão pensar mais nos outros."

No outro lado da cidade, a aposentada Maria Aparecida Rodrigues, de 66 anos, também está otimista. Ela mobilizou 82 casas no Grajaú, zona sul, em torno da reciclagem. Ela própria preparou cartilhas de conscientização e facilita a separação dos materiais, passando de casa em casa com seu carrinho de metal. “Eu gosto de contribuir com o meio ambiente. É um trabalho de formiguinha, mas faço minha parte”, diz.

 

 

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'A reforma tributária é uma boa oportunidade para a criação de um imposto sobre a poluição'

Especialista em Economia Ambiental aponta que é preciso alinhar os benefícios e custos individuais aos da sociedade

Entrevista com

Ariaster Chimeli, Professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária - USP

Érika Motoda e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

Para o professor Ariaster Chimeli, da FEA/USP,  se antes a conversa sobre a utilização de energia renovável e diminuição de impactos ambientais era mais filosófica, agora  há o amadurecimento de discussões que já vinham sendo desenvolvidas. Ao Estadão, ele diz ainda que é “bem tangível”  promover o desenvolvimento sem comprometer as gerações futuras.

O que é economia circular?

Existem conceitos que não são tão novos, mas ganham uma nova roupagem. O conceito de economia circular é baseado na ideia de utilização de energia renovável e na diminuição de impactos ambientais e no aumento de reciclagem. É fazer uma economia com menos impacto sobre os recursos naturais e sobre o meio ambiente. Isso não é muito diferente do que se fala há bastante tempo. Antes, a conversa era mais filosófica. A ideia da economia circular é o amadurecimento de discussões que já vinham sendo desenvolvidas.

Quais as diferenças entre economia circular e sustentabilidade?

Nas aulas de Economia do Meio Ambiente, eu evito o termo “sustentabilidade”. Nós entendemos o conceito – promover o desenvolvimento sem comprometer o desenvolvimento de gerações futuras -, mas faltam atividades operacionais para responder, por exemplo, a perguntas como “O que eu faço hoje?” Nesse sentido, a economia circular traz uma visão mais pragmática, operacional e objetiva. Ele impõe metas, métricas e questões práticas como diminuição do uso de energia não renovável, por exemplo. Isso é bem tangível.

Como esse conceito está presente na casa das pessoas sob a perspectiva individual?

Quando tomo decisões, eu peso os benefícios e os custos. No caso da poluição, pensamos nessas questões na hora de comprar uma garrafa de água, por exemplo. Mas não internalizamos o custo para outras pessoas. Ela vai parar no oceano ou no aterro sanitário e vai demorar muitos anos para desaparecer. Isso não entra na conta. Por isso, não pensamos duas vezes em comprar. Para modificar esse comportamento, é preciso alinhar os benefícios e custos do indivíduo aos da sociedade. Como? Uma receita clássica é colocar um preço maior, como um imposto. Se ela ficar mais cara que outro recipiente, as pessoas podem migrar para outra coisa. A ideia é alinhar o que é bom ou ruim para o indivíduo e aquilo que é bom ou ruim para a sociedade. Essa é a base para o imposto sobre poluição ou imposto verde. É entender que a gente polui porque é de graça. Se a gente aumentar o preço de poluir, a gente vai pensar duas vezes.

O custo de poluir acaba sendo incorporado ao produto?

Eu consumo minha garrafa d'água e jogo no lixo. Existe um custo que é externo ao indivíduo que tomou a decisão. Esse é o termo “externalidade”. Meu carro contribui para a poluição da cidade, existe um custo associado ao consumo do meu carro que será pago por mim e por quem tem doenças respiratórias. Se colocar esse custo na gasolina, ela começa a ficar menos atraente. O imposto tenta trazer para a esfera individual essa externalidade. Essa foi a primeira receita clássica de tentar alinhar o que é bom para o indivíduo ao interesse da sociedade. Mas não podemos esquecer a desigualdade social que existe no País. Esse retorno dos custos deve ser feito de forma diferenciada.

Existem outras formas de alinhar os interesses do indivíduo e da sociedade na questão ambiental?

Existe outra receita que se refere ao mercado. O direito de propriedade não está bem definido. Quando eu compro uma caneta, eu troco o direito de propriedade do dono da loja para o comprador.  Nas questões ambientais, o direito de propriedade não está bem definido. De quem é o ar puro ou a água limpa? É de todo mundo, mas também não é de ninguém. Esse economista teve um insight de dizer que esse mercado não vai funcionar se o direito de propriedade não estiver bem definido. Essa é a base dos créditos de carbono. Quando você compra crédito de carbono, você está comprando o direito de poluir. Essa é outra forma de alinhar o que é bom para o indivíduo e o que é bom para a sociedade.

Mas existe uma rejeição intensa à criação de impostos...

Sim. É muito difícil imposto novo. Existe uma rejeição muito grande. Temos poucas experiências de imposto sobre poluição no mundo. Um imposto na folha de pagamento desestimula a contratação. Por outro lado, o governo precisa da arrecadação. A pergunta é "como repor isso?". Impostos sobre a poluição não vão resolver todo o problema, mas ajudam a contrabalançar a receita e contribuem para uma economia mais limpa. Teríamos um ganho para a sociedade, em termos de bem-estar, mas também teremos menos pessoas com problemas respiratórios, melhorando a produtividade de algumas empresas. Não estamos pensando muito estrategicamente no nosso ambiente. É importante alinhar o incentivo da empresa, do indivíduo, do consumidor com a sociedade. Estamos perdendo uma grande oportunidade de introduzir um tipo de imposto sobre poluição.

E as medidas de redução da poluição, por exemplo?

Essas políticas de comando e controle dependem de fiscalização e têm problemas de eficiência. Uma lei indica que você tem de cortar a poluição usando a melhor prática do mercado. Eu instalo um filtro na minha fábrica, corto 70% e estou de acordo com a lei. E os outros 30%? Não existe nenhum incentivo para eu reduzir ainda mais a poluição. Quando eu tenho uma poluição que me coloca um custo, como imposto de poluição, eu estarei sempre querendo minimizá-lo. Falta isso: incentivar o indivíduo – como consumidor ou produtor – a internalizar o dano que ele impõem à sociedade quando ela consome ou produz.

Qual é o impacto da pandemia na economia circular?

Essa é a pergunta que o mundo está fazendo. A resposta não é óbvia. Temos o céu mais limpo nas cidades. Temos indicadores diretos de diminuição da poluição do ar em várias cidades do mundo, assim como queda dos acidentes de trânsito. Isso é positivo e tem relação com a forma como consumimos. Mas temos um custo altíssimo para isso, como o contingente enorme de desempregados. Na Europa, alguns países sinalizam que pensam em forma de forma diferente, com maior espaço para a bioeconomia, com mais investimentos em atividades mais sustentáveis e mais limpas. No Brasil, temos a desigualdade de renda. Vamos adotar esse comportamento ou voltar ao piloto automático? Isso não está claro. Algumas coisas vão mudar, como a adoção do home office. Isso tem impacto na poluição. Mas a escala em que isso vai acontecer é uma grande incógnita. Outra dúvida se refere à resposta do poder público. Vamos incentivar economia mais limpa, com investimento em infraestrutura, ciência e tecnologia e mudança da carga tributária. Isso também não está claro.

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'É perverso colocar o consumidor como potência da mudança ambiental'

Diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur destaca importância do conceito de economia circular

Entrevista com

Luísa Santiago, diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur na América Latina

Érika Motoda e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

Luísa Santiago, diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur na América Latina, defende o conceito de economia circular, que se baseia em eliminar a noção de resíduo e poluição, manter materiais em uso e regenerar sistemas vivos. Nesta entrevista ao Estadão, ela aponta Colômbia e Chile como países que têm boas práticas em termos de políticas públicas na América Latina. No Brasil, diz Luísa, é preciso fomentar cadeias produtivas locais com produtos para se manterem na economia, e não descartáveis. A Fundação Ellen MacArthur trabalha com empresas e governos para acelerar processos de uma economia circular.

Como você definiria economia circular e quais países têm as melhores práticas?

A lógica de uma economia circular congrega a ideia de geração de valor econômico com um ambiente saudável e benefícios para a sociedade e empresas. Ela se baseia em três princípios: eliminar a noção de resíduo e poluição, manter materiais em uso e regenerar sistemas vivos. Difere-se radicalmente de como a economia funciona hoje, de maneira linear, em que você extrai recursos da natureza, consome e descarta.

Em termos de países que têm boas práticas em termos de políticas públicas, na América Latina, você tem a Colômbia e o Chile como expoentes. A Colômbia foi o primeiro a lançar uma estratégia nacional para economia circular, que significa olhar a nova onda de prosperidade no país não mais olhando para o extrativismo, como sempre foi na economia latino-americana, mas sim olhar o valor das riquezas naturais que existem na região. É um ponto de partida diferente da Europa, que tem recursos escassos e pouco espaço. O Chile está desenvolvendo uma estratégia de economia circular.

O que o Brasil precisa fazer?

O Brasil, assim como a América Latina, entrou no processo de industrialização tardia e também tem essa visão extrativista linear. Nas últimas décadas, ao PIB do País se baseou amplamente em extração de recursos minerais e também uma agricultura extrativista, ou seja, que extrai recurso do solo em vez de usar a produção alimentar para regeneração constante do solo. É uma agricultura monocultora, de larga escala, exportadora, que não produz alimento. É um país que se baseia em uma mentalidade extremamente linear para gerar riqueza. No boom das commodities, o Brasil extraiu mais e mais minérios para mandar para a China poder produzir e depois comprarmos os produtos deles. Isso funcionou muito a curto prazo, mas logo na primeira década deste século já se mostrou ineficaz para funcionar no longo prazo.

Para o Brasil ter um protagonismo, precisamos olhar para os nossos recursos de forma a agregar valor. Como eu posso olhar para uma bioeconomia de forma a regenerar sistemas? Como olhar para a agricultura de forma a gerar alimentos e regenerar o solo, e não de forma que demande cada vez mais insumos para a agricultura. Quando a gente olha para o ciclo técnico, com recursos finitos, você olha para o ciclo produtivo muito mais localizado. Incentivar não só que o Brasil extraia os seus recursos naturais, bote em um navio e envie para outro país, mas sim fomentar cadeias produtivas locais de maneira a pensar o design de produtos para se manterem na economia, e não descartáveis. Pensar em remanufatura, e não só reciclagem. Demandar menos extração de materiais.

Com a queda do consumo individual, as empresas terão queda em suas receitas? O que mostra a experiência internacional?

Na economia linear, você precisa de um ser humano consumindo a todo momento. Mas isso não vai funcionar por muito tempo, porque, ao descartar, a gente descarta também muito dinheiro. As empresas perdem muito. Por exemplo, uma empresa que produz um cosmético ou um produto de limpeza está vendendo para o consumidor uma embalagem com o cosmético ou com o produto de limpeza. A embalagem não é o que o consumidor quer, ele joga aquilo fora. Agora, quando você pensa em uma economia circular, você tira o consumidor do papel de consumidor e o coloca no papel de usuário.

Quando você prolonga o material em uso, as empresas mantêm o valor daquele material e o usuário deixa de perder o valor do material, porque ele passa a usar o material quando é interessante para ele. A Philips, por exemplo, está vendendo estações de luz em vez de vender lâmpadas; a Coca-Cola criou as garrafas universais que se baseiam na ideia de retornabilidade. O consumidor vai pagar menos ao comprar a bebida retornável, em vez de comprar uma embalagem com a bebida e jogar fora.

Qual é o papel do governo nas mudanças?

A construção de uma economia circular é uma mudança sistêmica. É preciso o envolvimento de governos, empresas, academia. É a ideia de transdisciplinaridade, porque políticas de governo dessa lógica não vão sair necessariamente do Ministério do Meio Ambiente. Em geral, os países que estão fazendo transições robustas estão partindo do Ministério da Economia. Ele não morre dentro de um organismo, é uma política interministerial. As regras do jogo para a nova economia precisa construir conjuntamente.

Muitas vezes, a máxima do discurso ambientalista colocou no consumidor a potência da mudança. Mas isso é muito perverso. Na realidade, o consumidor ocupou esse papel a partir da organização do sistema industrial. Para a construção de um sistema em que ele possa ser um usuário de produtos e serviços, ele vai participar de novas estratégias, mas as indústrias vão ser os protagonistas na mudança, porque foram elas que criaram a economia linear.

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Guia para uma vida sustentável

Para virar a chave, não é necessário jogar nada fora: reutilize o que for possível!

Érika Motoda e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

Calma, você não precisa jogar fora seus potinhos plásticos. Essa é a primeira regra: não jogue nada fora! Virar a chave não significa trocar tudo o que já tem em casa. A economia circular e a economia doméstica são irmãs. Por isso, reutilize tudo o que for possível! O copo de plástico do liquidificador que trincou pode virar um vaso, por exemplo. Outra dica é repensar o consumo: preciso de tudo isso? Essa pergunta simples começa a contribuir com a diminuição da produção de resíduos. Numa ida ao supermercado, por exemplo, não são necessárias várias sacolinhas de plástico. Basta levar a sua própria. A retomada verde de cada dia começa por aí...

Os hábitos sustentáveis são simples e devem ser adotados aos poucos, um pouquinho de cada vez, sem estresse ou ansiedade. É o que receitam as pessoas que incorporaram as práticas ambientalistas há décadas. “Não adianta pensar no todo, que é um desafio muito grande. É mais fácil fazer pequenas coisas que, na verdade, representam uma grande contribuição”, diz a empresária norte-americana Lori Ann Vargas, que vive há 12 anos no Brasil.

Criada em uma fazenda no interior de Nova Iorque, a empresária de 45 anos aprendeu desde criança a ter um contato estreito com a natureza. Quase toda a alimentação era feita em casa, respeitando a época das frutas. Hoje, ela faz suas próprias massas em casa, transforma restos de alimentos em produtos de limpeza e fez sua visão de mundo seu próprio negócio. Lori é uma das sócias da loja Mappei – uma vida sem plástico, especializada em produtos com baixo impacto ambiental. Em 18 meses, ela se orgulha de ter impedido o descarte de quase oito mil embalagens de xampu, por exemplo.

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É mais fácil fazer pequenas coisas que, na verdade, representam uma grande contribuição 
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Lori Ann Vargas, Empresária

Existem oportunidades em cada canto da casa. Coisas simples, sem revolução. Primeiro, o banheiro. Já parou para pensar quantas embalagens plásticas de xampu e condicionador a gente joga fora? As opções sólidas, sem plástico, tendem a durar mais do que as líquidas. Na cozinha, o desafio é evitar o lixo. Com a quarentena está mais fácil fazer as refeições em casa e controlar os resíduos (os lanches comprados na rua tendem a vir com muito plástico e, às vezes, até isopor).

Na hora de trocar as esponjas para lavar louça, seria bom pensar em opções sem plástico, como bucha vegetal, por exemplo. Escovas de piaçava para o banheiro, vassouras de fibras naturais, panos de prato e de chão em algodão seguem o mesmo princípio.

Como já deu para perceber, cada cômodo da casa traz uma chance de fazer algo diferente em relação à economia circular. Até no quarto, dentro do guarda-roupa. Thalita Skarsgard, de 23 anos, postou uma divagação em sua conta no Twitter. “Pensando em consumo consciente e me questionando por que nunca comprei em brechó.” Ela pretende mudar isso em breve. “Além de ter um custo-benefício melhor, porque a gente consegue comprar peças de marcas boas, é bom pela questão do meio ambiente, porque é como se a gente estivesse reciclando as roupas, trocando o guarda-roupa de forma mais consciente.”

E, se não der para evitar... Reutilize! Garrafas de vidro (as de tampas rosqueáveis, como as de sucos e vinhos, são ótimas para isso), potes de vidro (como os de conservas) e potes de plástico (sorvete, requeijão, manteiga) são bastante versáteis em casa: dá para guardar tempero, chás ou podem ser utilizados como vaso. Sempre pense se realmente não dá para reutilizar algo antes de jogar no lixo...

O que fazer com o lixo?

Um dos passos mais importantes para virar a chave envolve a relação com o lixo. Essa mistura de resíduos recicláveis, compostáveis e rejeitos entope bueiros, gera alagamentos e enchentes, transmite doenças e contamina os solos. Passados dez anos da promulgação da lei que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), em agosto de 2010, o Brasil avançou pouco nas ações previstas, principalmente quanto à geração de lixo. Em uma década, o País viu a produção de resíduos sólidos urbanos crescer 11%, passando de 71,2 milhões de toneladas por ano em 2010 para 79 milhões de toneladas agora.

Individualmente, os cidadãos geraram cerca de 1,6% mais lixo: antes, eram 373 quilos anualmente por indivíduo e agora são 380 quilos. Esse incremento também veio acompanhado de leve aumento na cobertura de coleta, que foi de 89% para 92% em todo o País. “Não existe jogar fora. Não existe 'fora'. O que descartamos permanece no planeta”, diz a psicóloga e empreendedora Flavia Cunha, idealizadora do movimento Casa Causa e Lixo Zero.

Hoje, 6,3 milhões de toneladas de lixo continuam abandonadas no meio ambiente a cada ano. Mas é possível gerar menos lixo ou descartar corretamente aquele que não pode ser evitado. Aqui, vale a regra dos 5Rs: repense, recuse, reduza, recicle e reuse. No Brasil, os resíduos são caracterizados da seguinte forma:

a) Compostáveis ou orgânicos: voltam para a natureza como adubo após o processo de compostagem. São cascas de frutas e verduras, cascas de ovos, guardanapos, saquinhos de chá, restos de comida, carnes, laticínios, borra de café com filtro, palitos de madeira, podas de plantas. 

b) Recicláveis: serão aproveitados na fabricação de novos produtos após a coleta seletiva. São vidro e plástico, papel e papelão, isopor, latas e metais, embalagens de alimentos.

c) Rejeitos: tudo o que não tem jeito mesmo e vai para o aterro sanitário. São tecidos, fraldas, lenços descartáveis, adesivos, papel higiênico, fitas adesivas, chicletes, papel filme e papel higiênico, fio dental e absorventes, fraldas descartáveis. Há itens que não podem ser descartados no lixo comum. É o caso do óleo de cozinha, remédios, pilhas, baterias e colchão com espuma de poliuretano. Existem componentes nesses produtos que podem poluir ainda mais o meio ambiente. O ideal é contatar o fabricante ou entidades específicas para o descarte correto. É a chamada logística reversa!

 

Seis dicas uma retomada verde na sua vida

Veja algumas dicas do Instituto Akatu, organização que trabalha pela conscientização e mobilização da sociedade para o consumo consciente e a transição para estilos sustentáveis de vida:

1. Economize!

Saiba a procedência do que você compra e tente revezar ou substituir por uma versão mais sustentável. A produção de um quilo de carne vermelha, por exemplo, gasta 15 mil litros de água; já a de um quilo de carne de frango, 4,5 mil litros. Roupas também consomem muitos recursos durante a produção. São necessários 10,8 mil litros de água para uma calça jeans, e a produção de uma camiseta emite 1,4 quilos de gás de efeito estufa.

2. Conserte!

Em vez de descartar itens duráveis, veja se não é possível fazer reparos. No caso de eletrônicos e eletrodomésticos, o melhor é buscar peças originais ou de boa qualidade, além de estabelecimentos autorizados. Já no caso de peças de vestuário e móveis, procure profissionais autônomos como costureiras, marceneiros, sapateiros, etc.

3. Reaproveite!

O ciclo de uma máquina de lavar consome, em média, 96 litros de água. Direcione o cano de despejo da máquina para um balde, em vez do ralo, para reaproveitar a água na descarga.

4. Olha a água!

Se não conseguir descongelar um alimento naturalmente, utilize uma bacia com água, em vez de água corrente. Ao lavar a louça, retire o excesso de alimentos dos pratos com os talheres. Use água somente para tirar o detergente. O mesmo vale na hora de escovar os dentes.

5. Menos energia

Tirar os equipamentos da tomada ajuda a economizar energia. Por mais que uma TV não esteja funcionando, se ela estiver no modo stand-by, o aparelho está consumindo energia. Produtos concentrados, como amaciantes e sabonetes, costumam render o mesmo que produtos diluídos, mas demandam menos energia e matéria-prima para serem embalados.

6. Compras locais

Incentivar a produção local favorece economicamente o desenvolvimento da região, reduz os impactos ambientais associados às emissões de gases no transporte e armazenamento dos produtos. 

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Quanto custa ser ecológico?

Estadão traz pesquisa com comparação entre produtos ecológicos e versões com maior impacto ambiental

Érika Motoda e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

Os produtos ecológicos costumam ser um pouco mais caros ou difíceis de encontrar, quando comparados com suas versões com maior impacto ambiental. Os profissionais das lojas especializadas, no entanto, citam maior durabilidade e longa vida útil, além da possibilidade de compostagem (transformação em adubo) e a ausência de plástico na composição. Com isso, a compra dos itens ecológicos vale a pena a médio e longo prazo em relação aos outros produtos. Em países em desenvolvimento, como o Brasil, também vale apostar nas soluções mais simples, como a volta das embalagens retornáveis de bebidas ou venda a granel de produtos de limpeza.

Para quem quer fazer a comparação da relação custo x benefício, o Estadão fez uma pesquisa entre os dias 12 e 13 de agosto nos sites das principais varejistas e marketplace e também consultou lojas especializadas. São eles: Amazon, Magazine Luiza, Submarino, Extra, Pão de Açúcar, Carrefour, Drogaria São Paulo e Drogasil

Cotonete

Apenas o site do Carrefour tinha cotonetes ecológicos, cujas hastes são feitas de madeira, disponíveis para compra. A caixa com 75 cotonetes da marca própria estava a R$ 2,55. A outra opção era o pacote com 100 unidades, vendido e entregue pela Ekological, a R$ 28,99. Base de comparação: cotonetes feitos com plástico costumam custar entre R$ 3,79 e R$ 17,29, dependendo do tamanho do pacote, e estavam disponíveis em todas as lojas virtuais. 

Escova de dente

Amazon, Submarino, Drogasil, Carrefour e Extra têm no seu portfólio escovas de dente feitas com bambu. A unidade mais barata foi encontrada no Submarino por R$ 15, e a mais cara, também no Submarino, por R$ 28,90.  Na Mappei – uma vida sem plástico, especializada em produtos com baixo impacto ambiental, uma escova custa R$ 23. Base de comparação: escovas de dente feitas com plástico podem ser encontradas a partir de R$ 5. 

Talher descartável para festa

Na Amazon, um conjunto de 8 talheres de madeira podia ser importado por R$ 43,85. Base de comparação: Um pacote com 50 unidades de talheres de plástico custa a partir de R$ 4,50. 

Caneta

Somente o Submarino disponibilizava uma unidade avulsa de caneta feita com papelão a R$ 4,72. Na Amazon, Carrefour e Extra, era necessário comprar de R$ 11,70 com caderneta e a caneta. Base de comparação: uma caneta esferográfica cuja base é feita de plástico pode ser encontrada a menos de R$ 1.

Escova para louça

No Submarino, uma escova de tampico e coco para lavar louças estava disponível a R$ 82. Base de comparação: Uma escova para louças comum custa a partir de R$ 16,99

Esponja para banho 

Embora menos abundantes no mercado, as buchas vegetais têm um preço que praticamente se iguala com os seus pares menos ecologicamente corretos. O item com o preço mais baixo foi encontrado na Amazon, a R$ 3,80. Na Mappei, uma bucha vegetal custa R$ 6.

Pente de cabelo

Os pentes de madeira para cabelo também têm um preço competitivo em relação aos seus pares feitos com plástico. O mais barato foi encontrado no Magazine Luiza a R$ 6,79

Barbeador

Na Amazon, um barbeador de aço inoxidável ecológico pode ser importado por R$ 129,75. Base de comparação: Um kit com dois aparelhos de barbear descartáveis, feitos de materiais comuns, podem ser encontrados a partir de R$ 5,32.    

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A casa sustentável

O cômodo, feito em madeira, todo parafusado, pode ser desmontado e montado em outro local, pois utiliza componentes modulares e pré-fabricados

Érika Motoda e Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2020 | 05h00

A casa circular é um edifício baseado no design Cradle to Cradle (C2C em inglês, que quer dizer “do berço ao berço”). Os recursos seguem uma lógica circular de criaçãoreutilização, em que cada passagem de ciclo se torna um novo “berço” para determinado material. É o contrário da  expressão “do berço ao túmulo”, que descreve o processo de extração, produção e descarte dos produtos. A base da economia circular é pensar os dois ciclos. No ciclo biológico, os materiais orgânicos vêm da terra e voltam para ela. No ciclo técnico, os materiais não renováveis, como metais e plásticos, devem circular indefinidamente. 

O protótipo é um ateliê de 30 m² montado em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. A pergunta principal que orientou o projeto foi: e depois? Ele foi construído com materiais que podem ser reaproveitados nos próximos ciclos de uso, seja em construções (montagem e desmontagem), em ampliações ou reduções ou transformados em novos produtos. Foram três meses de desenho e planejamento, 15 de pré-produção da construção e 10 dias de montagem in-loco. Não houve produção de lixo e, portanto, não foram usadas caçambas para entulhos. 

O cômodo, feito em madeira, todo parafusado, pode ser desmontado e montado em outro local, pois utiliza componentes modulares e pré-fabricados. Outra preocupação dos donos do projeto foi a origem dos materiais – descobrir onde e como foi extraída a madeira – e a composição dos materiais. Saber da composição química é importante para conhecer o grau de toxicidade de cada material. 

O aproveitamento da iluminação natural e do ar fresco são pontos fortes do projeto. Portas, janelas  e tubos de luz no teto proporcionam luz indireta e também funcionam como um sistema de chaminé para o ar quente subir pela construção. Isso cria uma espécie de ar condicionado natural. A luz artificial só é usada à noite. A água que abastece o ateliê é captada pela chuva. Os efluentes são tratados por um sistema chamado de círculo de bananeira. A própria planta filtra novamente a água, que pode retornar de forma segura ao sistema. A fundação da casa foi feita com pneus usados e brita. 

O protótipo da casa circular foi criado pelas arquitetas Léa Gejer e Katia Sartorelli Veríssimo dos escritórios Flock design arquitetura e cidades + Okna arquitetura. “A casa é uma maneira para a gente começar a discutir como a gente pode construir melhor e como habitar o planeta.

É uma proposta para trocar a forma convencional de construir, com tijolo, cimento e geração de resíduos, para um formato circular e inteligente”, explica Léa Gejer, uma das fundadoras do movimento Ideia Circular, iniciativa de educação e comunicação sobre design circular e economia circular no Brasil. Mais do que gerenciamento de resíduos, o foco é em otimizar materiais, produtos e sistemas, buscando reduzir – e até acabar – com o lixo. 

Uma casa tradicional em Pinheiros, bairro de classe média alta de São Paulo, custa em média de R$ 3,5 mil o metro quadrado. Para uma casa circular, o morador vai gastar entre 15% a 30% a mais de acordo com as tecnologias utilizadas. Por outro lado, os arquitetos argumentam que os materiais se pagam no decorrer dos anos.

No caso dos paineis fotovoltaicos, usados para captação da energia solar, por exemplo, o alto investimento no início, de R$ 5 mil a R$ 15 mil aproximadamente de acordo com valores do mercado, tem retorno com a economia da conta de luz ao longo dos anos. 

Agnaldo Solato, diretor da Franquia Solar Prime em São Paulo, explica que, quanto mais alta a tarifa, menor o tempo de retorno do investimento. “Os projetos são individuais, pois variam de acordo com a tarifa de energia, localização e posicionamento em relação ao sol. O custo, com a documentação técnica e aprovação do projeto nas distribuidoras, muda de acordo com o projeto”, explica. “Nós tentamos fazer com que o retorno fique entre 3 e 4 anos”, avalia.

O mesmo raciocínio se aplica à construção de cisternas, reservatórios para captação da água da chuva e armazenamento para uso doméstico geral. No ateliê, a cisterna, feita de modo quase artesanal custou em média R$ 2 mil. “Esse é meu projeto predileto. Eu vejo diversas vantagens. Uma delas é a economia a médio prazo por conta da inovação, ventilação e conforto maior da edificação. Ele evita a toxicidade dos materiais. Outro ponto é a biodiversidade e o contato com a natureza”, explica Léa. 

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